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Imelda Marcos, a primeira-dama filipina tinha 3 mil sapatos enquanto seu povo vivia na miséria

Enquanto esbanjava uma das maiores coleções de calçados do mundo, o regime de seu marido torturava 75 mil pessoas

Fabio Previdelli Publicado em 04/07/2020, às 08h00

Foto de Imelda Marcos
Foto de Imelda Marcos - Wikimedia Commons

No auge de seu poder, Imelda Marcos, primeira-dama das Filipinas entre 1965 e 1986 — conhecida como borboleta de ferro por conta de seu comportamento autoritário e seu extraordinário glamour —, era, sem dúvidas, uma das mulheres mais poderosas e controversas do mundo.

Renomada por sua inigualável ganância e luxúria material, estima-se que ela e seu marido, o presidente Ferdinando Marcos, tenham roubado bilhões de dólares enquanto estiveram a frente do governo filipino.

Sexto filho de um advogado desconhecido de Manila, cidade filipina, e vencedora de um concurso de beleza local, ela se casou com Ferdinando após 11 dias de namoro. A cerimônia foi secreta, com Imelda usando um anel de noivado no valor de 300.000 libras, algo em torno de 1.6 milhões de reais.

Seu guarda roupas também era repleto de vestidos caríssimos, sem contar o acervo com 175 obras de arte de valor inestimável. Além do mais, ela possuía uma das maiores coleções de sapatos do mundo, com cerca de 3.000 pares.

Imelda Marcos admirando parte de sua coleção de sapatos que foram emviados a um museu / Crédito: Divulgação

 

Desde que se tronou primeira-dama, Imelda passou a se aproximar da política. Influente, ela ajudou seu marido em vários âmbitos administrativos do governo, inclusive, há quem especule que em um determinado momento, ela passou a tomar diversas decisões e Ferdinando apenas concordava com suas imposições.

Internamente, se vangloriava por dormir apenas duas horas por noite para dar conta de cumprir todas as obrigações de sua agenda, que contava com reuniões com figuras políticas importantes, como Saddam Hussein, Ronald Reagan, passando por Lyndon B. Johnson e Gadaffi.

Mas o império de riqueza e poder dos Marcos foi construído com base na miséria total dos filipinos — que morriam de fome — no terror e na corrupção: sua ditadura foi responsável por 3.257 assassinatos extrajudiciais conhecidos, 35.000 torturas documentadas, 77 pessoas desaparecidas e 70.000 encarceramentos.

Imelda Marcos e os ex-presidentes da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos / Crédito: Wikimedia Commons 

 

Ferdinando também fraudou todas as eleições e levou seu país à falência para encher seus bolsos. Seu regime foi recentemente classificado como o segundo mais corrupto — depois da Indonésia de Suharto — do final do século 20.  

E, finalmente, depois de 21 anos de brutalidade e extrema pobreza, o povo se revoltou em 1986, forçando o casal a fugir com seus filhos para o exílio no Havaí. Neste período fora das Filipinas, Ferdinando faleceu no dia 28 de setembro de 1989, 17 dias após seu 72º aniversário.

Dois anos depois, em 1991, a presidente Corazón Aquino permitiu que a família Marcos retornasse ao país. Imelda retorna às Filipinas trazendo o corpo embalsamado de seu marido, que atualmente é exposto ao público como um herói local.

O casal Ferdinando e Imelda Marcos / Crédito: Wikimedia Commons

 

Com essa recepção, ela tenta se candidatar na política. No entanto, somente em 1994 ela assume um cargo público: de deputada, no qual ficou até 1998. Em 2010, ela se elegeu deputada novamente, desta vez, como a mais votada do país. Junto dela, seu filho Ferdinando Jr. e sua filha Imée, se elegeram, respectivamente, senador e governadora.

Em novembro de 2018, ela foi condenada, em um tribunal filipino, a mais de 401 anos de prisão por todos os crimes de desvio de dinheiro que ela cometeu. Porém, apesar do mandado judicial emitido, ela não passou um dia sequer atrás das grades.