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John Kellogg, o médico que inventou o cereal matinal para combater o desejo sexual

Conservador e religioso radical, o americano era contra a masturbação e chegou a fundar uma instituição para defender a segregação racial

Alana Sousa Publicado em 26/09/2020, às 09h00

O médico, religioso e inventor John Kellogg
O médico, religioso e inventor John Kellogg - Wikimedia Commons

Medicina, religião e uma rixa com o próprio irmão. A saga de John Harvey Kellogg foi repleta de reviravoltas e controvérsias que resultou em uma criação inesperada — e lucrativa. Buscando uma vida saudável e uma solução eficaz para quaisquer desejos sexuais, o médico americano era um exemplo na Igreja Adventista do Sétimo Dia até ser excomungado por suas crenças polêmicas; isso tudo para combater algo que ele considerava um dos piores crimes: a masturbação.

Contra o sexo e a masturbação

John Harvey Kellogg nasceu em Michigan, no ano de 1852. Ainda na infância mudou-se para a cidade de Battle Creek, foi lá que desenvolveu sua reputação e encarou seus maiores desafios.

Na região, a família Kellog passou a frequentar uma igreja adventista que havia sido fundada por Ellen White. Rapidamente eles se tornaram próximos e, ao atingir a adolescência, White decidiu bancar a faculdade de John, que resolveu estudar medicina.

Voltando para a cidade, já formado, em meados de 1876, ficou responsável por comandar o Sanatório Battle Creek, que era administrado pela Igreja. Em pouco tempo, viu sua carreira atingir novos patamares, se tornou uma espécie de celebridade.

John Harvey Kellogg / Crédito: Wikimedia Commons

 

Todos queriam receber o tratamento que o médico dava para seus pacientes no sanatório. John era um entusiasta da vida saudável, dizia que o segredo para uma vida longa estava na alimentação e no equilíbrio intestinal. Receitava grãos e laxantes; para Kellogg a maioria das doenças poderiam ser curadas, ou prevenidas, com uma simples lavagem intestinal.

Com sua fama cada vez crescendo mais, o americano resolveu dar mais um passo e começou a listar algumas coisas que deveriam ser evitadas para um bem maior, tais quais, carne, álcool e tabaco. Porém, sua proibição mais polêmica era aquela que também era quase impossível de ser seguida: o sexo.

“Ele se tornou um escravo do hábito. Sua dieta ruim, a constipação frequente e problemas nos órgãos genitais produziam uma ereção quase constante, que só podia ser aliviada pela masturbação (…) Depois de três ou quatro anos, com rezas e a adoção de uma dieta mais saudável, conseguiu controlar o vício.” Trecho de seu livro Plain Facts about Sexual Life (Fatos sobre a vida sexual, em tradução livre), publicado em de 1877.

John Kellogg acreditava que o sexo fazia mal para quem praticasse, sendo a razão por trás de complicações de saúde; a masturbação era o equivalente a cometer um ato hediondo. Chegou a expor 39 sintomas de quem se masturbava, como acne, má postura e epilepsia. Apesar de incomum, a fala não era da boca para fora. Em sua vida pessoal, o médico também seguia suas próprias instruções. Ficou casado por quatro décadas, com Ella Eaton, e jamais teve relações sexuais.

Quem não conseguia seguir o tratamento de abstinência sexual aconselhado pelo profissional, era direcionado para um método mais peculiar, que beirava a brutalidade. Para os homens, era realizada uma circuncisão sem anestesia, juntamente com uma série de choques elétricos. Já para as mulheres, uma injeção de ácido carbólico era aplicada no clitóris.

Granola e cereal matinal

No final do século 19, Kellogg já havia criado e patenteado dezenas de produtos, entre equipamentos de exercício e instrumentos cirúrgicos. Entretanto, sua maior criação, que vive até os dias de hoje, ainda viria a acontecer.

Buscando a dieta perfeita para os internados no sanatório, o médico preparou uma mistura de grãos de aveia, milho e trigo assados. Sua ideia era criar um alimento sem graça, pois, assim diminuiria a libido de quem comesse. Satisfeito com o resultado, nomeou a invenção de granula, mas outro médico já havia usado esta mesma palavra, assim renomeou para granola — como conhecemos hoje em dia.

Sanatório BAttle Creek / Crédito: Wikimedia Commons

 

Anos depois, William Keith Kellogg, seu irmão mais novo, estava cozinhando uma fornada da granola, que havia dado tão certo que fora instaurada de vez na instituição. Até que, ele perdeu o ponto e o alimento se tornou pequenos e crocantes flocos de trigo. Ainda mais contentes com o que acabaram de descobrir, recriaram a fornada, só que desta vez com milho.

Fizeram de seus corn flakes (como haviam batizado) uma patente e, em 1897, fundaram uma empresa para fabricar o mais recente produto, a Sanitas Food Company.

O que poderia ser um grande negócio entre irmãos, virou um motivo de combate. Como ambos já não se davam bem antes, a patente se mostrou mais um exemplo das divergências entre eles. Enquanto John não buscava dinheiro e divulgava a receita do cereal para quem quisesse saber, William queria ampliar cada vez mais seu empreendimento.

Uma ação de Will consolidou de vez a rivalidade com John. Ele decidiu acrescentar açúcar ao cereal, o que já era um sucesso tornou-se um fenômeno indiscutível. Nasceu uma indústria de competição, não só em Battle Creek, mas ao redor dos EUA. A empresa então mudou de nome e virou Battle Creek Toasted Corn Flake Company, até que depois de um tempo adquiriu a identificação que existe até agora, Kellogg Company.

Enquanto o irmão se aproveitava da ideia e ganhava cada vez mais dinheiro, o médico estava mais preocupado com seus deveres com o sanatório, até que um incêndio destruiu tudo. Procurando a velha amiga Ellen para ajuda-lo a reconstruir o edifício, recebeu uma resposta negativa. Optou então por escrever um livro para obter a quantia que necessitava.

Ao contrário do que esperava, sua obra, de 1903, The Living Temple (O templo vivo, em português) recebeu duras críticas. Com uma doutrina panteísta, o livro era cheio de suas crenças pessoais, que de nada agradaram a Igreja Adventista; Kellogg foi excomungado, quatro anos depois da publicação.

Fábrica da Kellogg Company / Crédito: Wikimedia Commons

 

O fim

Parecia que nada em sua vida poderia ficar pior, quando se envolveu em uma polêmica ainda maior, tempos depois fundou uma instituição que defendia a segregação racial nos EUA, a Race Betterment Foundation. Utilizou de seus conhecimentos medicinais para defender um melhoramento genético, visando alcançar uma pureza racial. Ainda ligava doenças como insanidade e epilepsia como condições de raças inferiores aos brancos.

Manteve até o final da vida sua ideologia de supremacia branca, cada vez mais perdendo o respeito de outros profissionais e antigos admiradores. Morreu em 1943, aos 91 anos, sem nunca fazer as pazes com o irmão.


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