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O racismo afetivo acoberta a defesa do patrimônio racista no país

A discussão vai além do episódio ocorrido no último sábado, 24, quando a estátua do escravista Borba Gato foi incendiada

Erica Malunguinho Publicado em 07/08/2021, às 09h00

Estátua do bandeirante Borba Gato em chamas
Estátua do bandeirante Borba Gato em chamas - Divulgação / Youtube / UOL

O país inteiro foi surpreendido no último sábado, 24, quando a estátua do bandeirante Borba Gato, instaurada na região de Santo Amaro (zona sul de São Paulo), foi incendiada. Erguida em 1962, a obra de Júlio Guerra remete a saga problemática dos homens que desbravaram o interior do país. 

Conforme relatado na obra ‘Vida e Morte do Bandeirante’, escrita no ano de 1929 por Alcântara Machado, durante esses episódios, os homens acabavam não só realizando a captura, mas também escravizando indígenas e negros. Indo além, em momentos de confrontos essas pessoas acabavam sendo assassinadas.

Também é relatado que os bandeirantes não só violaram sexualmente mulheres indígenas, como também as traficavam. Além disso, minas localizadas ao redor das moradias indígenas, que contavam com metais, foram roubadas.

Crédito: Daniel Eduardo (@danieleduardo_)

 

Não se trata, exclusivamente, de se referir à exaustão ao episódio do fatídico sábado (24/7). O que aquece uma discussão mais profunda está na crônica mobilização em defesa do patrimônio racista brasileiro.

Temos, evidenciando esse argumento, uma lista enorme de casos do tipo no decorrer da história. Figuras homenageadas ou endeusadas como ícones históricos e culturais seguem em evidência, muitas vezes sob uma defesa que ignora – ou não – suas ações racistas.

Algumas delas remontam ao período colonial, outras já fazem referência a existências modernas. Deste primeiro tipo temos, por exemplo, em São Paulo, o Monumento às Bandeiras, o Monumento a Duque de Caxias ou mesmo, no coração da cidade, a escultura “Glória aos fundadores da cidade”, com uma agressiva menção visual à exploração do trabalho forçado de indígenas para erguimento da então ‘vila’.

 
 
 
 
 
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Referências mais modernas que atuam à contramão do movimento por igualdade e inclusão estão, entre outros tantos, em casos como o da manutenção do nome do restaurante de “alto-padrão” ‘Senzala’ (Alto de Pinheiros), numa insensível alusão a um lugar de sofrimento, violência e opressão dos povos negros.

Noutra verve vemos a absolvição institucional do atleta Arthur Nory, acusado por um companheiro de modalidade (Ginástica Artística), ao ser convocado sem ressalvas ao Jogos Olímpicos de Tóquio, enquanto o denunciante encara uma caminhada sem clube, desde que foi afastado do Pinheiros após o episódio, e sem patrocínio. Ainda vale relembrar e denunciar a exaltação à bandeira dos Estados Confederados exibida livremente em festa realizada no município de Santa Bárbara D’Oeste, no interior paulista. Isso diz respeito a alusão explícita ao símbolo máximo dos escravagistas do sul dos E.U.A durante a guerra civil no país, ocorrida entre 1861 e 1865.

No último dia 31/7, foi anunciada a reabertura do Museu Nacional da Língua Portuguesa com convidados internacionais, entre eles dos presidentes de Cabo Verde e Portugal. Sim, é uma ação necessária, ainda mais se pensando na precariedade que os Museus Paulistas tem se encontrado há alguns anos.

Mas mesmo nestes espaços de memória, os idiomas de origem africana, ainda são subalternos, colocados como elementos que complementam - que se somam -, mas que nunca são protagonistas, como elementos fundantes do nosso falar negro-indígena. Neste sentido recomendei ao Condephaat que os idiomas de origem, yorubá, bantu e fon fossem reconhecidos como patrimônio imaterial do Estado de São Paulo.

 
 
 
 
 
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Diante deste nebuloso horizonte, vale relembrar a PL 404/2020, de minha autoria, que propõe revisão de homenagens e estátuas de escravistas nos espaços públicos, assim como a proibição de honrarias para escravocratas. Neste projeto, que deve ser acompanhado de uma mudança nos paradigmas culturais e educacionais de nossa sociedade em diversas frentes, há parte do caminho a ser percorrido para a inversão dessa realidade. Trata-se de um pequeno florescer num árido terreno, mas sua valia e importância possuem caráter de urgência.

Adiciono ao tema uma leitura psicanalítica, que deve ser um ponto para observação deste ciclo do racismo. Não poderia ser de outra forma, pois o sadismo em torno da opressão e da tortura é algo bem conhecido e que se mantém na mentalidade daqueles que fazem questão de ostentar e defender símbolos, pessoas e narrativas que dão materialidade a esta violência. Talvez haja aí uma pulsão de morte em desequilíbrio.

Retomando o episódio recente com a estátua de Borba Gato, e fazendo menção a tantas outras com simbologia similar, propor sua saída de cena – como dito no escopo da PL - não significa “apagar a história”. História é feita de mudanças e permanências, e sua retirada fará parte desta história, visto a fluidez de sua natureza. O próprio incêndio de sua estrutura já é parte da história do monumento.

Por fim, e porque não, é importante relembrar de um termo que incomoda a quem se engaja pela manutenção do status-quo: representatividade. Borba Gato é a representação da prevalência histórica que demarca a desigualdade, e isso explica o porquê de sua defesa tão enfática.


Erica Malunguinho da Silva é educadora e deputada estadual por São Paulo, sendo a primeira mulher transexual da Assembleia Legislativa de São Paulo.