HIstória ameaçada: Memória finita

Em todo o mundo, vestígios do passado estão ameaçados. De monumentos a tradições, muita coisaestá à beira de desaparecer - às vezes, até a intençãode preservar acaba tendo efeitos destrutivos

Michelle Veronese Publicado em 01/03/2006, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

Aventuras na História
Aventuras na História - Arquivo Aventuras

"Conserva-me ou devorarei teu passado”, parece sussurrar a grandiosa e enigmática Esfinge de Gizé. Com 72 metros de comprimento e 20 de altura, ela é a maior escultura de pedra do mundo e um ícone da civilização egípcia. A existência dessa estátua monumental está ameaçada pela erosão e pela poluição que vem do Cairo, a capital do Egito. E na Itália, na China, na Índia, na Oceania e em outros cantos do mundo não é diferente: a memória de diversos povos clama por conservação. Aos efeitos naturais da passagem do tempo somam-se as conseqüências perversas do crescimento das cidades, do desenvolvimento tecnológico e da insaciável curiosidade humana. “A perda da memória histórica não é excepcional em nossa era. Tem sido igualmente grandiosa como em eras anteriores e seguramente mais violenta”, escreve o historiador Alexandre Stille no livro A Destruição do Passado. Os sete exemplos citados a seguir demonstram como a humanidade é pródiga em esquecer ou desrespeitar a herança de seus antepassados. E trazem um alerta importante: a vontade de preservar e reverenciar o passado pode não ser suficiente para cuidar do legado das gerações anteriores – pode acabar, inclusive, acelerando sua degradação.

A velhice da guardiã

Faraós foram os primeirosa restaurar a Esfinge

A Grande Esfinge de Gizé foi moldada em pedra calcária há 4 500 anos. Ela impressiona tanto por seu tamanho quanto pelos mistérios que cercam sua origem. A criatura, com cabeça de homem e corpo de leão, provavelmente foi esculpida por ordem do faraó Quéfren, para simbolizar seu poder e sabedoria. Hoje ela guarda a entrada para o complexo das pirâmides de Quéops, Quéfren e Miquerinos, no planalto de Gizé, nas proximidades do Cairo. Embora tenha resistido, está distante da maravilha que foi no passado. A cor original desapareceu, o nariz e a barba estão faltando, os olhos foram danificados e há grandes rachaduras em sua superfície. Por volta de 1400 a.C., o faraó Thutmosis já havia percebido o desgaste da escultura e teria sido o primeiro a mandar restaurá-la. Ele registrou o feito numa estela (bloco de pedra) que ainda está entre as patas dianteiras da criatura. Outros faraós também fizeram restaurações, mas foi a natureza quem mais colaborou para a conservação da Esfinge. “Ela ficou enterrada sob as areias do deserto do Saara e, durante séculos, foi poupada”, explica o historiador Júlio Gralha, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). A partir da década de 1920, a Esfinge foi desenterrada. A escultura começou então a erodir sob os ventos e a umidade do ar. Para piorar, várias tentativas de restauração feitas de 1955 a 1987 a danificaram gravemente. Antigos blocos de pedra foram substituídos por novos, alterando sua forma. Para cobrir as rachaduras, foram utilizados gesso e cimento. Resultado: a Esfinge “rejeitou” as novas camadas de pedra e argamassa e grandes pedaços começaram a ruir. Foi necessária mais uma década de trabalhos, concluídos há sete anos, para corrigir os erros de restauração. Os especialistas optaram por submeter a rocha original a um tratamento. “Eles decidiram agir como os antigos e foram em busca de pedras semelhantes àquelas utilizadas nos tempos dos faraós”, afirma Gralha. Mas o monumento não está livre de ameaças – como as substâncias contidas no ar poluído do Cairo e as vibrações no solo causadas pelo crescimento da capital.

Impuras águas sagradas

Rituais seculares poluemainda mais o Ganges

Os devotos do hinduísmo crêem que uma única gota do rio Ganges pode purificar uma vida inteira de pecados. Movidas por essa crença, milhares de pessoas banham-se diariamente em suas margens, bebem da sua água e lançam no rio as cinzas de parentes mortos. Esses gestos de fé há séculos fazem parte da religião praticada na Índia, mas agora são vistos com preocupação. O motivo: a Mãe Ganges (ou Maa Ganga, como os hindus chamam o rio) está muito poluída. Em alguns trechos, existem mais de 170 milhões de bactérias por 100 mililitros de água, quando o limite máximo aceitável são 500. Em conseqüência, peixes estão desaparecendo e as populações ribeirinhas sofrem com doenças como cólera e diarréia. Uma das causas da poluição está nos rituais religiosos. Na falta de dinheiro para a pagar a cremação, corpos inteiros são arremessados ao Ganges, amarrados a pedras. Após alguns dias, muitos costumam reaparecer boiando. Por ano, calcula-se que 3 mil cadáveres – além de cerca de 9 mil vacas e bois mortos – sejam jogados no rio. Mas esse não é o principal fator de contaminação do Ganges. Aproximadamente 80% dela vem do esgoto: 114 cidades indianas lançam diariamente seus dejetos no rio. Estações de tratamento construídas para reverter o problema não operam bem, devido a oscilações no fornecimento de energia elétrica. Várias entidades internacionais estão se mobilizando para salvar o Ganges. Para os especialistas, a batalha deve começar pela conscientização dos fiéis. Afinal, se para os hindus o Ganges não é apenas um rio – é uma deusa, deve ser respeitado como tal –, por que não preservá-lo da poluição? Muitos também sugerem adaptar o rio aos padrões atuais de higiene. “Lugares próprios poderiam ser construídos para incinerar cadáveres e lançar as cinzas. Fontes ou chuveiros alternativos favoreceriam os banhos sagrados. Degraus das escadarias que levam ao rio seriam construídos com maior distância da margem”, sugere o cientista da religião Valmor da Sila Chagas, da Universidade Católica de Goiás. “O que não se pode é tirar do povo a força religiosa que o Ganges exerce.”

Pergunte ao antropólogo

Estrangeiro ajuda nativosa lembrar de si mesmos

Comida enlatada, roupas ocidentais e barcos a motor. Nas últimas décadas, esses elementos foram incorporados à cultura de Kitawa, ilha da Papua Nova Guiné, no Pacífico Sul. Durante séculos, os kitawanos permaneceram praticamente isolados. Moravam em aldeias e plantavam inhame. Contavam histórias sobre feiticeiras e se dedicavam à arte de fabricar canoas cerimoniais, com cerca de 20 metros de comprimento e capacidade para até 50 homens. Os mais velhos tratavam de transmitir aos jovens, oralmente, fórmulas mágicas, passos de danças sagradas e regras para o convívio social. Mas, nos últimos 25 anos, a presença de missionários cristãos na região e o contato com a língua inglesa e com comerciantes ofuscaram essas práticas. A maioria dos jovens kitawanos hoje não quer ouvir sobre o passado. “Existe uma grave crise de gerações. Alguns jovens não querem mais fazer o esforço de entalhar canoas e passar horas cultivando inhame nos campos”, escreve o historiador Alexandre Stille. Desde 1994, as danças rituais para celebrar as colheitas não são realizadas. Há dez anos, ninguém mais entalha as canoas cerimoniais. Diante disso, o último poeta oral da ilha desistiu de tentar passar adiante sua arte. Preocupados com o declínio da tradição, habitantes da ilha chamaram o antropólogo italiano Giancarlo Scoditti. A partir dos anos 70, ele havia feito diversas entrevistas com kitawanos, tentando compreender melhor sua cultura. Atualmente, essa relação se inverteu: com dificuldades para lembrar de suas próprias tradições, os nativos recorrem a Scoditti para esclarecer dúvidas sobre rituais, danças e a história da ilha. Graças a isso, o pesquisador passou a ser chamado de Toruruwai – que significa “o homem que lembra”.

Assalto subterrâneo

Detectores demetal auxiliaram osladrões de túmulo

A ameaça que ronda a histórica cidade italiana de Morgantina é sutil, tem dedos leves e age na calada da noite. Trata-se dos tombaroli, ladrões de túmulo que invadem sítios arqueológicos para desenterrar tesouros e vendê-los no mercado negro de antiguidades. Essa prática começou na década de 50, com a realização das primeiras escavações arqueológicas no lugar. Descobriu-se que Morgantina, na ilha da Sicília, foi ocupada pelos gregos entre os séculos 15 e 3 a.C., quando seus habitantes enfrentaram a invasão romana. Prevenidos, antes de serem atacados, eles enterraram seus tesouros e objetos sagrados. Dessa maneira, centenas de artefatos de prata, ouro e esculturas de mármore foram preservados – até serem reencontrados pelos arqueólogos e despertarem a cobiça dos saqueadores. Nos anos 70, com a popularização dos detectores de metal portáteis, os roubos se intensificaram. Os tombaroli começaram a vasculhar os sítios arqueológicos em busca de moedas antigas enterradas, e acabaram levando embora muitas outras relíquias. Diversas peças que retratam o período de helenização da cidade foram vendidas a peso de ouro pelos contrabandistas. O mesmo ocorreu com as estátuas que pertenciam ao antigo santuário dedicado às deusas gregas Perséfone e Deméter. Hoje, muitos desses artefatos embelezam coleções particulares e estão expostos em museus estrangeiros. Renderam fortunas para os tombaroli e um prejuízo incalculável para a cidade.

O asilo dos obsoletos

Americanostentam preservarinventos do passado

Às vezes uma nova descoberta tecnológica parece ter surgido para resolver todos os nossos problemas de comunicação e armazenamento de dados. Os técnicos do Laboratório de Preservação de Mídias Especiais, uma divisão dos Arquivos Nacionais dos Estados Unidos, cuidam exatamente de coisas que um dia foram esse tipo de novidade, mas hoje caíram em desuso. A instituição guarda mídias e equipamentos que há muito tempo não são mais utilizados. Estão lá, por exemplo, o ilustre fonógrafo criado por Thomas A. Edison em 1877, antigos projetores de filmes e aparelhos precursores dos gravadores. Há também grandes discos de vidro, que são os ancestrais dos CDs. A meta do laboratório não é apenas conservar as engenhocas, mas possibilitar a leitura das informações que elas registraram. O problema é que muitos equipamentos saíram de circulação e, muitas vezes, é preciso empreender buscas em antiquários a fim de garantir a reprodução de antigas mídias. Um estudo feito em 1996 mostrou que os Arquivos Nacionais vão demorar cerca de 120 anos para transferir para um formato mais estável os materiais guardados que não estão na forma de texto. E, quando a tarefa acabar, é provável que o tipo de mídia escolhido para o armazenamento já tenha sido ultrapassado. Os técnicos concluíram que, em matéria de preservação, nem sempre o que é novo é melhor. Um bom exemplo está na fotografia: imagens em preto-e-branco costumam durar dois séculos, enquanto as coloridas se alteram após 30 anos. Os livros também revelaram algo curioso: os editados em papéis mais atuais estão virando pó, mas pergaminhos seculares sobrevivem bem.

Idioma moribundo

Há muito tempo olatim não está maisna boca do povo

Nos anos 60, o latim foi tirado das missas católicas. Na mesma época, seu ensino nas escolas brasileiras foi substituído pelo de línguas modernas. Hoje, o idioma é considerado uma “língua morta”, por não ser mais usado na comunicação oral. Apesar disso, ele ainda pode ser visto por aí. Na zoologia e na botânica, espécies têm nomes baseados no latim. O tamanduá-bandeira, por exemplo, se chama Myrmecophaga tridactyla – ou “comedor de formigas com três dedos”. No direito, expressões latinas são muito comuns – uma das mais conhecidas é habeas corpus (“que tu tenhas o corpo”, medida usada para impedir que alguém seja preso ilegalmente). “Prefiro dizer que o latim é uma língua de falantes mortos, pois ainda sobrevive na comunicação escrita”, afirma o latinista João Batista Prado, da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Grandes obras literárias foram escritas em latim. Até mesmo a versão da Bíblia que durante séculos orientou os cristãos do Ocidente, a Vulgata, foi escrita nessa língua. O latim nasceu no centro da atual Itália, por volta do século 2 a.C. e, com o crescimento do Império Romano, foi imposto a muitos povos. Durante mais de mil anos, foi o padrão na comunicação internacional. Com o declínio de Roma, ele foi sendo deixado de lado. Hoje, está restrito aos ambientes acadêmico e religioso (é a língua oficial do Vaticano). Mas, no Brasil, um público diferente está descobrindo o latim. “Recentemente, começamos a receber alunos que participam de movimentos de rock moderno, como o gothic metal, ou que jogam RPG”, diz Prado. “Eles chegam interessados em aprender poucas palavras, mas acabam fascinados pelo idioma.”

Copiado e colado

Ocidentais reprovam asrestaurações chinesas

Xian é uma das relíquias da China antiga. Na cidade, que já foi capital de várias dinastias entre os séculos 3 a.C. e 10, as torres do Tambor e do Sino se erguem na paisagem e dividem as atenções com antigos edifícios, como a ópera de Shaanxi. Xian também abriga o famoso Exército de Terracota, com mais de 8 mil estátuas de soldados e cavalos, que começou a ser construído pelo imperador Qin Shi Huang por volta de 246 a.C. Diante desses monumentos, é fácil pensar que o passado está bem conservado por lá. Mas, para arqueólogos e historiadores ocidentais, não é bem assim. “Não existe praticamente mais nada antigo na cidade”, diz Stille. A razão do desaparecimento da memória histórica de Xian e de outras cidades da China está na cultura da cópia e da reconstrução. Na visão de muitos chineses, esses são meios válidos de preservar o passado. Com esse espírito, século após século, centenas de monumentos, construções e peças de arte foram refeitos para resistirem ao tempo. Templos ganharam contornos diferentes, materiais antigos foram substituídos por outros mais resistentes e novas cores foram acrescentadas. Dos guerreiros de terracota, foram feitas réplicas, que se misturaram aos originais em exposições internacionais. Atualmente, restauradores ocidentais tentam convencer a China a preservar sua história sem modificar as peças. Mas algumas alterações são irreversíveis. É o caso da arquitetura de Xian, que há muito tempo deixou de ser milenar. Na cidade de 3 mil anos, as construções mais antigas que permanecem “originais” são muros medievais que datam do século 15.

Resistência em cassete

Uma exceção: a tecnologiapreservou a poesia oral

A leste do continente africano está um bom exemplo de que o passado e o presente podem conviver em harmonia. Na Somália, país que conquistou sua independência na década de 60, fitas de áudio e gravadores vêm ajudando a preservar uma antiga tradição somali: a poesia oral. Lá, o costume de declamar versos fincou raízes e é praticado por gente de todas as idades – uma forma eficaz de transmitir conhecimentos tradicionais, já que boa parte da população local não sabe ler. Desde crianças, os somalis são estimulados a compor suas próprias poesias e cada clã é representado por um poeta, que tem status de intelectual e pode declamar guerra ou paz aos demais grupos. A partir dos anos 70, o costume ficou ameaçado pela decisão do governo de implantar uma língua comum entre os clãs e pelas tentativas de introdução de um idioma escrito. Mas, com a ajuda de gravadores. a poesia resistiu. Hoje os somalis utilizam fitas de áudio para registrar sua arte, fazer críticas aos políticos e debater temas atuais – sempre em forma de verso. Com a ajuda da nova mídia, os “duelos poéticos” (algo semelhante ao que fazem repentistas do Nordeste do Brasil), muito apreciados no passado, estão se propagando. A poesia da Somália não apenas sobrevive, mas agora alcança um número maior de indivíduos, inclusive os somalis que vivem longe de seu país.

Saiba mais

Livro

A Destruição do Passado – Como o Desenvolvimento Pode Ameaçar a História da Humanidade, Alexandre Stille, Arx, 2005

O autor rodou o mundo para mostrar que a perda de memória histórica é um sintoma que afeta várias culturas. Mesmo assim, cita alguns povos que tiveram idéias criativas contra o esquecimento.