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Moema, Iracema e Ubirajara: Conheça os nomes que os indígenas nunca usaram

Muitos nomes de lugares e pessoas não tem nada de nativos; foram inventados por escritores e professores universitários

Redação Publicado em 11/09/2019, às 08h00

Ilustração da obra Iracema, escrita por José de Alencar
Ilustração da obra Iracema, escrita por José de Alencar - Wikimedia Commons

Não há mistério que muitas expressões para descrever locais, plantas e animais do Brasil são indígenas: quando os portugueses não conseguiam descrever algo, usavam as palavras dos povos locais. Tucano e jacaré, por exemplo, são grafias aportuguesadas do tupi tukana e îakaré. Os portugueses também passaram a adotar apelidos com que os indígenas os batizavam, como no caso de kari'oka (carioca, casa de branco).

Até a independência, o Brasil foi um país mais indígena do que português. No interior (incluindo a cidade de São Paulo) falava-se a língua-geral, uma versão do tupi usada por bandeirantes e tropeiros. O idioma, que só era transmitido oralmente, passou a ser registrado na forma escrita pelos jesuítas.

E os falantes de tupi que não pertenciam a etnias indígenas continuaram a dar nomes aos lugares: Curitiba foi batizada em língua geral. Kuri'i é "pinheiro" em guarani, e tiwa significa "muitos" em tupi.

Até a metade do século 18, o tupi era o idioma mais falado no Brasil. Em 1757, o marquês de Pombal tornou o português obrigatório no Brasil. Os jesuítas foram expulsos do país e o ensino de tupi foi proibido nas escolas.

A lei colou nas capitais, mas pouco afetou as populações do interior. Só com a chegada dos imigrantes europeus, no século 19, o português se tornou a língua oficial e os caipiras abandonaram a língua-geral (caipira vem de ka'apir, "cortador de mato", origem de carpir).

Autores do romantismo, como José de Alencar, escreveram romances idealizando os indígenas em busca de uma suposta identidade brasileira. Nomes como Iracema (Doce como Mel) e Ubirajara (Senhor do Mato) são criações de Alencar, e não nomes indígenas de verdade. O nome Moema (mentira), vem do livro Caramuru, de Santa Rita Durão (1781), e nunca foi usado pelos povos tradicionais.

O tupi de dicionário continuou pelo século 20. Novas cidades ganharam nome para ter um tom mais nativo. "Engenheiros fundavam um lugar e ligavam para a USP, consultando os professores de tupi", afirma Eduardo Navarro, especialista em tupi antigo da USP. Votuporanga ("bons ares", fundada em 1937) e Umuarama ("lugar de fazer amigos", de 1955) nunca foram chamados assim pelos indígenas, mas criados como inspiração da língua Tupi.