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A Companhia City trouxe para o Brasil o conceito de morar dos britânicos e deixou sua marca na paisagem de grandes cidades do país

Texto Marcus Lopes Publicado em 18/10/2013, às 19h07 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

A importação do modelo urbano britânico: as cidades-jardins
A importação do modelo urbano britânico: as cidades-jardins - Arquivo Aventuras

Na segunda metade do século 19, a Europa enfrentava o outro lado da moeda da Revolução Industrial. Apesar do progresso econômico, as cidades sofriam com o inchaço populacional, poluição e precárias condições sanitárias. Em contraponto à insalubridade das metrópoles, em 1898 surgiu na Inglaterra um novo modelo urbano: as cidades-jardins. Criadas pelo urbanista Ebenezer Howard, elas buscavam integrar o campo e a cidade, com população reduzida, muitas praças, desenho urbano harmônico e casas com amplos jardins. A primeira delas, Letchworth, começou a ser construída em 1902, nos arredores de Londres.

Dez anos depois, o conceito chegou ao Brasil, por meio da City of São Paulo Improvements and Freehold Land Company Limited. Inspirada em Howard, a Companhia City, como ficou conhecida, foi a responsável pelos primeiros bairros planejados de São Paulo, como o Jardim América, o Alto da Lapa e o Pacaembu, que até hoje são sinônimos de qualidade de vida na metrópole. Logo, o conceito de planejamento urbano se espalhou por outros lugares, como Rio de Janeiro e Recife.

A City abriu seu escritório em São Paulo com uma meta ambiciosa: urbanizar uma área de 12,38 milhões de metros quadrados. Em 1912, isso correspondia a 37% do perímetro urbano da capital paulista. Não seriam meros loteamentos com o óbvio traçado em xadrez das ruas. O desenho tinha ruas sinuosas, seguindo a topografia do terreno, e praças internas. A ocupação dos lotes usava padrões de volumetria (a área construída não poderia ocupar mais da metade da área total do terreno) e de arquitetura, com muros baixos e veto a prédios altos. Tudo para o sossego do morador.

Alguns dos anúncios publicitários da Companhia na época

Laços com a Light

A fórmula deu tão certo que, hoje, esses bairros são "pulmões verdes" da metrópole, graças à abundância de árvores e ao baixo adensamento. O Jardim América e o Pacaembu foram tombados pelos órgãos de patrimônio histórico para impedir a especulação imobiliária. "Os padrões da City influenciaram as primeiras leis de zoneamento na cidade de São Paulo", diz o presidente da empresa, José Bicudo. A história dos bairros-jardins está diretamente ligada ao crescimento e à riqueza da cidade. Em 1890, a população paulistana era de 65 mil habitantes. Em 1900, já beirava 240 mil. Começava a surgir uma classe média emergente, formada por comerciantes, empresários e profissionais liberais, que precisavam de um lugar para morar. Um grupo de empreendedores imobiliários, liderados por Horácio Sabino e Cincinato Braga, se associou à City. A dupla já era conhecida por lotear e vender terrenos na área entre a Avenida Paulista e a Rua Estados Unidos.

A diretoria da empresa era composta de banqueiros, funcionários da Prefeitura e diretores da Light and Power, a concessionária canadense que monopolizava as linhas de bonde e os serviços de eletricidade. Uma articulação estratégica. "A Light era a peça decisiva no modo de expansão da cidade. Localizando as paradas finais de suas linhas em pontos extremos e de população rarefeita, gerou fluxos irradiados de valorização imobiliária", afirma Nicolau Sevcenko em Orfeu Extático na Metrópole. "Graças aos seus laços com a Light e com figuras-chave da política local, a City pôde usufruir do acesso, em condições privilegiadas, a serviços básicos de infraestrutura e valorização estética dos seus loteamentos", diz Sevcenko.


Elite emergente


"O fato é que Barry Parker realizou um trabalho excepcional" diz Sevcenko, referindo-se ao arquiteto e urbanista inglês que desenhou e coordenou a implantação dos empreendimentos da City. "Seu traçado para o Jardim América apresenta uma movimentação versátil e envolvente no plano de conjunto, graciosa na disposição das praças e amenidades, compondo um desenho intrincado e surpreendente nos arrua-mentos, que fugia da rotina quadriculada predominante até então na cidade, instaurando um novo padrão de equilíbrio entre funcionalidade, bem-estar, espacialidade e fluência." Projetado por Parker, o Jardim América foi o primeiro grande empreendimento da City, em 1915.

"Era um projeto direcionado à elite emergente da época. Os ricos e os barões de café continuavam morando em Higienópolis ou na Avenida Paulista", diz a arquiteta e urbanista Nadia Somekh, da Universidade Mackenzie. "Foi o primeiro projeto completo de bairro, com começo, meio e fim, além da alta qualidade de desenho urbano." Diante do sucesso de vendas, nos anos seguintes seriam criados outros nos mesmos padrões urbanísticos. "A partir do loteamento pioneiro e de seu sucesso, estabeleceu-se um padrão para ocupação de bairros exclusivamente residenciais, que se firmou e se reproduziu na cidade de São Paulo", diz a arquiteta Silvia Ferreira Santos Wolff, autora do livro Jardim América.

De São Paulo, os bairros-jardins se espalharam pelo Brasil. No Recife, o Derby foi inspirado nas garden-cities inglesas. "O Derby possui ressonâncias do urbanismo ajardinado", diz Silvia Ferreira. "As ruas de Boa Viagem foram bem projetadas, mas o Derby foi o primeiro bairro do Recife planejado como um todo", diz o historiador Leonardo Dantas Silva, do Instituto Ricardo Brennand, na capital pernambucana. "Os lotes não são tão grandes, as ruas são bem desenhadas e todas convergem para um parque central, a praça do Derby."

No Rio de Janeiro, os bairros-jardins inspiraram loteamentos como o Jardim Laranjeiras, na Zona Sul. O bairro surgiu na década de 30, quando a lei de zoneamento proibiu a instalação de fábricas na região. A Cidade-Jardim Laranjeiras brotou no terreno da antiga Companhia Têxtil Aliança Industrial. O Bairro Peixoto, outra ação do gênero, até hoje é considerado um "oásis de Copacabana".

"No caso do Rio, houve uma inversão de polaridade. Uma antiga região industrial virou bairro residencial planejado de alta renda", diz o arquiteto Nestor Goulart Reis, professor da USP e autor de livros sobre história do urbanismo no Brasil. Segundo Reis, o modelo dos bairros-jardins é demonstração de que nem tudo é caos e desorganização quando se fala em crescimento urbano brasileiro: "São Paulo, durante muito tempo, competiu com o Rio em termos de qualidade de vida, pois havia planejamento".

Saiba mais

Livros


Orfeu Extático na Metrópole, Nicolau Sevcenko, Cia das Letras, 1992.

Jardim América, Silvia Ferreira Santos Wolff, Imprensa Oficial de São Paulo, 2001