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A incrível história do professor que salvou 600 crianças dos nazistas

Johan van Hulst participou de uma impressionante operação idealizada por um judeu alemão que comandava um centro de deportação na Holanda ocupada por nazistas

Isabela Barreiros Publicado em 17/12/2020, às 16h16

O professor Johan van Hulst
O professor Johan van Hulst - Wikimedia Commons

Durante a Segunda Guerra Mundial, muitas foram as pessoas que tiveram coragem de agir contra os nazistas e suas ações racistas — ainda que frequentemente escondidas. Estratégias de resgate de judeus foram desenvolvidas durante todos os anos em que Hitler liderou a Alemanha, salvando a vida de milhares de indivíduos.

Lembrar dessas histórias é importante para que percebamos que é necessário se posicionar em situações de injustiça, especialmente em contextos extremos como o do nazismo da Alemanha. Johan van Hulst foi uma dessas pessoas: ele poderia continuar sua vida normal, mas decidiu que ajudaria em um esquema de resgate de crianças.

Holanda invadida

A escola de Van Hulst ao lado da creche / Crédito: Divulgação - Jewish Historical Museum

 

O ano era 1942, dois anos depois da invasão alemã na Holanda. Johan van Hulst era um dos professores de uma escola calvinista na capital do país, que parou de receber subsídios do governo e que deveria ser fechada nos próximos dias. O educador decidiu, porém, que iria lutar pelo colégio.

Sem dinheiro para manter a instituição, o homem teve que visitar os pais de seus alunos pedindo por financiamento. Apenas ele, que se tornou agora o diretor da escola, e alguns poucos outros professores permaneceram. Eles recebiam um salário mínimo para trabalhar ao menos o dobro. 

Mas eles conseguiram. O colégio estava localizado no bairro Plantage, no leste de Amsterdã, e era predominantemente judeu — no período em que o país havia sido invadido pelos nazistas. Mais que isso: o prédio ficava na frente de um antigo teatro que passou a funcionar como um centro de deportação a partir de 1941.

No local confiscado pelos homens de Hitler, ao menos 46 mil pessoas foram deportadas em apenas 18 meses, sendo enviadas principalmente para campos de concentração como Auschwitz e Sobibor, na Polônia ocupada por nazistas, ou em Westerbork, na própria Holanda. Isso aconteceu até o final de 1943.

O plano de resgate

Crianças e bebês na creche / Crédito: Divulgação - Jewish Historical Museum

 

Pode parecer irrealista, mas quem comandava a administração do teatro era nada mais nada menos que um judeu alemão. Ele se chamava Walter Süskind e era membro do conselho judaico holandês, sendo próximo do oficial da SS Ferdinand aus der Fünten. No entanto, o homem tinha outra face bem escondida: ele queria salvar judeus.

Trabalhando no local, Süskind percebeu que não havia fiscalização o suficiente para que “falhas” fossem percebidas por seus superiores. Portanto, caso dissesse que 85 pessoas tivessem sido cadastradas no centro durante um período, em vez de 100, ele poderia salvar 15 indivíduos apenas com essa pequena mudança. E foi o que ele decidiu fazer.

A estratégia logo se tornou de grande escala, ainda que fosse realizada com poucas pessoas. Quando os nazistas ocuparam uma creche do lado da escola de Van Hulst para abrigar crianças antes da deportação, o professor foi convocado para participar da operação. 

As crianças e até mesmo bebês que ficavam na creche eram entregues para a escola de Van Hulst por meio de uma cerca viva que separava os dois prédios. O diretor, então, as entregava para grupos da Resistência que eram os responsáveis por escondê-las dos nazistas em lugares seguros.

O projeto funcionou bem por um período, mas não por tanto tempo. No meio de 1943, Henriëtte Pimentel, que era a chefe da creche e trabalhava com os outros dois para resgatar as crianças, foi detida pelos nazistas e enviada para Auschwitz, onde foi morta pouco depois.

A creche em si também foi esvaziada no mesmo momento. Em entrevista ao jornal Het Parool em 2015, Van Hulst disse: “Tente imaginar 80, 90, talvez 70 ou 100 crianças ali, e você terá que decidir quais crianças levar com você. Esse foi o dia mais difícil da minha vida. Só penso no que não fui capaz de fazer, naqueles poucos milhares de crianças que não consegui salvar".

O epílogo de Van Hulst

Van Hulst depois da guerra / Crédito: Wikimedia Commons

 

O diretor conseguiu manter sua escola funcionando durante a guerra e ainda continuou participando de ações da Resistência. Pouco antes do conflito mundial acabar, ele foi informado de que nazistas estavam vindo prendê-lo e se escondeu, o que fez com que ele sobrevivesse.

E muito tempo. Após a guerra, Van Hulst ocupou o cargo de senador na Holanda por 25 anos e ainda fez parte do Parlamento Europeu por mais sete. Continuou atuando na área da política e da educação, e a escola que um dia dirigiu agora abriga o importante Museu Nacional do Holocausto. Ele morreu em 22 de março de 2018 aos 107 anos.


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