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Setos: o antigo povo que a fronteira Estônia-Rússia está destruindo

Impedidos de transitar por todo o território de Setomaa, várias famílias deixaram o local — o que ocasionou no surgimento de “aldeias fantasmas"

Fabio Previdelli Publicado em 04/03/2020, às 14h30

Setos no Radaja Seto Festival, em 2016
Setos no Radaja Seto Festival, em 2016 - Wikimedia Commons

Os controles fronteiriços entre a Estônia e a Rússia estão ativamente destruindo as tradições ancestrais do povo Seto. “É muito mais que uma frustração, é um sentimento muito forte", diz o líder comunitário Oie Sarv em entrevista à BBC. "É como se suas raízes tivessem sido cortadas".

Sarv é uma entre as centenas de pessoas de Setomaa, uma tradicional região que fica na Estônia e na Rússia, que lutam para manter seu modo de vida. Isso porque a fronteira está se tornando cada vez mais difícil de ser atravessada.

Durante um bom tempo, um acordo entre a União Europeia e a Rússia tornou essa transição relativamente mais simples para as pessoas que viviam na região divisional — que poderiam atravessar para qualquer lado sem maiores dificuldades.

Locais com trajes tradicionais de Seto em 1912 / Crédito: Wikimedia Commons

 

Porém, ao longo dos anos, as dificuldades impostas para a circulação levaram muitas famílias a deixarem o local, o que ocasionou no surgimento das “aldeias fantasmas”, habitada por 10 pessoas ou menos.

A cultura dos Setos

Os Setos têm uma cultura singular, com um dialeto único, além de suas próprias tradições. Um exemplo disso é o Seto Leelo, um tipo de cântico listado pela Unesco como um Patrimônio Cultural Imaterial.

O território Seto abrange uma área de 17.000 quilômetros quadrados, que atualmente é dividido entre o sudeste da Estônia e o Oblat da Rússia em Pskov. Pelo menos dois terços da área estão do lado russo — inclusive a capital histórica de Petseri.

Entretanto, cerca de 4.000 pessoas vivem nas terras do Seto na Estônia e apenas 300 do lado russo (segundo um censo de 2013). Há também uma diáspora de cerca de 10.000 pessoas que falam Seto em outras partes da Estônia e do mundo.

Outro ponto contrastante pode ser visto na religião: enquanto a parte predominante da Estônia é luterana e, principalmente, ateísta, os Setos são, em suma, cristãos ortodoxos. Eles possuem um costume de visitar os locais de sepultamento dos antepassados.

"Para o povo Seto, e também para os estonianos, eles não dizem que o lar está em qualquer lugar", disse Helen Kulvik, uma guia turística e co-líder do Instituto Seto. "O solo e o local físico são importantes".

Por que o território foi dividido?

Até a independência da Estônia, em 1918, toda Setomaa fazia parte do Império Russo. Em 1920, foi assinado o Tratado de Tartu, o que demarcou os dois territórios — de modo que Setomaa foi cedido à Estônia. Após a Segunda Guerra, o país ficou sob a ocupação soviética.

Senhora em traje Seto / Crédito: Wikimedia Commons

 

Depois da restauração da independência da Estônia, em 1991, uma nova fronteira formal dividiu as comunidades. Além de criar dificuldades para as famílias, a divisão foi um problema para os empresários: que, embora possuíssem um visto comercial, não tinham autorização para o transporte de alimentos de uma região para outra.

Vale ressaltar que a travessia entre a população permaneceu direta. Autoridades russas criaram uma lista com as pessoas que vivam na região e que poderiam entrar no país sem maiores problemas.

Porém, em 2004, a Estônia entrou na União Europeia e a passagem pela divisa se tornou mais burocrática, exigindo o uso de vistos. Cinco anos depois, houve um acordo entre as nações para a implantação de vistos de “relações culturais”. Esses documentos foram oficialmente usados ​​para visitas a escolas e museus e para apresentações de grupos de canto e dança.

Extraoficialmente, eles também foram usados ​​por muitas pessoas para visitar familiares, amigos e cemitérios, explica Andy Karjus, coordenador de vistos do sudeste da Estônia. “Funcionou muito bem até o início de 2018”.

Em seguida, o consulado russo começou a pedir provas documentais adicionais, apesar do acordo entre União Europeia e Rússia afirmar claramente que apenas uma carta de convite era necessária. As autoridades russas também começaram a rejeitar pedidos, mesmo quando toda a documentação solicitada era fornecida.

Segundo Karjus, em um ano comum eram emitidos cerca de 2.000 vistos de relações culturais. No entanto, em 2019, essa autorização só foi concedida a 430 pessoas. Todas as solicitações de entradas múltiplas feitas através do serviço de coordenação de vistos foram rejeitadas.

Além das tensões políticas elevadas, outra razão para a súbita restrição é, provavelmente, a parte financeira. Os vistos de relações culturais devem ser gratuitos, mas o Estado russo pode cobrar por vistos comerciais e de turismo.

Muitos moradores de Setomaa já desistiram de obter vistos culturais. Reika Horn, que possui um restaurante na cidade de Obinitsa e serve comida tradicional do Seto, diz que a alternativa é frustrantemente inflexível. "Se você tem um visto comercial, não tem permissão para visitar o cemitério", diz ela. "Fui multada por participar de eventos culturais com um visto comercial. Meus amigos foram multados."

Eevi Linnamae também não pode obter um visto comercial por ser aposentada. As únicas alternativas possíveis são: ela pagar por um visto de turista ou nunca mais atravessar a fronteira. "Tornou-se muito complicado. Para os idosos ... eles estão meio que desistindo".

Embora, no momento, grande parte do território ancestral dos Setos esteja fora de alcance, o interesse em Setomaa está vendo um ressurgimento. O turismo está em alta e alguns dos Setos que vivem fora da região estão comprando casas de férias para se reconectar com suas raízes.


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