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Sobrevivência, superação e redenção na Segunda Guerra: A incrível trajetória de Louis Zamperini

Foi aos Jogos Olímpicos, conheceu Hitler, lutou na guerra, sobreviveu à deriva no Pacífico, foi dado como morto nos EUA, foi torturado em um campo de prisioneiros no Japão, descobriu a fé e perdoou aos inimigos

M.R. Terci Publicado em 03/07/2020, às 10h00

Louis Zamperini
Louis Zamperini - Divulgação/Universal Pictures

Nas Olimpíadas de Inverno de Nagano, em 1998, uma cena chamou a atenção do mundo e, certamente, ficou para sempre marcada na memória de todos como um dos momentos mais emocionantes de todos os jogos. O ex-corredor olímpico Louis Zamperini, que representou os Estados Unidos nas Olimpíadas de 1936, em Berlim, aos 80 anos de idade, carregou a tocha olímpica durante a cerimônia de abertura.

Correndo, sorridente e acenando para o público que acompanhava as festividades, Zamperini cumpria a promessa que fizera muito tempo antes de sua carreira ser interrompida pela Segunda Guerra Mundial.

Mas nem de perto essa é a parte incrível de sua história.

Venham comigo, pelos caminhos mais escuros da história, testemunhar o indomável espírito humano de um jovem e seu inquebrantável desejo de superar os horrores de um dos mais cruéis e mortíferos campos de prisioneiros do Japão.

Nas Olimpíadas de 1936, Zamperini ficou em oitavo lugar na prova dos 5.000 metros. Não venceu, mas foi o mais veloz de todos em sua última volta, tanto que bateu o recorde mundial. Um feito tão notável que recebeu os cumprimentos de Adolf Hitler depois de cruzar a linha de chegada.

Após o término, Hitler mandou conduzir o jovem até seu camarote, trocaram um breve aperto de mão. "Nem penso muito nisso.” – mencionou Zamperini em suas memórias – “Não significou grande coisa. Bom, ele parecia mesmo um comediante de Hollywood. Na altura não podíamos imaginar que ele ia tentar conquistar toda a Europa e que tinha sonhos de dominar o mundo”.

Nessa ocasião, o filho de italianos entregou a Joseph Goebbels, o temido ministro da propaganda nazista, uma máquina fotográfica, pedindo que fizesse uma foto com o ditador alemão. A surpresa foi tamanha que Goebbels concordou.

Além dessa traquinagem, guardou pelo resto da vida outro souvenir; uma bandeira com a suástica nazista que conseguiu furtar da chancelaria do hotel onde estavam.

Aos 19 anos, ele já era o mais jovem americano a se qualificar para essa modalidade e um dos mais promissores talentos do atletismo mundial. Louie Zamperini mostrava assim que poderia brilhar nos próximos jogos, previstos para Tóquio, em 1940. No entanto, esta edição das Olimpíadas nunca aconteceu, por conta da Segunda Guerra Mundial.

Convocado, o fundista se destacou entre os aviadores e logo se tornou segundo-tenente de um esquadrão aéreo de bombardeiros. O Super Man — nome dado pela tripulação ao B-24 — havia sido a estrela em uma missão arriscada de bombardeamento no atol de Wake, uma das primeiras vitórias infligidas pelos americanos às forças japonesas. Muito avariado, o bombardeiro quase se espatifou na aterrissagem; o Super Man exibia 594 orifícios de bala.

Louis Zamperini quando era atleta / Crédito: Getty Images

 

As estatísticas não eram boa companhia para os tripulantes do B-24, também chamados Caixão Voador. A comissão normal de um tripulante de 40 missões de combate era praticamente uma meta inalcançável. Esse recorde Louie não conseguiu quebrar. Uma missão de resgate sobre o Pacífico, a 27 de maio de 1943, seria última da tripulação.

No livro, Louie recorda o seu último pensamento antes de o aparelho atingir a água com violência: "Ninguém vai conseguir sobreviver a isto." Estava enganado. O piloto, Phil, e o artilheiro da cauda, Mac, estavam à superfície quando ele emergiu.

Os três homens instalaram-se como puderam em duas balsas salva-vidas e prepararam-se para aguardar o salvamento. Infelizmente o resgate norte-americano nunca veio. Nessa época, apenas uma pequena percentagem dos resgates realizados no Pacífico eram coroados com êxito.

Mas Louie Zamperini decidiu que esse era apenas um novo recorde para bater.

Durante semanas, os três homens resistiram ao sol, ao mar e ao desespero, beberam água da chuva, comeram aves e peixes que apanhavam e enxotaram tubarões igualmente famintos que a todo momento investiam contra as balsas.

Até ao dia em que um avião japonês os detectou.

Por três vezes o caça inimigo mergulhou e metralhou as balsas. Nos dois primeiros ataques, Louie mergulhou para baixo da balsa, por entre os tubarões, enquanto seus companheiros ficaram na superfície. As balas acertaram em todo o lado menos no pequeno espaço onde estavam. Havia 48 buracos de bala no bote. Na ocasião comentou: “Se os japoneses continuarem atirando assim, vamos ganhar a guerra.” Outro milagre, mas apenas uma das balsas resistiu e com remendos e manobras, conseguiram mantê-la flutuando.

Mac morreu, ao 33º dia de sofrimento. Uma infindável calmaria de antecedeu o pior e após dias de martírio e quase morrerem de sede, um enorme tubarão branco atacou a balsa.

Escaparam por pouco, mas isso era apenas o prenúncio do pior.

Louis Zamperini enquanto soldado na Segunda Guerra / Crédito: Getty Images

 

Naquela noite um tufão chegou àquela latitude. Ondas gigantescas jogavam a pequena balsa para os céus, relâmpagos atravessavam suas vistas fatigadas e, então, novamente desciam aos abismos oceânicos, sem jamais saber se novamente voltariam a subir. E durante toda a madrugada e parte da manhã, Louie e Phil lutaram contra o maior dos inimigos: a vontade de desistir e se entregar.

Eles não sabiam, mas nos EUA, já eram dados como mortos.

Quarenta e sete dias se passaram, próximos às Ilhas Marshall, a mais de 1700 milhas marítimas do local da queda, foram resgatados.

Infelizmente, por militares japoneses. Daí ambos passam 43 dias em Kwajalein – conhecida como Ilha da Execução – local onde os prisioneiros norte-americanos eram levados para serem decapitados a golpe de katana.

Zamperini pesava pouco mais de 30 kg a essa altura, dormia no chão da cela, com a cabeça no buraco da fossa.  A diarreia que o atormentava era uma benesse, porque os únicos momentos em que era autorizado a tirar a cabeça da entrada do buraco era quando se agachava sobre ele para descarregar os intestinos. A água consumida era imunda. Eram mantidos separados e alimentados com pequenas porções de arroz atiradas no chão das celas.

Os interrogatórios eram brutais, eram devolvidos às celas sempre inconscientes e, não bastasse isso, usaram ambos como cobaias de experiências médicas monstruosas. A terceira vez que viu um médico japonês naquele campo quase matou Louie.

Em setembro de 1944, Zamperini foi separado do amigo e transferido para Omori, um campo perto de Tóquio. Lá, conheceu Mutsuhiro Watanabe, um psicopata que torturava sadicamente, física e emocionalmente, os prisioneiros.

Assim que o oficial percebeu que Zamperini era um herói no seu país, Watanabe, conhecido como O Pássaro, assumiu a missão de transformar num inferno a vida do seu prisioneiro número um.

Louie era assim o seu alvo favorito. Agressão após agressão, humilhação em cima de humilhação. Quando o Pássaro lhe exigia que o olhasse nos olhos, descobria ódio profundo ao invés de submissão e redobrava a tortura. 

“Eu rezava para voltar no tempo, para ficar à deriva no mar.” – mencionava Louis.

Mas ele sobreviveu.

Acima de qualquer episódio de sua vida, O Pássaro marcou a vida de Zamperini. Com o fim da guerra, mesmo após ser libertado, Louis revivia em seus pesadelos, noite após noite, aqueles momentos de dor e horror. Nos EUA, ele se casou, teve uma filha, mas a família já se desintegrava porque Louie bebia demais e arquitetava planos de voltar ao Japão e assassinar Watanabe.

A guerra acabara, mas não em seu coração.

Louis Zamperini em 1985 / Crédito: Getty Images

 

Um dia, em outubro de 1949, arrastado pela mulher, foi assistir a um sermão do pregador evangelista Billy Graham e de um momento para o outro, Louie percebeu que estava em paz.

"Dei-me conta de que tinha perdoado a todos os meus antigos guardas, ao Pássaro, toda a gente. Era toda uma nova vida e tenho-a seguido desde então. A guerra quase me destruiu, tinha pesadelos todas as noites... depois de ter chegado a Cristo, nunca mais tive pesadelos." – conta.

Aos 80 anos de idade, quando foi convidado para transportar a tocha olímpica dos Jogos Olímpicos de Inverno em Nagano, em 1998, reencontrou todos os guardas de Omori, exceto Watanabe que se recusou a vê-lo, talvez, por não suportar olhar em seus olhos.

"Reencontrá-los foi o dia mais feliz da minha vida." – conta Louie no livro de Laura Hillenbrand, lançado, em 2011, com o título Invencível. Um livro com mais de 500 páginas, repleto de histórias emocionantes e inspiradoras.

As histórias de superação não terminam por aí.

Quando soube que Laura, sua biógrafa e autora do best-seller Seabiscuit, sofria de síndrome de fadiga crônica, uma doença altamente incapacitante, cujas fases mais agudas envolvem dores e dias de tonturas permanentes, Louie mandou-lhe a sua medalha Purple Heart – a mais alta condecoração militar dos EUA –, dizendo que ela a merecia mais do ele.

"Nunca soube que ela estava doente até o ler no livro", conta Zamperini. "Ela nunca me disse. Quando me apercebi de que ela estava em sofrimento há 30 anos e eu só sofri um par de anos no campo de prisioneiros, mandei-lhe a minha medalha."

O livro sobre a vida de Louie se tornou um best-seller que inspirou o filme produzido e dirigido por Angelina Jolie em 2014.

“Não estou muito entusiasmado com o filme, estou mais interessado no livro, porque acho que um livro vai mais direto às mentes e aos corações. Já o filme... bom, eles vão fazer um bom trabalho, têm boa gente, portanto acho que vai ser bom. Vou tentar ver o filme. Vou tentar.” – disse algumas semanas antes de findar a produção.

Louie morreu em paz, na presença de toda a sua família, em 2 de julho de 2014, aos 97 anos de idade, em sua casa em Los Angeles, Califórnia.

O filme, indicado a 3 categorias no Oscar e vencedor do British Academy Film Awards, estreou nos Estados Unidos, naquele mesmo ano, no Natal.

Aos 97 anos, Louie deixou um notável legado e uma vida recheada de histórias dramáticas, episódios divertidos, momentos de glória e abismos de desespero.

A vida dele era um filme.


M.R. Terci é escritor e roteirista; criador de “Imperiais de Gran Abuelo” (2018), romance finalista no Prêmio Cubo de Ouro, que tem como cenário a Guerra Paraguai, e “Bairro da Cripta” (2019), ambientado na Belle Époque brasileira, ambos publicados pela Editora Pandorga.


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