A união da vitória

A volta olímpica que fez História duas vezes

Willy Delvalle Publicado em 11/08/2016, às 12h39 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

Bicampeã no atletismo, a etíope Derartu Tulu, à esq., celebra a vitória com a prata sul-africana Elana Meyer em Barcelona, 1992
Bicampeã no atletismo, a etíope Derartu Tulu, à esq., celebra a vitória com a prata sul-africana Elana Meyer em Barcelona, 1992 - Pascal PAVANI / AFP
Últimos segundos da prova feminina de atletismo dos 10 mil metros das Olimpíadas de Barcelona, 1992. Quem estava prestes a vencer a prova era a sul-africana Elana Meyer (à direita na foto), branca. Seu país, boicotado, não participava das Olimpíadas havia quase três décadas, e o motivo era o apartheid, regime cuja política dividiu a África do Sul entre brancos e negros durante quase 50 anos. O país de Elana estava em transição para a democracia e a atleta representava o retorno sul-africano aos Jogos. Mas a mudança definitiva aconteceu primeiro na pista. Ela teria tentado forçar Derartu Tulu, uma negra vinda da Etiópia, país marcado pela miséria, a ultrapassá-la. Mas a etíope recusou. Foi nos últimos 30 metros que a ultrapassagem aconteceu, sob aplausos e assovios do público. Derartu venceu e fez História. Tornou-se a primeira africana negra a conquistar uma medalha olímpica de ouro. E não parou por aí. Envolta na bandeira etíope, Derartu esperou a segunda colocada, Elana. Deram a volta olímpica de mãos dadas. 
Elana antecipava a queda de uma política segregacionista. Derartu, sétima filha de uma família da etnia oromo, que acredita-se ter sua origem há milênios, convertia-se numa heroína da Etiópia. Voltou aos Jogos de Atlanta, em 1996, quando terminou a corrida em quarto lugar. Quatro anos depois, em Sydney, ultrapassaria a conterrânea Gete Wami, tornando-se a primeira mulher a conquistar dois ouros olímpicos em uma corrida como aquela. E continuou: foi bronze na capital grega, em 2004, ficando atrás da chinesa Huina Xing (ouro) e de outra etíope, Ejegayehu Dibaba, que ganhou a prata.