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Vista grossa para escravidão: Entenda a origem da expressão ‘Para inglês ver’

Durante o período imperial, o Brasil continuou com o tráfico de escravos, mesmo sendo vigiado pela Inglaterra

Diego Antonelli, atualizado por Penélope Coelho Publicado em 12/05/2021, às 10h00

Quadro de Jean-Baptiste Debret feito em 1830 mostra uma família brasileira sendo servida por escravos
Quadro de Jean-Baptiste Debret feito em 1830 mostra uma família brasileira sendo servida por escravos - Domínio Público /Jean-Baptiste Debret / Wikimedia Commons

Durante o Império, alguns intelectuais brasileiros propuseram ideias para “reformar” o regime de escravidão. Essas propostas, em geral, previam uma abolição gradual combinada com a fixação de ex-escravos nas terras dos senhores ou até mesmo com a deportação de parte deles para a África.

Em paralelo, a Inglaterra exercia forte influência política e econômica em todo o mundo e pressionava o Brasil para a extinção do tráfico de escravos. A potência da época tinha suas próprias razões: os ingleses queriam que o jovem país latino-americano crescesse economicamente, com maior número de assalariados, e passasse a ser um promissor mercado consumidor de seus produtos industrializados. A escravidão ia à contramão desses interesses.

Quadro de Johann Moritz Rugendas retrata o interior de um navio negreiro / Crédito: Domínio Público / Johann Moritz Rugendas/ Wikimedia Commons

 

Assim, pressionado, o Brasil editou em 1831 a Lei Feijó, a qual proibia a importação de escravos. Desse ano em diante, parte da costa brasileira passou a ser vigiada por navios ingleses. Mas essa vigilância não impediu que o crime continuasse. Além disso, a fiscalização por parte do governo brasileiro fazia tanta vista grossa que deu origem à expressão “para inglês ver”.

Ao mesmo tempo que as forças imperiais vigiavam os principais portos na Bahia, Rio de Janeiro e Pernambuco, deixavam de lado outros, como Santos e Paranaguá.

Dessa forma, o tráfico de escravizados não só continuou existindo como ficou muito intenso, principalmente na década de 1840, quando a produção de café em São Paulo requeria grande quantidade de mão de obra.

“Os traficantes e compradores de escravos em toda a década de 1830, e, sobretudo na de 1840, contaram com a leniência do Estado Monárquico Brasileiro para burlar a lei. Delegados de polícia e juízes de paz eram autoridades que tinham a tarefa de reprimir o tráfico ilegal, mas, em geral, ou eles eram compradores de escravos ou eram compadres dos compradores. Enfim, não tinham interesse na repressão da prática ilegal”, conta a historiadora Joseli Mendonça, professora na Universidade Federal do Paraná e autora de Cenas da Abolição.

Pesquisas históricas indicam que cerca de 800 mil africanos foram ilegalmente introduzidos no Brasil de 1831 a 1850. Entre eles, havia muitas crianças e jovens. “Se pensarmos que, entre essas 800 mil pessoas, havia mulheres que geraram filhos escravos, fica difícil calcular a demografia desse crime que se cometeu contra africanos e seus descendentes no Brasil, com a participação direta do Estado brasileiro”, ressalta Joseli.

A abolição da escravatura: quadro de 1849 de François-Auguste Biard / Crédito: Domínio Público / Acervo Assembleia Nacional da França

 

O tráfico de escravos só reduziu após a Lei Eusébio de Queiroz entrar em vigor em setembro de 1850 – a promulgação dessa lei também foi resultado da pressão dos ingleses, estabelecendo medidas mais rígidas para a repressão do tráfico de africanos no Império.

“A partir de 1850, essa prática diminuiu consideravelmente, o que prova que, quando houve a ação do poder público nesse sentido, o problema foi se resolvendo de maneira efetiva”, complementa a historiadora.


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