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Pânico nos inimigos: O mais bem projetado tanque da Segunda Guerra era da União Soviética

Com um desenho revolucionário, o T-34 apresentou diversas inovações durante o combate

João Barone Publicado em 21/12/2020, às 10h00

Um T-34
Um T-34 - Wikimedia Commons

O temível front soviético foi palco de alguns dos mais dramáticos episódios durante a Segunda Guerra Mundial. A liderança com mãos de ferro de Stalin forçou o povo russo a sacrifícios e sofrimentos além da condição humana, para travar a chamada “Grande Guerra Patriótica”.

A Alemanha nazista começou a Operação Barbarossa, invadindo a Rússia na primavera de 1941. O que parecia uma campanha vitoriosa nos seus primeiros meses, com os alemães usando a Blitzkrieg (guerra-relâmpago) e chegando até a 80 quilômetros de Moscou, acabou se tornando em pouco tempo uma humilhante derrota.

Um dos símbolos da virada do placar a favor dos russos foi o tanque médio T-34. Considerado pelos especialistas o tanque mais bem projetado do conflito, trouxe inovações profundas no design dos carros de combate para a época e reescreveu a história dos tanques.

O Exército Vermelho, na fase inicial da guerra, estava defasado em doutrina e equipamentos para enfrentar o moderno e bem equipado exército alemão. Grande parte disso se deveu aos expurgos dos militares de maior patente, promovidos por Stalin no final dos anos 30.

Imagem do tirano Stalin /Crédito: Getty Images

 

Isso deixou seu exército como uma cobra sem cabeça. Durante a ofensiva alemã, a então União Soviética foi obrigada a tirar esse atraso desesperadamente, a fim de debelar o inimigo invasor.

Obstáculos 

Em meio ao esforço de reequipar o Exército Vermelho, engenheiros russos receberam a missão de projetar um novo tanque médio e acabaram por criar uma máquina fantástica, com desenho revolucionário, perfil baixo, esteiras largas (para não atolar na lama), blindagem e armamento superiores aos dos tanques alemães da época e de fácil fabricação em série.

Um tanque T-34 /Crédito: Wikimedia Commons

 

Um grande avanço no projeto do T-34 foi a inclinação em 60 graus das blindagens frontal e lateral, para desviar projéteis, que resvalavam na carcaça do tanque, sem penetrar nela.

O projeto do T-34 começou em 1939. Devido a problemas burocráticos e perseguições políticas dentro das diretorias de produção de armamentos, o tanque demorou a ser fabricado e a entrar em operação, substituindo os obsoletos tanques leves T-26 e BT-5. O nome do tanque é uma homenagem a um decreto de 1934 que promoveu a reforma na produção de carros de combate na União Soviética.

Pânico 

Ao invadir a União Soviética, os alemães estavam inferiorizados tanto em número de homens como de armas, porém, num primeiro momento, conseguiu suplantar o Exército Vermelho graças a sua superioridade tática.

Desde o começo da invasão, o T-34 já se encontrava em ação em alguns batalhões blindados, mas eram operados por tripulações mal treinadas. O tanque era desconhecido das forças alemãs e causou verdadeiro pânico nos primeiros confrontos.

Relatos desesperados de soldados alemães descreviam que as armas antitanque não surtiam efeito sobre o T-34. Depois, foi a vez de os tanques alemães Panzer III e IV verem seus projéteis ricochetearem na blindagem angulada do T-34. Somente com o apoio aéreo e táticas mais eficazes, os alemães conseguiram efetivamente debelar esses blindados.

Provando-se excelente no campo de batalha, as forças russas necessitaram aumentar a produção do T-34 nas várias fábricas existentes, além de treinar melhor as tripulações para dirigi-lo. Em poucos meses, a produção cresceu e o tanque tornou-se o cavalo de batalha do Exército Vermelho.

Esforço

Tanques eram enviados sem pintura para o combate, saindo diretamente de uma das linhas de produção em Stalingrado, mesmo durante o cerco alemão na batalha pela cidade. Ao longo de 1942, toda a produção de armamentos soviética foi levada para o Leste, além dos Montes Urais, num esforço espetacular, escapando dos ataques alemães.

Lá havia uma fábrica de tanques que deu nome a uma cidade: Tankograd, ou “cidade dos tanques”. Não só o T-34 em suas duas versões (76 e 85), como outros modelos de tanques pesados eram produzidos pelos operários dia e noite, sendo despachados imediatamente para combate.

A produção era funcional ao máximo. As peças do T-34 eram fundidas e suas partes eram montadas e soldadas sem tempo para maiores acabamentos, dando forma a verdadeiros monstros de metal. A tripulação de quatro homens exigia que o comandante acumulasse a função de artilheiro.

O motorista era também mecânico. Mais tarde, o modelo T-34/85, com uma torre maior para receber o canhão de 85 milímetros, melhorou essas funções, com tripulação de cinco homens. No esforço de guerra, muitas mulheres lutaram no Exército Vermelho e foram até comandantes de tanques.

Outro fator de confiabilidade do T-34 era seu robusto motor de 12 cilindros a diesel, feito de alumínio. Curiosamente, a suspensão do T-34 era baseada em um modelo patenteado pelo americano Walter Kristie.

Exemplares do T-34 foram capturados e levados para avaliação por engenheiros alemães. As idéias usadas no design desse tanque foram então aplicadas na produção do igualmente temível Panther, ou Panzer V, que entrou em ação em 1943.

A nova geração de tanques alemães médios e pesados suplantou o T-34, mas não pôde ser produzida em quantidade suficiente pelo já combalido parque industrial alemão.

Numa versão moderna da lenda que dizia não nascer grama onde pisava o cavalo de Átila, o huno, hordas de T-34 amassaram as planícies do Cáucaso e adentraram vitoriosamente Berlim, em abril de 1945.

Cerca de 55 mil unidades das duas versões do T-34 foram fabricadas, sendo um terço do modelo 85. O número total dos T-34 produzidos durante a Segunda Guerra superou o de todos os tanques feitos pela Alemanha no mesmo período.

A excelência do design do T-34 influenciou todos os tanques que o seguiram na História. O modelo 85, que tinha a torre maior, continuou sendo fabricado em vários países do Leste europeu e do Oriente no pós-guerra. O T-34 ainda encontrou serviço em vários exércitos apoiados pelo regime de Moscou (como Cuba, Polônia e em países africanos), até o final dos anos 70.