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Stella Liebeck x McDonald's: o café que resultou em uma indenização milionária

Um copo de 49 centavos deu origem a uma batalha judicial que mudou a história das redes de fast-food em relação a saúde dos clientes

Wallacy Ferrari Publicado em 17/09/2020, às 12h12

Fotografia de Stella no processo ao lado de copo de café do McDonalds
Fotografia de Stella no processo ao lado de copo de café do McDonalds - Divulgação

Na manhã do dia 27 de fevereiro de 1992, uma senhora de 79 anos chamada Stella Liebeck passeava com o neto quando decidiu passar no drive-thru de uma unidade do McDonald’s, em Novo México, EUA. Sentada no banco do passageiro de um Ford Probe 1989, o garoto pediu para a avó um copo de café de 49 centavos, entregue momentos depois.

Visto que o carro não tinha porta copos, o rapaz estacionou o veículo para que a avó adicionasse creme e açúcar na bebida, porém, a dificuldade ao remover a tampa resultou na queda do copo, derramando o café no colo. Vestindo uma calça de moletom, o líquido escaldante queimou as coxas, nádegas e virilhas após ser absorvido pela calça de moletom de algodão.

Levada com muita dor ao pronto-socorro mais próximo, foi constatado que Stella havia sofrido queimaduras em 22% do corpo, sendo 6% delas classificadas como de terceiro grau. Nos oito dias seguintes, a idosa perdeu 9 quilos, quase 20% de seu peso corporal, durante as cirurgias com enxertos de pele, além de ficar incapacitada por dois anos. Como algo tão barato e acessível poderia ser tão corrosivo?

A investigação do café

A família da idosa se encontrou com Reed Morgan, um advogado que, anos antes, já havia ingressado judicialmente contra o McDonald’s. O defensor tentou obter um acordo de US$ 20 mil dólares para reparar custos de saúde, tendo como contraproposta apenas US$ 800 da rede de restaurantes. Sem resultado, iniciou uma investigação por vários estabelecimentos, incluindo vinte unidades do McDonald’s.

Das 12 maiores temperaturas de café, nove pertenciam ao McDonald’s, acrescentando fatos a tese de que a rede servia um café estupidamente quente que, a qualquer momento, poderia ser prejudicial ao consumo ou acesso humano. Reed tentou notificar a rede para uma renegociação, sem sucesso. Com isso esperou o encerramento do tratamento hospitalar de sua cliente e acionou a empresa cobrando os custos médicos e os danos punitivos.

O McDonald’s, por sua vez, apresentou a tese de que o motivo do café ser tão quente era direcionado aos clientes que compravam o café em viagens, de maneira que ele continuasse com a temperatura elevada durante o percurso. Após a abertura do processo, descobriu-se que a rede não apenas tinha feito uma pesquisa apontando que os clientes consumiam o café na hora da compra, como havia ignorado mais de 700 relatos de pessoas queimadas da mesma maneira.

Trecho do documentário "Hot Coffee" mostrando as manchetes do resultado do processo / Crédito: Divulgação

 

Conclusão do processo

Durante o processo, o júri teve acesso a um documento que era distribuído por todas as unidades do restaurante e servia como um guia para a preparação do cardápio, direcionado aos funcionários. Intitulado ‘McDonald’s - Operations and Training’, o manual determinava que o café deveria ser servido entre os 82°C e os 87°C — temperaturas que facilmente queimariam a boca e garganta de um cliente em até sete segundos, de acordo com médicos contratados pela defesa.

Com tal conclusão, o júri concluiu que, apesar de Stella ter tido uma parcela de 20% da culpa por derrubar o café, a rede era 80% responsável — não apenas pelos danos causados na vítima, como pela negligência ao ter ciência de casos anteriores e não considerar válido para alterações. Mesmo com o aviso de alta temperatura no copo, Stella recebeu US$ 160 mil em indenizações compensatórias e mais US$ 2,7 milhões em danos punitivos.

Os jurados chegaram ao valor dos danos punitivos calculando o lucro da rede nas vendas de café ao longo de dois dias, estipulado em US$ 1,35 milhão diariamente. O McDonald’s chegou a recorrer da decisão, mas fechou mais um acordo com Stella fora do tribunal, em um valor próximo a US$ 600 mil. No dia seguinte, a rede decidiu reduzir a temperatura do café em todo o mundo. Stella morreu aos 91 anos, em 2004, e de acordo com a filha, a indenização não compensou a perda na qualidade de vida.


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