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Sonhadoras Afegãs: O time de robótica que criou soluções durante a pandemia

A equipe, que é composta apenas por meninas, escapou do Afeganistão

Ingredi Brunato, sob supervisão de Thiago Lincolins Publicado em 21/08/2021, às 08h00

Fotografia do grupo
Fotografia do grupo - Divulgação/ Bhumika Regmi/ Fundação Malala

Em 2017, quando a Equipe de Robótica de Meninas Afegãs (também conhecida pelo título de "Sonhadoras Afegãs") foi criada, prosperava um clima de esperança em relação ao futuro das mulheres no país de tradições conservadoras. 

No passado, quando o grupo fundamentalista islâmico conhecido como Talibã esteve no poder, entre 1996 e 2001, meninas sequer tinham permissão de estudar. E, anos depois, a iniciativa de criar um time dedicado à tecnologia composto apenas de garotas ainda era inovadora. 

Elas tinham entre 14 e 17 anos, portanto, menores de idade, e ao longo dos anos trabalharam em projetos que fizeram com que tivessem a oportunidade de se destacar em competições e conferências ao redor do globo. 

Diante da situação atual no país, com a retomada de poder pelo Talibã, os direitos conquistados pelas mulheres nos últimos anos foram ameaçados. Assim, as jovens acabaram saindo do Afeganistão em um voo comercial que tem como destino o Catar. 

Soluções na pandemia

Uma das realizações das meninas afegãs ocorreu, inclusive, no ano passado, enquanto o mundo sofria com o primeiro ano da devastadora pandemia de covid-19. Nos períodos em que o número de casos se multiplicavam muito rapidamente, era comum que hospitais ficassem lotados e faltassem equipamentos para atender todos os pacientes. 

Um desses equipamentos fundamentais para aqueles que apresentavam os quadros mais graves da doença eram respiradores ou então ventiladores pulmonares, para ajudar com a falta de ar. O problema é que estes produtos são muito caros. 

Segundo repercutido pelo UOL em 2020, por exemplo, esses aparelhos médicos custam entre 30 e 50 mil dólares. Assim, o time de robótica feminino decidiu trabalhar em ventiladores construídos com materiais mais acessíveis. 

Para tanto, usaram peças de carros: Seu protótipo original foi construído com partes de uma motocicleta da marca Honda, e utilizou ainda o motor de um automóvel da Toyota. Dessa forma, as meninas foram capazes de criar um produto com a mesma função do original, porém que custaria por volta de 600 dólares, consideravelmente mais barato.

Integrantes do time de robótica ao lado de protótipo de ventilador pulmonar / Crédito: Divulgação/ Kimberley Motley/ Arquivo Pessoal

 

"Sinto-me tão orgulhosa por fazer parte de uma equipe que está tentando fazer algo significativo para apoiar nossos médicos e enfermeiros - eles são nossos heróis neste momento", afirmou Somaya Faruqi, que é a capitã do grupo, em uma conversa com a BBC na época. 

A situação recente 

Em entrevista ao site Rest of The World em julho de 2021, Elham, de 17 anos, que passou a integrar as Sonhadoras Afegãs em 2018 após alcançar uma nota alta em um exame geral aplicado nas escolas da cidade de Herat, falou sobre como foi essa experiência, e que preconceitos ela encontrou:

“Minha mãe e meu pai me apoiaram, mas alguns parentes e amigos não concordaram. Eles pensaram que mulheres e meninas não podem trabalhar em robótica e mecânica - que este campo é específico para homens”, contou a adolescente. 

Naquele período, iniciativas como esta pareciam indicar um afastamento do Afeganistão em relação ao seu passado mais opressor, em que garotas não tinham acesso à educação. No último final de semana, todavia, retomou o controle do país, tornando o futuro mais incerto para as afegãs. 

Fotografia das meninas em 2020 / Crédito: Divulgação/ Unicef