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A curiosa saga de Marthe Richard, a antiga prostituta que ajudou a fechar bordéis

Conhecida como uma heroína de guerra, a jovem ajudou a colocar um fim em todos os 1.400 bordéis da França, em meados de 1940

Pamela Malva Publicado em 06/05/2020, às 08h00

A revolucionária Marthe Richard
A revolucionária Marthe Richard - Wikimedia Commons

No dia 13 de abril de 1946, cerca de 1,4 mil bordéis foram fechados em toda a França. Com isso, milhares de mulheres tiveram seus nomes retirados dos registros de prostituição do país e puderam retornar às suas vidas normais.

Ainda que pareça um avanço institucional, a iniciativa partiu de uma única pessoa, em conjunto com políticos poderosos. Uma vez prostituta, foi Marthe Richard quem deu o pontapé inicial na mudança tão radical para a época.

Embora muitas moças continuassem vendendo seus corpos em troca de dinheiro, os bordéis já não eram mais legalizados, o que deixava Marthe satisfeita. Vítima dessa vida complexa e, por vezes, trágica, ela lutou desde nova para mudar seu destino.

Marthe Richard em 1915 / Crédito: Wikimedia Commons

As origens de uma dama

Marthe Richard nasceu em Blâmont, na França, em 15 de agosto de 1889. Mais nova entre os três filhos de um casal modesto, a menina cresceu com um pai violento e alcoólatra e uma mãe que trabalhava como doméstica.

Aos 14 anos, foi enviada a um convento, onde virou aprendiz de um alfaiate. Infeliz com a vida limitada, a garota fugiu dos pais e encontrou abrigo em Nancy. Na nova cidade, conheceu um escultor italiano.

A jovem Marthe logo caiu nos charmes do cavalheiro e se apaixonou por ele. Em 1905, no entanto, aos 16 anos, a adolescente descobre que o homem, na verdade, trabalha como cafetão. Mesmo tão jovem, então, ela começa a trabalhar nas ruas.

Em um dia normal, Marthe chegava a encontrar 50 homens. Dessa forma, quando um soldado a acusou de portar sífilis, todos acreditaram no militar e a menina teve de fugir novamente. Dessa vez, rumou para Paris.

 

A cidade dos sonhos

Uma vez instalada na capital francesa, conheceu Henry Richer, um industrial rico que trabalhava em Les Halles, em 1907. Apaixonou-se mais uma vez e, em pouco tempo, casou-se com o homem confiável.

Marthe Richard com seu capacete de aviação / Crédito: Wikimedia Commons

Com o matrimônio, todo o passado de Marthe ficou para trás. Nos registros nacionais, entretanto, a figura era um tanto diferente: a mais nova burguesa da Belle Époque  ainda estava creditada como prostituta. Seu pedido de remoção foi negado — não importava que ela vivesse em uma mansão agora.

Em meados de 1913, Marthe descobriu sua paixão por aviação e, em junho daquele ano, obteve sua licença como pilota. A mulher não abandonou seu avião nem mesmo quando sofreu um acidente e ficou em coma por três semanas, em agosto.

Durante a Primeira Guerra Mundial, entretanto, Henry Richer morreu em batalha, em 1916. De luto, Marthe acabou se envolvendo com espiões europeus e foi apresentada ao capitão Georges Ladoux por seu amante, um jovem anarquista russo.

Uma nova vida

Como primeiro trabalho, Marthe tornou-se amante do alemão Hans von Krohn, a fim de conseguir informações do país. Seu codinome, todavia, foi descoberto e a equipe de espionagem tem de voltar para a França, onde Georges Ladoux foi preso.

Em Abril de 1926, a ex-espiã se casou com o britânico Thomas Crompton, diretor financeiro da fundação Rockefeller. No entanto, quando seu segundo esposo morreu de forma inesperada, Marthe decidiu se mudar para Bougival.

Recuperada do luto e da guerra, a mulher publicou o livro Minha vida como espião no serviço francês, sob o pseudônimo de Richard. A obra virou um best-seller e Marthe rapidamente se tornou uma heroína francesa.

Em 1945, agora famosa, a mais nova escritora foi eleita vereadora no conselho municipal do 4º distrito de Paris. Nesse momento, o Movimento Popular Republicano (MRP) decidiu por tentar proibir a prostituição no país.

Retrato de Marthe Richard em 1915 / Crédito: Wikimedia Commons

 

Uma luta ativista

Movida pela causa da MRP, Marthe tentou levar a luta para dentro do conselho municipal, mas todas as suas justificativas foram recusadas. Imbatível, a política, então, apresentou um novo plano para o fechamento de bordéis no distrito.

A proposta da mulher, que era bastante influente na época, foi aprovada e, em três meses, todos os bordéis de Paris tiveram suas atividades encerradas. Feliz com a vitória, Marthe decidiu ampliar sua campanha para toda a França.

Assim, com o apoio de Marcel Roclore, Ministro de Estado, e Pierre Dominjon, o projeto de lei contra os bordéis franceses, conhecido como La Loi Marthe Richard, foi aprovado com os votos da bancada democrata cristã e dos comunistas.

Aos 92 anos, Marthe Richard deu seu último suspiro em sua casa, em Paris, em fevereiro de 1982. Sua história foi cremada junto de seu corpo, cujas cinzas foram depositadas em um columbário parisiense.


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