Andrew Carroll: o colecionador de cartas

O americano reúne correspondência de veteranos de guerra de vários países

Fabiano Onça Publicado em 01/02/2008, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

Aventuras na História
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Cartas do Front

Andrew Carroll, Jorge Zahar Editor, R$ 49,00, 440 páginas

Andrew Carroll, o autor do livro, sabia que lidar com cartas de veteranos, ou de pessoas que, de uma forma ou de outra, experimentaram os horrores da guerra, não era uma tarefa fácil. É que ele já tem experiência no assunto. Carroll é a mente por trás do projeto Legacy (www.warletters.com), que reúne cartas de combatentes às suas mulheres e famílias. Até agora, já foram lançados quatro livros resultantes dessa iniciativa, apenas com cartas de soldados americanos.

A novidade deste livro é que, pela primeira vez, Carroll se propôs examinar cartas de veteranos de outros países, que vivenciaram conflitos em diversas épocas, como a Guerra da Bósnia, o cerco de Stalingrado, a Primeira Guerra Mundial, a Guerra da Coréia e assim por diante. Até aí, parece apenas que o foco se ampliou, mas que se trata da mesma coisa. Ledo engano.

Em primeiro lugar, Carroll rodou por 30 países em busca das cartas, o que exige tempo, dinheiro e uma boa logística. Em segundo lugar, havia a questão da burocracia. Muitas dessas correspondências estavam em museus e memoriais. Em São Petersburgo, por exemplo, um curador selecionava as correspondências dos arquivos, repassava-as para a guia, que, por sua vez, traduzia para o inglês para Carroll – que dizia se o material servia ou não. Finalmente, ele teve também de vencer a resistência ao fato de ser um americano, numa época em que os EUA colecionam antipatias em todo mundo. Em suas próprias palavras, “se um estrangeiro me abordasse com tal solicitação, não tenho certeza de quão entusiasmada seria minha resposta”.

As cartas em si são surpreendentes. A força de suas descrições, dos sentimentos envolvidos, a preocupação com as pequenas coisas, tudo isso colore as batalhas e grandes eventos que, quase sempre, possuem uma dimensão impessoal. Por exemplo, dos vários tipos de cartas, havia duas que os soldados odiavam. Das que recebiam, a pior era aquela com o fatídico “rompimento do namoro”, fato capaz de deixar um sujeito deprimido por semanas. A outra era aquela que, segundo Carroll, fazia com que revirassem o estômago para escrever: a carta de condolências aos pais de um amigo que havia tombado.

Finalmente, o mais interessante de todo esse processo é que, em sua busca, Carroll conseguiu, por meio de ex-combatentes, acesso a vários veteranos que lutaram do outro lado da trincheira, caso do japonês Zenji Abe, que foi indicado pelo americano Dick Fiske. Ambos estiveram em Pearl Harbor, só que em lados opostos. O que prova que, a despeito da briga das nações, a possibilidade de entendimento entre as pessoas continua a ser alta: afinal, todos têm família em casa, têm sentimentos e não crêem que a guerra resolva algo – ainda mais depois de ter vivenciado uma.

TRECHO DO LIVRO

“É preciso ver a leva de feridos voltando da frente de batalha... acima de tudo, ver a luz se apagar nos olhos desses homens. Jovens tremendo devido à exaustão nervosa e chorando como bebês. São, ou foram, homens fortes, que não tiveram ou que jamais terão a chance de viver uma vida normal... As pessoas podem acreditar que sabem como é a guerra. Esse conhecimento é ilusório. Tenho um corpo despedaçado pela guerra, tomado de pavor até o fundo da alma. Quando estava nos Estados Unidos, a guerra era distante, irreal. Eu lia, via as fotos, mas agora eu sei.”

Major Oscar Mitchell (serviu na Birmânia – atual Mianmar – durante a Segunda Guerra)

 

Outros Livros

As duas facetas da China

As agruras de um militar chinês num país dividido entre comunistas e nacionalistas

Neste livro de ficção, que chegou à final do Prêmio Pulitzer, o personagem principal, Yu Huan, é um oficial comunista que é aprisionado pelos americanos durante a Guerra da Coréia. Ali, nas mãos dos nacionalistas de Taiwan, ele é cruelmente forçado a abandonar suas convicções. Huan resiste, mas, ao chegar a um campo de concentração comandado por comunistas, passa a ser visto como um suspeito, como um possível espião. Boa parábola para a crise que a China vive hoje com Taiwan.

Árabes

Mark Allen, Nova Fronteira, R$ 29,90, 176 páginas

Depois de atuar por mais de 30 anos no Oriente Médio, o diplomata britânico Mark Allen parece ter alguma coisa para falar dos costumes, religião, hábitos, valores e histórias dos povos que habitam essa conflituosa região da Terra. É um bom livro para quem quer ter uma perspectiva histórica sem perder a experiência em primeira mão, com direito a anedotas e lembranças pessoais.

Hércules 56: O Seqüestro do Embaixador Americano em 1969

Silvio Da-Rin, Jorge Zahar Editor, R$ 49,00, 352 páginas

Talvez o ato mais ousado da guerrilha no Brasil tenha sido o seqüestro do embaixador americano Charles Elbrick, em 1969. O que este livro tem a acrescentar sobre o assunto são depoimentos de diversos protagonistas da ação. Também vale destacar o trabalho de pesquisa, que inclui fotos inéditas no Brasil.

100 Guerras que Mudaram a História do Mundo

John Hudson Tiner, Ediourom, R$ 39,90, 252 páginas

Coletâneas sobre as maiores guerras da História sempre são passíveis de críticas, e esta não está livre disso. É que sempre haverá alguma guerra que foi preterida em detrimento de outras. Quem conhece o assunto, certamente, folheará este livro em busca de falhas e esquecimentos “imperdoáveis”. Quem não conhece poderá ter uma pincelada sobre alguns dos principais conflitos da História.

A Família Frank que Sobreviveu

Gordon F. Sander, Jorge Zahar Editor, R$ 57,50, 408 páginas

Duas famílias Frank esconderam-se na Holanda na época da perseguição nazista. Da mais famosa, a de Anne Frank, que viveu em Amsterdã, nós já conhecemos o desfecho. Outra família Frank, tema deste livro, viveu em Haia, em duríssimas condições, enfrentando fome, frio, medo e bombardeios.