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O controverso Corão de Saddam Hussein, que foi escrito com 27 litros de seu sangue

Depois de se tornar um devoto muçulmano, o ditador iraquiano dedicou dois anos de sua vida à produção do insólito exemplar

André Nogueira Publicado em 01/02/2020, às 08h00

Saddam em julgamento, com o Corão na mão
Saddam em julgamento, com o Corão na mão - Getty Images

Bagdá, desde 2003, nunca mais foi a mesma. Com o Iraque dividido e destruído até hoje, muitos vestígios do passado já se tornaram pó. Porém, alguns tesouros inestimáveis do país, principalmente da Era Ba’athista, foram guardados a sete chaves: é o caso de uma curiosa versão do Corão.

Com uma impecável caligrafia árabe, essa edição do Livro Sagrado foi escrita, literalmente, com o sangue do ditador Saddam Hussein, que governou o país entre 1979 e a invasão estrangeira de 2003.

A origem da peça é uma reviravolta na vida do tirano: após a trágica tentativa de assassinato de seu filho Uday, ele converteu-se ao islamismo e se tornou devoto. “Em nome de Allah, Clemente e Misericordioso”, essa e a máxima principal do Corão: Deus sempre perdoará os infiéis convertidos, e será bom, mas pra isso exigirá compromisso e devoção. Foi daí que nasceu a bizarra ideia.

Saddam e o filho Uday / Crédito: Divulgação

 

Então, Saddam permitiu que, ao longo de dois anos, 27 litros de seu próprio sangue fossem retirados e fornecidos a um calígrafo religioso de nome Abbas Shakir Joudi al-Baghdadi.

"Minha vida está cheia de perigos nos quais eu deveria ter perdido muito sangue... mas desde que sangrei um pouco, pedi a alguém que escrevesse as palavras de Deus com meu sangue em gratidão", afirmou o presidente Saddam Hussein em comunicado divulgado oficialmente em 2000.

Ao longo de 600 páginas escritas em árabe, o artista deu corpo ao Livro Sagrado, escrito com o sangue do ditador como tinta. O objeto divide opiniões entre os iraquianos até os dias atuais: as autoridades políticas e religiosas ainda optam por impedir a exibição do livro.

Mesquita de Umm al-Ma'arik / Crédito: Getty Images

 

Isso porque o documento remete a um período infeliz: a ditadura. Ao mesmo tempo, o país possui uma vasta gama de defensores e saudosistas dos tempos de Saddam, antes da guerra e da exploração dos EUA: exibir a obra poderia reascender a glorificação do "Açougueiro de Bagdá". Religiosamente, ao mesmo tempo, essa forma de incorporar um livro sagrado é proibida (haraam, no dogma) por muitos clérigos.

Diante da polêmica, o Corão de Sangue continua trancafiado a sete chaves no subsolo de Bagdá, num porão que, originalmente, integrava à Mesquita de Umm al-Qura, ou de Umm al-Ma’arik, a Mãe de Todas as Batalhas, construída por Saddam em 1991 em comemoração ao fim da Guerra do Golfo.

Oradores da mesquita em salão que expõe o Corão de Sangue / Crédito: Getty Images

 

O salão onde o livro era exibido foi selado por três abóbodas cujas chaves foram dadas, respectivamente, a um sheik, ao comissário da polícia da capital e a um destinatário secreto. Acessá-lo não é uma tarefa simples: exige uma deliberação oficial de um comitê do governo iraquiano e da confiança das autoridades religiosas.


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