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Vestido-esqueleto e bolsa-telefone: Quando a moda de Elsa Schiaparelli se conectou com a mente de Salvador Dalí

Conheça uma das colaborações mais icônicas da história da moda

Isabela Barreiros, sob supervisão de Thiago Lincolins Publicado em 10/08/2021, às 14h30 - Atualizado às 14h52

Algumas das criações
Algumas das criações - Divulgação/Youtube/Victoria and Albert Museum

A moda é uma arte, claro. Mas Elsa Schiaparelli levou isso a sério ao unir suas duas paixões: as artes plásticas e a alta costura. Ela entraria para a história com seus modelos claramente inspirados em obras de arte surrealistas, com designs inovadores, espalhafatosos e revolucionários.

Ainda que a estilista tenha ficado menos conhecida que Coco Chanel, rival francesa que também prosperou com sua marca homônima nos anos 1930, a italiana possibilitou uma transformação de estilo diferente para as mulheres. Gabrielle apostou no minimalismo, enquanto Elsa mirou no extremo oposto, dando luz ao rosa-choque, sua maior obra.

O legado das duas criadoras para a atualidade é incontestável, afinal, os estilos continuam variados e existe um quê de cada uma dessas estilistas neles. A grife de Chanel persiste com as roupas, acessórios e o Chanel nº 5; a marca de Schiap, como era apelidada, também.

No Festival de Cannes, que aconteceu em julho deste ano, a modelo estadunidense Bella Hadid vestiu uma peça feita pelo diretor criativo da Schiaparelli, Daniel Roseberry, que chamou a atenção do público e designers ao redor do mundo. Os seios de Hadid estavam cobertos apenas por um imenso colar-pulmão de ouro, um legado das criações de Elsa para a grife.

Bella Hadid com a ilustre peça /Crédito: Getty Images

 

A Persistência da Memória

Schiap nasceu em Roma, no Palazzo Corsini, parte de uma família nobre e intelectual. De personalidade forte, foi colocada em um convento pelos pais depois de publicar uma obra poética erótica, fugiu da instituição após uma greve de fome, voltou para casa, mas se cansou da mesmice e decidiu se mudar.

Quando foi para Nova York junto do então marido, conheceu a esposa do pintor dadaísta Francis Picabia, Gabrièle Picabia, já no navio que os levaria para a terra das novidades. Chegando na cidade que nunca dorme, os dois ainda viraram amigos de MarcelDuchamp e de Man Ray, outros artistas importantes da época.

A futura estilista já tinha referências artísticas em casa, afinal, vinha de família erudita; mas seu conhecimento e interesse foi crescendo cada vez mais. Já em outra fase de sua vida, foi morar em Paris, onde conheceu outros artistas como Aldred Stieglitze e Edward Steichen.

A verdade, porém, é que ela viria a se identificar mais com o estilo proposto por um amigo que conheceria mais tarde. Com Salvador Dalí, desenvolveu suas maiores obras, mesclando seu talento como estilista e designer, duas paixões que ficavam explícitas em suas verdadeiras obras de arte.

As duas mentes artísticas se juntaram e conceberam peças surrealistas que revolucionaram a maneira com que a moda poderia ser feita: ou seja, muito mais do que apenas roupas “bonitas”. Os modelos eram criados para chocar, incomodar a sociedade conservadora da época e, principalmente, para deixar mulheres se vestirem do jeito que quisessem.

Em uma entrevista, Elsa declarou: "Quando o vento arranca o chapéu da sua cabeça e o faz voar cada vez mais longe, é preciso correr mais rápido que o vento para alcançá-lo. Eu sempre soube que para construir mais solidamente, às vezes somos obrigados a destruir, a fim de estabelecer uma nova elegância para as maneiras brutais da vida moderna."

The "Lobster" Dress

Wallis Simpson vestindo o "vestido lagosta" para a Vogue / Crédito: Divulgação/Youtube/AP Archive

 

Dizem às más línguas que Coco Chanel considerava Schiap “uma artista que fazia roupas”. A verdade é que ela era tanto uma artista quanto uma estilista, o que transparecia em seus modelos que, muitas vezes, contavam com mãos de pintores e pessoas com a mente parecida com a dela, como Dalí.

A principal peça desenvolvida a partir da parceria foi o The "Lobster" Dress (o vestido “lagosta”), que entrou para a história da moda, principalmente, ao ser vestido pela Duquesa de Windsor, Wallis Simpson, a mulher que causou um frenesi na corte britânica ao levar o então rei Edward VIII a abdicar do trono.

O vestido branco contava com um grande desenho de uma lagosta e foi exibido na revista Vogue, o que causou ainda mais repercussão. Acredita-se que a escolha pelo animal tenha sido proposital visto que, um ano antes, o artista havia divulgado o objeto surrealista Telefone-lagosta, que causou polêmica por possível conotação sexual.

A controvérsia do caso Wallis-Edward é comparável ao que os estilista-artista queriam causar na sociedade. Juntos, os dois puderam trazer o incômodo que o surrealismo causava nas artes plásticas para a alta costura, assim como a inconveniência que era para os conservadores o fato de uma estadunidense divorciada estar entrando na família real britânica. 

Assim como a poesia com teor altamente sexual escrita por Elsa aos apenas 21 anos chocou sua família, toda a obra da estilista teve tal objetivo, o que persistiu com suas outras criações, inclusive ainda com o surrealista. 

Embora o modelo tenha se tornado o mais icônico de todas as criações, ele não foi o único produto da parceria. Os dois chegaram a criar acessórios lendários como o tailleur que apresentava uma série de bolsos com formato de gavetas, vestido-esqueleto, um chapéu em forma de sapato, a bolsa-telefone e, inclusive, um vestido com pinturas de moscas.

O site Aventuras na História desenvolveu a animação 'A moda surrealista de Elsa Schiaparelli, criadora do rosa-choque' no ano que marca os 48 anos de sua morte, produzida pela Openthedoor Estúdio de Animação com narração e roteiro de Laura Wie, especialista em História da Moda.

Confira no vídeo a seguir!