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Vítimas da Era Vargas: a trágica história dos irmãos Naves

Sebastião e Joaquim foram acusados de um crime que não cometeram; uma década depois, a justiça veio à tona de uma maneira inesperada

Paola Churchill Publicado em 05/05/2020, às 17h30

Os irmãos Naves: Joaquim Rosa Naves e Sebastião José Naves
Os irmãos Naves: Joaquim Rosa Naves e Sebastião José Naves - Divulgação/Youtube

Em novembro de 1937, Benedito Pereira Caetano estava devendo para muitas pessoas na cidade Araguari, no interior de Minas Gerais. O caloteiro pediu para ficar na casa de seus primos, os irmãos Sebastião José Naves e Joaquim Rosa Naves, que abriram as portas de sua casa para o homem.

No dia 29 do mesmo mês, Benedito estava em uma festa no centro da cidade e simplesmente sumiu sem dar notícias, e o pior, junto com ele também desapareceu uma boa quantia de dinheiro.

Preocupados com o sumiço do familiar, os irmãos não demoraram a começar as buscas pelo primo, mas nada de achá-lo. Eles foram até a delegacia local, explicaram o caso e, ainda assim, não obtiveram sucesso.

Como uma pessoa desaparece com tanto dinheiro, no interior mineiro, no meio do Estado Novo de Vargas e a polícia não quer colaborar para desvendar o caso? Começou então uma busca incessante por justiça pelos irmãos Naves.

O erro na justiça

Com a repercussão que o caso foi tomando, um novo delegado foi designado para cuidar das investigações: o temido Tenente Francisco Vieira dos Santos. É importante lembrar que durante todo o inquérito policial, Sebastião e Joaquim colaboraram sempre com os oficiais.

O primo Benedito Pereira Caetano e o Tenente Francisco Vieira dos Santos/Crédito: Divulgação/Youtube

 

Tanto que quando tiveram uma pista quente do sumiço, informaram ao tenente, que simplesmente ignorou os dois e tirou suas próprias conclusões de maneira leviana. O oficial optou por culpar os irmãos de assassinarem o primo e esconderem o dinheiro.

A acusação não tinha provas ou evidências de que isso realmente tivesse acontecido, mas mesmo assim, os dois foram presos e sofrerem muito dentro da prisão para que confessassem o crime que nunca cometeram. Eles eram torturados com socos, pontapés e não podiam dormir. Inclusive, presenciaram o estupro da própria mãe, para que admitissem a culpa.

A mãe dos irmãos, Ana Rosa Naves e o advogado de defesa, João Alamy Filho/Crédito: Divulgação/Youtube 

 

No dia do julgamento, com a ajuda do advogado, João Alamy Filho, eles se declararam inocentes de todas as acusações. Mesmo sem provas, testemunhas ou qualquer coisa que levassem eles a serem culpados de tal atrocidade, os irmãos Naves foram condenados a 25 anos de prisão cada pelo homicídio de Benedito.

A volta dos mortos

Um ano após sua prisão, em 1948, Joaquim não resistiu a tortura e faleceu. Seu irmão, junto com o advogado, prometeu que iria provar a inocência deles, a qualquer preço.

Após um longo tempo buscando provas para comprovar emfim a inocência, uma surpresa veio para colocar fim na sofrida e intensa saga de Sebastião: Benedito foi encontrado, vivo.

O homem justificou seu sumiço dizendo que sabia que devia para várias pessoas e não sabia o que fazer, então, a saída mais fácil que o mentiroso encontrou foi fugir. Em 1960, Sebastião podia respirar aliviado, pois estava livre.  

Foram quase 15 anos de cárcere e sofrimento, assim que reencontrou o primo, Sebastião teve uma reação inusitada: o perdoou. No mesmo ano, o Estado de Minas Gerais foi condenado a pagar uma indenização pelo gravíssimo erro judiciário cometido. Sebastião morreu em setembro de 1964, mas como um homem inocente.


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