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Desejo, doenças venéreas e medo da morte: os insólitos bordeis da Primeira Guerra Mundial

Durante o conflito, a prostituição representou uma fuga da realidade — e dos fronts — para os combatentes

Caio Tortamano Publicado em 24/03/2020, às 17h56

Um grupo de prostitutas na cidade francesa de Marselha, em 1919
Um grupo de prostitutas na cidade francesa de Marselha, em 1919 - Wikimedia Commons

Durante a Primeira Guerra, soldados britânicos enviados para o continente europeu recebiam uma mensagem clara em suas cadernetas de controle de gastos: eles deveriam resistir às tentações do vinho e, principalmente, dos bordéis. O aviso não era levado a sério. As casas eram partes integrais da rotina dos soldados nos frontes ocidentais, ainda mais na França, que o serviço era legalizado desde o século 19.

Com a chegada de milhares de homens que morreriam longe de suas famílias, a prostituição explodiu na França e na Bélgica. Os bordéis com luminárias azuis na sua fachada eram destinados aos oficiais do exército, já as casas que apresentavam luzes vermelhas eram menos restritas, e tinham como público outros cargos militares.

Os homens se reuniam na frente dos bordéis de luzes vermelhas, como forma de socializar e formavam filas para acessar os locais. Relatos de militares da época comparavam esses momentos com episódios de torcedores ansiosos e animados depois de um empate ao final de um campeonato de futebol.

Necessidade 

Outros militares afirmavam que a ida aos bordéis era mais uma questão de necessidade física do que simples curtição. O tenente britânico R. G. Dixon conta: “Não éramos monges, mas sim soldados em atividade e em ótima forma, mais dispostos, inclusive, do que em nossa própria juventude. Certamente com uma abundância em energia física.”

Ele ainda completou em seu livro de memórias dizendo que “Se o amor comprado não substitui o verdadeiro, parecia bem melhor do que viver sem nada. E, de qualquer forma, funcionou!”.

Aliás, essa necessidade física cabia mais aos homens casados que estavam longe de suas esposas do que os solteiros. Diversos foram os livros de memórias que traziam relatos dos militares quanto as experiências com os prostíbulos.

O sargento Bert Chaney, enquanto inspecionava uma das filas de homens prestes a entrar no local, ouviu de certo soldado que o bordel não era pra rapazes novos que nem ele, mas par aos homens que sentiam falta de suas esposas.

Soldados e prostituta em rua francesa / Crédito: Getty Images

 

Em momentos de tensão — que, logicamente, não eram poucos no contexto de uma guerra — os bordéis enchiam de homens querendo aproveitar seus possíveis últimos momentos em vida

Muitos desses soldados, vindos de criações religiosas, eram virgens — além de muitos terem sido convocados com pouca idade para o front — e não queriam morrer dessa maneira. As visitas aos bordéis poderiam ser uma chance dos soldados de escaparem da morte certeira.

Doenças venéreas

O sexo com prostitutas, na época, poderia resultar em dias no hospital por conta de doenças venéreas. Entretanto, os combatentes estavam dispostos a essa troca.

E, aparentemente, essa era uma saída adotada por muitos rapazes durante o confronto. Isso porque o número de entrada de homens nos hospitais, por doenças do tipo, era muito maior do que as registradas em outros períodos da mesma época.

Para se ter uma ideia, ao longo do curso da guerra, 400 mil casos de doenças venéreas foram tratados. Em 1916, um a cada cinco membros das tropas britânicas, ou aliados, em hospitais da França e da Bélgica era por conta de alguma doença sexualmente transmissível.

Essas circunstâncias são, em resumo, muito específicas de uma determinada época da história em que as pessoas viviam em constante medo de não encontrar o amanhã . Pensando nisso e diante da incerteza, queriam viver de maneira intensa.


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