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Há exatos 65 anos, Nikita Kruschev fazia um discurso denunciando os crimes de Stalin

O evento do Partido Comunista deu início ao processo de 'desestalinização' e mudou de vez os rumos da União Soviética

Alana Sousa Publicado em 24/02/2021, às 07h00

Nikita Kruschev e Josef Stalin
Nikita Kruschev e Josef Stalin - Wikimedia Commons

Assim como em vida, em sua morte Josef Stalin também foi reverenciado. Aquele que se tornara um dos mais importantes líderes da União Soviética veio a óbito em 1953, o laudo oficial apontou para uma hemorragia cerebral — ainda que a teoria possa parecer falsa para alguns.

Após sua morte, o povo soviético entrou em estado de luto profundo. Amado por uns e odiado por outros, não se pode negar as conquistas que Stalin trouxe para a antiga URSS. Colocando em prática muitos dos planos de Lenin, o comunista foi essencial para a derrota da Alemanha Nazista, além de ter tranformado a União Sociética em uma avassaladora potência mundial.

Ao morrer, seu corpo foi depositado no histórico Mausoléu de Lenin para que, junto de seu mentor, descansasse em paz. A influência e presença do líder era forte, por três anos ninguém ousou a tentar manchar sua memória, ou mesmo mencionar qualquer episódio que pudesse arruinar sua reputação gloriosa.

Até que, em 1956, um homem arriscou e expôs para um comitê em uma reunião secreta o que considerava os crimes de Stalin; seu nome: NikitaKruschev. O evento marcava o 20° congresso do Partido Comunista, mas diferente dos outros, este mudaria o futuro da URSS.

O líder soviético Josef Stalin / Crédito: Divulgação/Klimbim

 

O discurso de Kruschev: 'O Culto da Personalidade e suas Consequências'

Kruschev havia se tornado o primeiro-ministro da União Soviética após a morte de Josef Stalin — e seria ele o responsável por modificar a forma como o mundo via o revolucionário comunista.

O congresso foi marcado para 1.500 delegados, que se reuniram no Grande Salão do Kremlin, em 25 de fevereiro de 1956. A expectativa era alta, seria o primeiro evento desde o falecimento do governante.

Intitulado de 'O Culto da Personalidade e suas Consequências', o discurso secreto começou relembrando passagens clássicas do marxismo-leninismo, nos quais o culto à personalidade é profundamente condenado — o que para Nikita estava acontecendo com a figura de Stalin.

Além de mencionar escritos de Vladimir Lenin em que se liam críticas duras ao caráter de Stalin, Kruschev listou alguns dos atos brutais e perseguições que o soviético teria realizado.

“[...]É claro que Stalin mostrou em toda uma série de casos sua intolerância, sua brutalidade e seu abuso de poder. Em vez de provar sua correção política e mobilizar as massas, muitas vezes ele escolheu o caminho da repressão e aniquilação física, não só contra os inimigos reais, mas também contra as pessoas que não tinham cometido qualquer crime contra o partido e o governo soviético. Aqui vemos nenhuma sabedoria, mas apenas uma demonstração da força brutal que outrora tão alarmou Lenin”, dizia parte do discurso.

O ex-primeiro ministro da União Soviética, Nikita Kruschev / Crédito: Wikimedia Commons

 

Entre o exagero de seu papel durante a Segunda Guerra e a falsificação de provas para acusar seus inimigos, Nikita relembrou a transformação de Trótski em um ‘inimigo do povo’. “Stalin descartou o método leninista de convencer e educar, ele abandonou o método de luta ideológica em favor da violência, repressões em massa e terror”, disse Nikita Kruschev.

A plateia, abalada, não expressou qualquer reação. As palavras ditas causaram choque em todos os presentes, que partiram em silêncio. No outro dia, a mídia internacional repercutiu o discurso; pouco tempo depois, o Partido Comunista passou a distribuir cópias do que fora dito.

Enquanto alguns viam verdade naquilo que Kruschev falara, outros observaram uma tentativa de retirar a culpa e apagar os erros do partido e colocar apenas em Stalin. A polarização aconteceu: houve quem apoiou o primeiro-ministro e quem decidiu por deixar a União Soviética.

Desestalinização

A partir daquele momento, a imagem de Stalin começou a ser transformada radicalmente no processo que ficou conhecido como ‘desestalinização’. Ainda naquele ano de 1956, o congresso pediu “para remover total e inteiramente o culto do indivíduo, estranho ao marxismo-leninismo... em todos os aspectos do partido, da atividade governamental e ideológica”.

Cidades mudaram de nome, como Stalingrado (hoje Volgogrado), imagens foram retiradas e, entre tantas mudanças, talvez a maior: o corpo do líder soviético foi removido do Mausoléu de Lenin.

Josef Stalin / Crédito: Wikimedia Commons

 

"A traição de Stalin ao legado de Lenin, o abuso de poder por ele empreendido, a repressão em massa contra cidadãos soviéticos honestos tornam inaceitável manter o caixão que contém seu corpo no Mausoléu de Lenin", disse um comunicado da época.

Em 1961, Kruschev repetiu seu feito, dessa vez em um comitê aberto. Sua ousadia inspirou outros membros do partido a falarem também. A URSS não era mais a mesma. O que restou foram os resistentes a deixar a memória do notório soviético morrer, mantendo a promessa que Stalin fez ainda em vida: “Eu sei que após minha morte, jogarão muito lixo sobre meu túmulo, porém os ventos da história os removerão”.


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