Galileu, dos céus à Inquisição

A saga do italiano marqueteiro que usou o telescópio para revolucionar nossa visão do Universo, cutucou a Igreja com vara curta e quase foi executado por isso

Reinaldo José Lopes Publicado em 01/03/2010, às 06h40 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

Aventuras na História
Aventuras na História - Arquivo Aventuras

Faz 400 anos que Galileu Galilei, então professor da Universidade de Pádua, na Itália, apontou seu recém-montado telescópio na direção de Júpiter e viu o que, de acordo com a tradição científica dominante na época, deveria ser impossível. Havia três "estrelas" desconhecidas perto do planeta - mais tarde percebeu uma quarta. Os objetos pareciam bem menores que o astro e realizavam uma dança periódica em torno dele. Embora muita gente ainda defendesse que a Terra era o centro do Universo, em torno do qual todos os outros corpos giravam, as "estrelas" na órbita de Júpiter sugeriam que a realidade era bem mais complicada. Com essas observações, Galileu inaugurou o jeito moderno de fazer ciência. Cruzando dados do telescópio com modelos matemáticos rigorosos para tirar conclusões sobre como o Universo funcionava, criou um padrão de trabalho seguido por todo cientista até hoje. Para ele, os satélites de Júpiter, bem como a presença de montanhas e outras irregularidades na superfície da Lua, indicavam que os corpos celestes não eram imaculados e imutáveis, e que a própria Terra girava em torno do Sol. Os achados foram descritos no livro Sidereus Nuncius (A Mensagem das Estrelas), sucesso que atraiu a atenção de muita gente - inclusive os olhares indesejáveis da Inquisição.

Para azar de Galileu, seu trabalho pisou nos calos de uma Igreja Católica insegura e paranoica, que tentava se reerguer do baque provocado pela Reforma Protestante. É fato que a personalidade do pesquisador também não ajudava muito: marqueteiro e turrão, fazia questão de que suas ideias chegassem ao maior número de pessoas e sempre tentava achar brechas nas limitações impostas por Roma. O resultado foi a condenação do gênio, um marco negativo das relações entre ciência e religião.

A paixão de Galileu pelos números parece ter vindo do berço. Parte do estímulo partiu do pai, o músico Vincenzo Galilei, o qual, apesar da pouca instrução formal, tinha ideias inovadoras sobre teoria musical, que pode ser encarada como um ramo da matemática. Galileu, filho mais velho de Vincenzo e Giulia, nasceu em Pisa, em fevereiro de 1564, e começou seus estudos num monastério perto de Florença. Os primeiros anos de escola fizeram o menino se interessar pela vida religiosa, mas o pai, que tinha uma visão muito crítica da Igreja, não quis que ele se tornasse padre. A família, então, decidiu matriculá-lo no curso de Medicina, em Pisa.

A universidade local era considerada de segundo escalão, e as disciplinas médicas não empolgaram Galileu. Mas ele foi fisgado pelas aulas do professor de matemática Filippo Fantoni. O rapaz passou a cabular as disciplinas que não tivessem a ver com números. Isso enfureceu o velho Vincenzo, que o tirou do curso de Medicina. Com o tempo, porém, o aspirante a matemático conseguiu convencer o pai de que podia ter futuro como professor universitário.

Na época, o jeito de obter esse tipo de cargo envolvia impressionar as pessoas certas e esperar que elas o indicassem. Enquanto ganhava uns trocados dando aulas particulares de matemática, Galileu fazia amizade com nobres da Toscana (sua região natal). O jovem causou ótima impressão em 1588, ao dar uma palestra na Academia Florentina a respeito do... tamanho do Diabo, segundo a descrição de Dante Alighieri em A Divina Comédia. Sim, o tema parece bizarro, mas era levado muito a sério pelos literatos do Renascimento. De acordo com os cálculos do moço, Lúcifer tinha 1800 metros de altura. A conferência fez tanto sucesso que, no ano seguinte, ele foi nomeado professor de matemática em Pisa.


Aristóteles

Galileu, porém, nunca foi muito querido entre os novos colegas. Isso porque passou a unir o rigor matemático a experiências cuidadosamente projetadas para tentar verificar se as concepções tradicionais sobre o movimento dos corpos na Terra e no céu, derivadas da obra de Aristóteles, realmente valiam. Isso equivalia a comprar briga, e das feias.

O filósofo grego era pagão, mas seus estudos tinham sido incorporados aos ensinamentos da Igreja no fim da Idade Média. A união entre a filosofia aristotélica e a teologia católica era tão estreita que, em muitos pontos, questionar as teses de Aristóteles significava pôr em dúvida a fé. Mesmo os filósofos naturais (nome dado então aos cientistas) que não pertenciam à Igreja eram, em sua maioria, apegados a essas concepções, embora muitos deles também fossem religiosos. "Havia uma estrutura acadêmica que o trabalho de Galileu afrontou - professores e estudiosos de formação aristotélica para os quais o estudo da natureza não se articulava com a matemática e com a experiência da maneira como Galileu o concebia", diz Júlio Vasconcelos, físico e filósofo da Universidade Estadual de Feira de Santana (BA). "O status quo científico era dos aristotélicos, em particular dos jesuítas. Eles tentaram atacar Galileu inicialmente por suas ideias contrariarem Aristóteles, e não a Bíblia", afirma Marcelo Gleiser, físico do Dartmouth College (EUA).

O problema é que muitas das ideias do grego sobre física e astronomia eram, digamos, esquisitas. Aristóteles achava, por exemplo, que objetos mais pesados caem mais depressa que os mais leves. Sua cosmologia punha a Terra no centro imóvel do Universo, cercada de esferas concêntricas correspondentes ao Sol, à Lua, aos planetas e às estrelas conhecidas na época. Nessas regiões celestes, nada mudava ou saía da ordem - corpos como cometas e meteoritos seriam fenômenos da atmosfera, como a chuva.

Os experimentos de Galileu começaram a derrubar esses pressupostos, a começar pela descrição da queda de objetos. Resumindo: a massa deles não tem nada a ver com a velocidade em queda livre. Ele também estudou o movimento de pêndulos e se viu às voltas com a dificuldade de conseguir medições exatas do resultado de seus experimentos - durante muito tempo, o pesquisador precisou improvisar, acompanhando o próprio pulso para estimar a duração de uma queda, por exemplo.

O interesse de Galileu em novas ideias acabou por queimá-lo de vez em Pisa, e seu contrato deixou de ser renovado em 1592. Mas ele conseguiu que a Universidade de Pádua, bem mais prestigiosa e liberal, aprovasse seu nome como docente, e para lá partiu, no mesmo ano. Como o salário de professor não era lá essas coisas, tentava complementar a renda e ampliar sua reputação - fiel a seu estilo marqueteiro - bolando novos aparelhos (leia abaixo). Um deles fez sucesso: a bússola geométrica e militar. Na verdade, era um protocomputador que ajudava no cálculo de juros ou a determinar o ângulo correto de um canhão para acertar o alvo, por exemplo.

Não é de estranhar que ele tivesse boa cabeça para tecnologia. "Essa relação entre ciência e técnica na obra de Galileu é inovadora. Na época, os filósofos e os artistas ocupavam nichos distintos - os pintores e escultores eram também arquitetos e o que hoje chamamos engenheiros. Eram considerados trabalhadores braçais e, por isso, um grupo menos digno que o dos filósofos. Mas Galileu sempre teve um relacionamento íntimo com artistas e artesãos", diz Marcelo Moschetti, filósofo e professor da Universidade Estadual de Santa Cruz (BA).

E foi a aptidão tecnológica que catapultou definitivamente Galileu ao estrelato. Aperfeiçoando ideias sobre como ampliar objetos distantes, que, aliás, já andavam circulando há tempos na Europa, ele montou seu telescópio (cujo modelo mais avançado produzia uma ampliação de 30 vezes) e o apresentou ao governo de Veneza, seu patrono na época, já que Pádua era dominada pelos venezianos. Os líderes concederam-lhe um belo aumento, mas ele ansiava por novos ares. Ao dedicar o Sidereus Nuncius a Cosimo II de Médici, grão-duque da Toscana, e ao batizar os satélites de Júpiter de "estrelas mediceanas" para homenagear a família nobre, Galileu conseguiu ser nomeado matemático e filósofo da corte dos Médici e voltou para sua terra natal.

Tudo parecia indicar que o cientista passaria o resto da carreira sossegado e bem pago em Florença, se não fosse por um detalhe crucial: no livro, ele declarara seu apoio às ideias do astrônomo polonês Nicolau Copérnico (1473-1543), segundo as quais a Terra e os demais planetas giravam em torno do Sol, e não o contrário. É provável que Galileu Galilei já acreditasse nisso há muito tempo, tendo apenas "saído do armário" com a obra.

Na época, a Igreja Católica não havia condenado formalmente as teses de Copérnico, embora elas não pudessem ser conciliadas com uma interpretação literal da Bíblia. No Antigo Testamento, por exemplo, um trecho do livro de Josué diz que o Sol "parou" de girar em torno da Terra.


Puxão de orelhas

Há indícios de que acadêmicos ridicularizados por Galileu por causa das crenças aristotélicas se puseram a difamar o pesquisador no Vaticano, tentando obter uma declaração de que o copernicanismo era herético. Sabedor dessa oposição, Galileu, que nada tinha de ingênuo, tentou se proteger. Declarando-se bom católico (coisa que realmente era, até onde se sabe), ele divulgou publicamente o conteúdo de uma carta que trocou com a grã-duquesa Cristina da Toscana, na qual argumentava que a Bíblia "não ensina como vai o céu, mas sim como se vai para o céu", e só tratava de "verdades de fé". Para ele, a matemática era a língua na qual Deus tinha escrito o livro do Universo, e ler esse livro também era adorar a Ele. A carta, porém, piorou a situação: muitos clérigos consideraram que o leigo queria propor interpretações teológicas.

Ela ainda procurou uma prova irrefutável do movimento da Terra, apostando que as marés podiam ser a resposta. Foi sua maior mancada científica: o fenômeno tem mais a ver com a atração gravitacional da Lua. "Ainda que tenha apresentado evidências empíricas e argumentos de peso, ele não provou a rotação da Terra. A última pedra nesse processo foi posta por Léon Foucault, já no século 19", diz Eduardo Rodrigues da Cruz, físico e teólogo da PUC-SP. Galileu teria sido afoito ao afirmar o movimento da Terra? "Afoito não, mas ousado, como todo gênio", diz o filósofo Eduardo Iamundo, da PUC-SP.

O fato é que ele recebeu um puxão de orelha considerável. Embora tratado de maneira cortês pelo cardeal Roberto Belarmino, o pesquisador foi advertido de que não poderia mais defender as ideias de Copérnico. E, pela primeira vez em mais de meio século, a obra copernicana foi impedida de circular pela Inquisição.

O matemático sentiu o baque, mas dias melhores viriam - ao menos aparentemente. Um amigo e fã, o cardeal florentino Maffeo Barberini, foi eleito papa em 1623: Urbano VIII. Galileu dedicou seu novo livro, O Experimentador, ao pontífice, e obteve autorização para debater em outra obra as ideias de Copérnico, desde que as apresentasse só como hipóteses.


Abusado?

A mesma discussão foi tema de seu livro seguinte, Diálogo sobre os Dois Máximos Sistemas do Mundo, de 1632. Logo ficou claro que Galileu tinha deixado de cumprir sua promessa ao papa. A obra traz uma conversa entre três personagens, Sagredo, Salviati (ambos velhos amigos do matemático, já mortos, então) e Simplício. O que acontece é que os dois primeiros se mostram convencidos das ideias de Copérnico no decorrer do diálogo, enquanto apenas Simplício (nome que pode ser interpretado como "simplório, bobalhão") se agarra ao velho modelo geocêntrico. Pior ainda, ele usa os argumentos mais fracos da obra - e são muito parecidos com os que o próprio papa já tinha usado antes.

Esse talvez tenha sido o erro crucial de Galileu. Acredita-se que o personagem Simplício não foi uma provocação deliberada ao pontífice. Mas o pesquisador teimoso pecou por excesso de confiança: achava que o papa deixaria tudo por isso mesmo. Se pensava assim, enganou-se: Urbano VIII parece ter se sentido traído pelo cientista, e os inimigos do matemático no Vaticano não perderam tempo em explorar essa brecha.

Ele foi obrigado a comparecer diante da Inquisição, em Roma. Não foi torturado ou mandado para a prisão, mas ficou detido meses sob vigilância na embaixada romana de Florença, e depois em aposentos do palácio do Santo Ofício. Perto dos 70 anos de idade, ele teve de ficar de pé durante todas as sessões de inquérito e não teve direito a advogado.

As obras de Copérnico foram declaradas heréticas e Galileu, em 1633, teve de jurar nunca mais mencioná-las, sob risco de morte. Foi condenado à prisão perpétua, logo comutada para domiciliar. Era uma pena leve comparada à do filósofo Giordano Bruno, queimado vivo em 1600. Mas além de se recusar a abandonar suas ideias científicas (dizia que o infinito Universo tinha muitas outras Terras), ele defendia teses contrárias à Igreja, como negar que Jesus fosse divino.

A derrota arrasou Galileu, mas não acabou com sua determinação para fazer ciência. Ele conseguiu publicar mais um livro na Holanda (país protestante onde, claro, o papado não tinha força) - fingiu que o manuscrito fora obtido sem seu consentimento. Totalmente cego por causa de uma infecção, morreu em 1642. "Coube a Galileu a afirmação de uma nova concepção de ciência, na qual uma hipótese comprovada passa à condição de descrição do mundo", diz Iamundo.

É o tipo de triunfo que os tribunais não têm como anular, e que a própria Igreja acabou reconhecendo. Em 1992, o papa João Paulo II admitiu: "Graças à sua intuição como físico brilhante, Galileu entendeu por que apenas o Sol podia funcionar como centro do mundo então conhecido. O erro dos teólogos da época foi pensar que nosso entendimento do mundo físico era imposto pelo sentido literal da Sagrada Escritura".


Pagando bem, que mal tem?

Galileu transformou descobertas em fonte de lucro


A imagem do cientista como o sujeito avoado que só consegue pensar nas grandes questões sobre a vida, o Universo e tudo o mais definitivamente não combina com Galileu Galilei. Em muitos aspectos, seu estilo de trabalho está bem mais próximo do que se vê entre os cientistas-empreendedores do século 21 - gente que conhece a importância da inovação tecnológica para a economia e a sociedade e está preparada para transformar suas descobertas em fonte de lucro.

"Expressões como marketing e inovação tecnológica são meio anacrônicas quando aplicadas à época de Galileu, mas a visão geral que elas sugerem está correta. Basta ver a construção do telescópio e a oferta para a República de Veneza, em 1609", diz o físico Júlio Vasconcelos. Nesse episódio, Galileu usou a invenção do aparelho tanto para garantir um aumento no seu salário como professor quanto como propaganda para os telescópios que ele mesmo fabricava e comercializava. E, assim como Leonardo da Vinci cerca de um século antes, o pesquisador não tinha problemas em propagandear as aplicações militares do que descobria, o que aumentava o interesse de possíveis patronos. "Galileu sabia da importância de agradar esses patrocinadores, tal qual hoje tentamos obter bolsas de pesquisa do governo", afirma o físico Marcelo Gleiser. De olho na reputação de inovador, o matemático adotou uma regra que ainda é seguida pelos cientistas: os louros vão para quem demonstrar primeiro a paternidade de uma descoberta. Isso vale para o telescópio: embora o holandês Hans Lippershey tenha criado o formato original, sobre o qual Galileu tinha ouvido falar, ele fez questão de vender seu artefato como criação única para os venezianos. "Para garantir a prioridade sobre uma descoberta antes de completar seu trabalho, ele chegou a divulgar anagramas para esclarecê-los posteriormente", diz o filósofo Marcelo Moschetti.


De olho no céu

Os objetos mais importantes da história da astronomia


2500 a.C. - Pirâmide de Quéops

Os lados dessa maravilha arquitetônica do antigo Egito seguem com grande precisão a direção dos pontos cardeais. Além disso, pequenas aberturas na estrutura de pedra, partindo de uma câmara nas profundezas da pirâmide, estão alinhadas com a posição que a constelação do Cinturão de Órion ocupava na época.


2300 a.C. - Stonehenge

Uma das hipóteses favoritas para explicar a função do mais famoso monumento de rocha da Europa pré-histórica diz que os antigos habitantes da Inglaterra o usavam para acompanhar os grandes ciclos astronômicos. Os principais pilares de pedra estão alinhados de acordo com a posição do Sol no início do verão e do inverno.


150 a.C. - Mecanismo de Anticítera

Construído por astrônomos gregos, o aparelho pode ser considerado o mais antigo computador do mundo. Com uma série de mostradores acionados por manivelas, ele podia ser usado para prever eclipses do Sol e da Lua e também servia para indicar a data em que cairiam competições como os Jogos Olímpicos.


1428 - Observatório de Ulugh Beg

As instalações, localizadas em Samarcanda, no atual Uzbequistão, foram idealizadas pelo astrônomo islâmico Ulugh Beg, descendente do conquistador mongol Tamerlão. Com a ajuda de grandes trincheiras escavadas no alto de um monte, os pesquisadores do local traçaram catálogos precisos das estrelas visíveis a olho nu.


1609 - Telescópio de Galileu

Após fazer uma série de experimentos, Galileu chegou a um design que usava dois tipos de lentes para produzir imagens aumentadas. A ampliação máxima era de cerca de 30 vezes - um prodígio para a época. O sistema era superior a outros, mas só conseguia obter imagens de um pedaço pequeno do céu. E, quanto maior a capacidade de aumento, menores eram as dimensões passíveis de observação. De início, ele mirou a Lua e comprovou que nela havia crateras e montanhas, ao contrário do dogma aristotélico de que era uma esfera perfeita.

• A segunda lente, de formato côncavo, ficava na ponta do instrumento na qual o candidato a astrônomo olhava. Ela fazia com que a imagem "coletada" pela lente convexa chegasse ampliada ao olho do observador.

• A primeira lente, de formato convexo, era disposta na ponta do telescópio mais distante do olho do observador. Essa lente captava a luz do objeto observado, fazendo os raios luminosos convergirem para um ponto próximo.

• O corpo do telescópio era feito de madeira e couro. O modelo maior, mais potente, tinha 120 centímetros. Antes de chegar a esse formato, Galileu testou vários, a partir da ideia original de holandeses. Ao governo de Veneza, o artefato interessava mais como luneta para vigiar o mar do que para observar o espaço.


1917 - Telescópio Hooker

Com um espelho de 2,5 metros de diâmetro, instalado no observatório do monte Wilson, na Califórnia, o Hooker foi o maior telescópio do mundo durante três décadas. Graças a observações feitas nele, o astrônomo americano Edwin Hubble conseguiu demonstrar que o Universo estava em expansão.


1990 - Telescópio Espacial Hubble

Principal telescópio criado para funcionar na órbita da Terra, o Hubble atravessou uma série de problemas técnicos, mas sempre pôde ser recauchutado, e ainda funciona. Suas imagens ajudaram a mostrar que a expansão do Universo estava acelerando e trouxeram dados sobre buracos negros.


2009 - Kepler

Lançado ao espaço em março, o Kepler tem uma missão para lá de ambiciosa: obter as primeiras pistas sobre a existência de outras Terras. Monitorando estrelas próximas, ele está buscando diminuições do brilho desses astros que correspondam à passagem de planetas pequenos e rochosos na frente deles.


2020? - Terrestrial Planet Finder

O objetivo da missão projetada pela Nasa, mas ainda sem financiamento garantido, é dar continuidade aos achados do Kepler, porém com mais detalhamento. Usando técnicas para minimizar a luz das estrelas e ampliar a dos planetas, o TPF conseguiria ver detalhes da atmosfera das "novas Terras" em busca de sinais de vida.


Saiba mais

LIVROS

Galileu Anticristo, Michael White, Editora Record, 2009

O autor é especialista em biografias de cientistas e contesta os motivos usualmente atribuídos para que a Igreja condenasse o pesquisador.


A Mensagem das Estrelas, Galileu Galilei, Editora do Museu de Astronomia e Ciências Afins, 1995

Lançado em 1610, é um dos livros mais marcantes da carreira do matemático, onde ele relata as observações feitas com seu telescópio.


Post-Scriptum

Ciência x Religião: relendo Galileu

Muito além do famoso conflito que marcou o século 17


Há muitas décadas, as complexas relações entre ciência e religião são tema de estudos para a história da ciência. Aquilo que parecia um quadro bicolor, de duas partes competindo frente a frente, aparece agora multicolor, mesclando tonalidades. Os séculos 17 e 18 sempre mereceram especial atenção, pois então se estabelecem, na Europa, as bases para o processo que deu origem à ciência moderna. Articulado com as revoluções tecnológica e industrial, o estudo sobre as origens dessa nova ciência lança luzes para conhecermos as bases das modernas sociedades tecno-científicas.

A disputa de Galileu Galilei com setores da Igreja Católica serve de exemplo para contemplar a complexidade de caminhos que se apresentavam para a relação entre a ciência e a religião nas origens do moderno conhecimento científico. Veremos que esse conflito nem sempre é um momento de exclusão.

A tradicional produção de Imagens Maravilhosas (os efeitos da luz ao atravessar cristais ou vidro) dirigiu-se, a partir do século 17 e da invenção do telescópio, à aproximação do objeto observado, e a geometria vem explicar precisamente o que ocorre ao dirigirmos as lentes a objetos distantes. Nesse contexto de transformações práticas (novos usos para os cristais e vidros) e teóricas (a matemática explicando os acontecimentos), Galileu começa a enxergar, entre outras coisas, as luas de Júpiter. Essas visões serão enquadradas no horizonte copernicano, com o Sol no centro do Universo. Inicia-se, aí, o conflito entre ele e a Igreja, que, a partir das escrituras, entendia a Terra como o centro .

Ao dialogar com Galileu, o clero apresentaria uma visão instrumentalista da ciência, reservando para a teologia o encontro da verdade. As ideias dele, então, seriam só hipóteses matemáticas. Mas o pesquisador não via seus estudos apenas como modelos a serem comprovados. O neoplatonismo renascentista que o influenciou usava e abusava da matemática, confiante de estar utilizando uma linguagem divina - com a qual Deus desenhou o Universo - que revelaria verdades sobre a natureza essencial do mundo. Para Galileu, as escrituras serviam para atrair fiéis, não para explicar a natureza das coisas.

Poucas décadas se passaram desde a condenação do matemático pela Inquisição quando comentaristas começaram a transformá-lo em mártir da nova ciência. Esse conflito entre Galileu e a Igreja foi um dos principais combustíveis para o debate que, por séculos, colocou ciência e religião em lados opostos. Além disso - ou talvez por isso -, o Vaticano reviu a questão recentemente. Historiadores também têm revisto o episódio e enxergado esse campeão da ciência moderna com olhos menos benevolentes. Estudos como os de D. Garber e M. Finocchiaro mostram a prepotência, o dogmatismo e a falta de tato com que Galileu guiou o debate, transformando seus melhores aliados em inimigos.

O século 17 parece ter sido um período de águas turvas, inclusive nas esferas religiosa e científica. E tudo indica que Galileu, embora atrevido e brilhante, não foi um navegador muito hábil em nenhuma delas. Vale lembrar que o jovem pesquisador contou inicialmente com a boa vontade da poderosa Companhia de Jesus. Envolvidos com refinados debates intelectuais do período, padres jesuítas como Cristóvão Clavius trabalharam de perto a questão das chamadas "matemáticas mistas", que incluíam a mecânica e implicavam um novo papel para a matemática na árvore do conhecimento. Galileu manteve com eles uma discussão profícua, fundamental em sua formação.

Garber mostra que o acirramento desses debates (em que Galileu era capaz de qualquer coisa para sair vencedor) levaria o pesquisador a tomar atitudes cada vez mais exaltadas e arrogantes frente aos jesuítas, transformando-os em inimigos perigosos no processo inquisitório.

As tonalidades de conflito e harmonia que utilizamos para debater o caso Galileu devem ser revistas, dando lugar a um quadro bem mais colorido do que as imagens em preto-e-branco às quais nos acostumamos.


*José Luiz Goldfarb - Professor de pós-graduação em História da Ciência, PUC-SP. Ana é sua mulher, colega e autora de O que É HIstória da Ciência (Brasiliense)

Colaborou Ana Maria Alfonso-Goldfarb