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Sofrendo com os efeitos da AIDS, Cazuza ajudou a quebrar tabus ao redor da doença

No auge do preconceito, o cantor carioca se tornou um farol que suscitou debates sobre o vírus HIV e seu exemplo de luta inspirou muitas pessoas

Isabela Barreiros, sob supervisão de Thiago Lincolins Publicado em 01/08/2021, às 08h00

O cantor carioca Cazuza
O cantor carioca Cazuza - Café Simone Pedaços via Wikimedia Commons

‘Ideologia’, ‘Brasil’, ‘Boas Novas’ e ‘Blues da Piedade’ foram músicas compostas por Cazuzaque marcaram a história da música brasileira e integraram o disco Ideologia, de 1988. Ainda que esse seja considerado por muitos como o melhor álbum de Agenor de Miranda Araújo Neto, a verdade oculta é que ele foi produzido entre muita dor.

Naquele momento, o cantor estava sofrendo as consequências de um tratamento com o AZT, uma das primeiras drogas a serem usadas no combate ao vírus HIV e que ainda não conseguia amenizar a penúria da AIDS. Sem tratamentos capazes de retardar o avanço da imunodeficiência, como os que temos nos dias de hoje, a situação ficava cada vez pior.

Isso não impediu o cantor de fazer shows, produzir algumas das canções mais importantes de sua carreira e lutar bravamente contra a doença. Se a tortura constante do vírus persistia, Cazuza escrevia que “meu prazer agora é risco de vida”; se o preconceito tentava o engolir, ele se posicionava contra os tabus.

Embora estivesse no auge do preconceito e desinformação sobre o HIV, o cantor carioca “mostrou sua cara”, como diria em ‘Brasil’, e divulgou o diagnóstico soropositivo para quem quisesse ouvir. O ato de coragem possibilitou novos debates sobre a doença que muitos tentavam ignorar. 

Em 7 de julho de 1990, aos 32 anos, o artista morreu devido a um choque séptico causado pela AIDS, que já matou milhões de pessoas ao redor do mundo e continua infectando 1,7 milhão e matando cerca de 690 mil pessoas por ano, segundo relatório do Programa Conjunto da ONU sobre HIV/Aids, Unaids, de 2020.

Um farol contra o preconceito

Cazuza em foto pessoal / Crédito: Divulgação/Viva Cazuza

 

“Naquela época as pessoas tinham muito medo e todos se escondiam com medo do preconceito. Quando Cazuza publicamente se disse HIV positivo foi para muitas pessoas uma libertação”, disse à Aventuras na HistóriaLucinha Araújo, mãe do artista que fundou a Sociedade Viva Cazuza, organização que ajudou crianças e adolescentes com HIV.

“Depois que Cazuza morreu e comecei a trabalhar com HIV ouvi de diversas pessoas que a declaração de Cazuza foi libertadora e me diziam ‘se Cazuza podia dizer que era HIV positivo eu também posso’”, completou.

O diagnóstico foi confirmado em abril de 1987, durante a promoção do álbum ‘Só se For a Dois’, mas não impediu que ele continuasse a sua trajetória na música. Agenor já sofria com internações constantes devido a febres e convulsões desde dois anos antes, como relatou a Rolling Stone Brasil.

A partir da constatação da doença, Cazuza sofreu, lamentou, mas logo começou a tentar seguir em frente, buscando os tratamentos disponíveis na época, que eram poucos. Em Boston, nos Estados Unidos, começou o primeiro, que não conseguiu dar a vida que ele tanto merecia.

Para Lucinha, o maior legado do filho foi a coragem. Ela acredita ainda que a braveza com que Agenor que lutou contra a AIDS soma-se também ao legado “ideológico” do cantor, “de liberdade, de acreditar que sua pátria desimportante poderia num futuro ser um país mais decente”, muito além da sua herança ao rock nacional e música popular brasileira.

O exemplo de luta fez com que o debate sobre a doença adentrasse diferentes camadas sociais, conquistando mais espaços, que antes não entendiam o vírus. Era uma época de desinformação e tabu, que puderam ser amenizados pela conversa possibilitada pelo choque da morte de Cazuza.

Hoje, algo disso persiste, mas não completamente. Atualmente, existem tratamentos e, com o acompanhamento adequado, é possível que pessoa soropositiva chegue a uma carga viral indetectável, reduzindo a chance de infecções e transmissão do vírus. 


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