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Harriett Muse, a mulher que lutou para libertar os filhos do circo de aberrações

Mãe de dois meninos albinos, ela enfrentou diversas autoridades em pleno Estados Unidos segregacionista do século 20

Pamela Malva Publicado em 23/05/2020, às 15h00

Harriett ao lado dos filhos e do marido
Harriett ao lado dos filhos e do marido - Divulgação

Você deve ter notado que, nessa mesma semana, produzimos uma matéria sobre George e Willie, os irmãos albinos sequestrados pelo circo. Um terceiro nome presente na narrativa, no entanto, merece uma nota única: a mãe dos garotos, Harriett Muse.

A força da maternidade, quando desafiada, pode mover montanhas. No caso de Harriett, essa determinação foi capaz de mover um processo judicial em meio ao segregacionismo dos Estados Unidos, em meados dos anos 1920.

Naquela época, graças a 13ª emenda da constituição norte-americana, a escravidão já havia sido abolida há mais de 6 décadas. Os conceitos racistas de Jim Crow, no entanto, estavam no auge e negros sequer podiam beber da mesma água que brancos.

Por isso, a avassaladora mulher encontrou muita resistência em sua empreitada de conseguir a liberdade dos filhos. Desaparecidos há cerca de 13 anos, seus meninos George e Willie viviam uma vida complexa junto do Circo Ringling Brothers.

Retrato de George e Willie juntos / Crédito: Divulgação

 

O começo de uma luta

Acometidos por uma característica incomum para a elite branca da época, os irmãos Muse eram jovens afro-americanos albinos. Capturados quando ainda eram crianças, os meninos iam e vinham com freak shows e circos itinerantes.

Em 1914, no entanto, eles deixaram de visitar sua cidade natal em Virgínia e simplesmente desapareceram. Sob os nomes de Eko e Iko, George e Willie eram considerados aberrações e tiveram sua vida normal arrancada de suas mãos.

Harriett, é claro, nunca esqueceu seus meninos. Ela vivia pensando nos dois e nos lugares pelos quais eles estariam espalhando seu carisma. De certa forma, ela até sentia alívio ao imaginar que ambos estavam livres da sociedade cruel e racista.

Willie, o showman Al G Barnes e George, respectivamente / Crédito: Divulgação

 

A quebra da magia

Em pouco tempo, entretanto, a mulher descobriu que, mais do que ninguém, George e Willie sofriam com o preconceito diariamente. A cada apresentação, os jovens albinos eram descritos com nomes e apelidos cada vez mais degradantes.

Em outubro de 1927, Harriett viu a injustiça com seus próprios olhos. Ela não via seus filhos há mais de 10 anos e, naquele dia, teve um misto de sentimentos ao encontrá-los vivos e saudáveis, mas se apresentando frente a uma platéia branca que os ridicularizava por ser quem eram.

Harriett correu até seus filhos e apenas inspirou quando ambos se aconchegaram em seus braços. Estavam enormes, verdadeiros homens. Ela sentiu, então, que deveria lutar pela liberdade de George e Willie e conseguir o que ninguém jamais conseguira.

George e Willie já no circo / Crédito: Divulgação

Uma mãe com garras de ouro

No mesmo dia em que encontrou seus filhos, Harriett enfrentou os donos do circo e os vários policiais que tentaram contê-la. Três dias mais tarde, sem qualquer justiça, ela foi atrás do óbvio: iniciou um processo judicial contra os Ringling Brothers.

Segundo os advogados de Harriett, os irmãos Muse teriam sido mantidos em um regime escravocrata e, assim, ela conseguiu alguns direitos. O circo concordou em pagar um salário aos pais de George e Willie e prometeu contratar o irmão deles, Tom.

A mãe dos irmãos, contudo, queria mais. Em meados de 1928, eles haviam viajado para a Inglaterra, em uma turnê fracassada do circo norte-americano. De volta aos Estados Unidos, os filhos de Harriett continuaram se apresentando por mais 50 anos.

Uma luta solitária

Após o retorno de seus filhos, a mulher viu-se sozinha na luta pela liberdade de George e Willie. Seu marido, considerado perigoso na cidade, foi pego na cama com outra mulher. Com a fama de traidor, o homem foi morto pelo marido da amante e deixou Harriett sozinha, trabalhando como doméstica, em uma batalha colossal contra o sistema.

Ela, ainda assim, não perdeu a vontade de libertar seus filhos e continuou buscando justiça. A mulher economizou todo o dinheiro que conseguiu com as apresentações dos irmãos Muse e usou a quantia para comprar terras no condado de Franklin.

Em 1942, Harriett morreu, aos 68 anos, antes de assistir qualquer justiça acontecer. Como herança, ela deixou uma bela propriedade para seus filhos. Considerados dois dos poucos proprietários de casas afro-americanas do país, George e Willie viveram um final de vida tranquilo em Roanoke. Tudo graças a luta incansável de sua mãe.


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