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Doenças fictícias e abuso infantil: a brutal Síndrome de Münchausen

Com exclusividade à AH, o neurocientista Fabiano de Abreu explica o transtorno psicológico que leva os pacientes a inventar enfermidades para garantir benefícios ou algum tipo de atenção

Pamela Malva Publicado em 31/05/2021, às 19h00

Imagem meramente ilustrativa de pessoa em hospital
Imagem meramente ilustrativa de pessoa em hospital - Parentingupstream/ Creative Commons/ Wikimedia Commons

Em 2015, o assassinato de Dee Dee Blancharde escandalizou os Estados Unidos, já que teria sido orquestrado pela filha da mulher, Gypsy Rose. O choque, contudo, não residia apenas no crime, mas também no fato de que a menina estava supostamente doente.

Vivendo em uma casa no meio-oeste dos Estados Unidos, em Springfield, Missouri, as duas recebiam constante ajuda do governo e de instituições de caridade. Por vezes, a garota deficiente e sua mãe ganharam viagens gratuitas para o Disney World.

Quando questionada sobre as enfermidades da filha, Dee Dee listava as mais variadas complicações. Para todos, Gypsy sofria com anomalias cromossômicas, distrofia muscular, epilepsia, asma severa, apneia do sono, problemas na vista, entre outros.

Segundo a mulher, a garota sempre fora assim, desde quando era bebê. O problema é que quando o corpo de Dee Dee foi descoberto já sem vida, sua filha foi encontrada em outro estado, andando sem cadeira de rodas e livre de qualquer doença visível.

Dee Dee e Gypsy Rose em documentário / Crédito: Divulgação / Youtube / Kelsey Douglas Loredo

 

Condição psicológica

Logo que a farsa das Blancharde foi revelada, muitas pessoas do círculo social das duas começaram a criticar mãe e filha. Para os vizinhos de Dee Dee, por exemplo, ambas estavam mentindo apenas para conseguir benefícios estatais, como sua própria casa.

O problema é que, uma vez que descobriram o caso, os especialistas suspeitaram que Dee Dee tinha Síndrome de Münchausen por Procuração (SMPP). A tese, contudo, nunca foi confirmada, visto que a mulher não deixou nada que possa confirmar o diagnóstico.

Apesar de raro, todavia, o transtorno já fez com que diversas crianças em torno do mundo sofressem nas mãos de seus responsáveis. Com exclusividade ao site da Aventuras na História, então, o neurocientista Fabiano de Abreu explicou a condição.

Dee Dee ao lado de Gypsy Rose / Crédito: Divulgação / Youtube / Kelsey Douglas Loredo

 

Doenças de mentira

“A Síndrome de Münchausen é um transtorno factício e, quando por procuração, pode ser um tipo de abuso infantil, onde um dos pais, na maioria dos casos a mãe, com a intenção de chamar a atenção, simula sinais e sintomas na criança”, explicou Fabiano.

“Como consequência, a criança é submetida a exames, internações e até mesmo tratamentos que, apesar de desnecessários, podem ser perigosos, gerando sequelas psicológicas e físicas”, pontuou o cientista. Foi o que aconteceu com Gypsy Rose.

Com fichários cheios de diagnósticos em mãos, Dee Dee conseguiu fazer com que um tubo de alimentação fosse implantado na filha, que, apesar de conseguir se alimentar normalmente, era obrigada a tomar os alimentos através do tubo em seu estômago.

Gypsy (à esquerda) e Dee Dee / Crédito: Divulgação

 

Faz de conta

Representado pela série ‘The Act’, o caso das Blancharde apresenta um ponto comum em casos de pessoas com SMPP. Na produção, fica claro que Dee Dee tem um amplo conhecimento médico sobre as supostas condições da filha.

Segundo Fabiano, as pessoas diagnosticadas com o transtorno realmente aprofundam seus conhecimentos na área, “tamanha a necessidade de conseguir o seu objetivo”. “Podem ser capazes de manipular documentos para que consigam ser hospitalizados e/ou submetidos a exames, tratamentos e até cirurgias de grande porte”, explicou.

Identificado pela primeira vez em 1977 por Roy Meadow, um pediatra britânico, a Síndrome de Münchausen não tem causas muito claras, segundo a BBC. Especialistas acreditam, contudo, que o quadro seja resultado de abusos, maus-tratos ou abandono.

Imagem meramente ilustrativa de mão com soro/ Crédito: Divulgação/ Pixabay/ Engin_Akyurt

 

Transtorno psicológico

Pontuando que a SMPP pode ser prejudicial até mesmo para a saúde pública, já que existem “gastos desnecessários” com pessoas plenamente saudáveis, Fabiano afirma que uma forma de frear os pacientes com o transtorno é com um "sistema interligado".

Nesse sentido, se as pessoas têm históricos completos disponíveis em um único lugar, existe um “maior controle sobre os resultados reais que definem se realmente é necessária a ajuda médica”. Identificar uma pessoa com SMPP, contudo, não é fácil.

De acordo com Fabiano, os sintomas são parecidos com os da hipocondria, que não é considerada uma doença. A única diferença é que “na síndrome de Münchausen, há consciência do exagero, enquanto o hipocondríaco realmente acredita que está doente”.

Dessa forma, como a Síndrome de Münchausen é uma doença psiquiátrica, seu tratamento deve ser focado na psicoterapia e na terapia cognitivo-comportamental. Ainda assim, segundo Fabiano, “não há ainda um tratamento claramente eficaz”.


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