Kate Blaise: um olhar feminino da guerra

A capitã lutou na Guerra do Iraque ao lado do marido. Ela voltou viúva para seu país, mas diz que seu marido morreu por uma boa causa

Adriana Maximiliano Publicado em 01/05/2007, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

Aventuras na História
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Em março de 2003, o casal Blaise foi enviado para a Guerra do Iraque. Capitã do Exército americano especializada em logística, Kate estava feliz de poder ficar perto do marido, o piloto de helicópteros Mike, pela primeira vez, em mais de sete anos de casamento vividos em bases diferentes. No fim de janeiro de 2004, dois dias antes de terminar a temporada deles no Iraque, Mike sofreu um acidente fatal e Kate voltou sozinha para sua cidade natal, Mason, no Missouri.

No ano passado, ela lançou a biografia The Heart of a Soldier: A True Story of Love, War and Sacrifice (“O Coração de um Soldado: Uma História Real de Amor, Guerra e Sacrifício”), em que conta sua história desde o começo do namoro com Mike, num colégio de Mason, até um ano depois da morte do marido. Nesta entrevista a GRANDES GUERRAS, Kate Blaise se diz conformada com a morte do marido. “Mike morreu defendendo os Estados Unidos e a liberdade de um outro povo. Isso é motivo de orgulho. O Exército americano é fantástico”, diz ela, que está com 30 anos e hoje faz parte da Guarda Nacional do Missouri.

Quando você decidiu entrar para o Exército americano?

Durante a Guerra do Golfo, em 1991. Tinha 15 anos e assisti a tudo pela TV, ao lado do meu pai. Eram horas e horas de CNN. Aquela guerra foi curta, mas me marcou para sempre saber que as tropas americanas foram até o Oriente Médio para tirar o Kuwait das mãos de Saddam Hussein. Esses soldados queriam salvar a vida de outras pessoas, gente que vivia do outro lado do mundo. Eles estavam arriscando suas vidas para dar a outros uma sociedade livre.

Sete anos depois, você e seu marido entraram para o Exército americano e foram enviados para a Coréia do Sul e, mais tarde, para a Guerra do Iraque. Como era a vida de casada no Exército americano?

Existe um programa para tentar manter os casais juntos, chamado Married Army Couples Program. Mas ele nunca funcionou muito bem com a gente. Nós nos casamos em 1997 e, de 1998 a 2000, moramos em estados americanos diferentes, porque ele se alistou cedo, aos 19 anos, e eu fiz faculdade, para tentar a carreira de oficial. Finalmente, em 2001, fomos enviados para a Coréia do Sul. Aos 26 anos, Mike tinha acabado de virar piloto de helicóptero Kiowa e eu, que tinha 24 anos, era uma oficial da inteligência e trabalhava com logística de transporte no 498º Batalhão de Apoio. Mas nossas bases eram diferentes e continuamos separados por mais de 80 quilômetros: ele em Camp Stanton, patrulhando a fronteira com a Coréia do Norte, e eu, na sede militar americana na Coréia do Sul, o Yongsan Garrison, que fica em Seul. Mas eu estava com ele quando aconteceu o ataque terrorista às torres gêmeas, em 11 de setembro de 2001, e tudo mudou de repente.

 

Como vocês souberam?

Naquela semana de setembro, fui enviada para Camp Casey, ao norte do país, para fazer um curso de medidas antiterroristas. O curso ensinava a reconhecer uma ameaça terrorista e a diferenciar os perfis e objetivos das principais organizações terroristas em atividade. Depois das aulas, todas as noites, eu ia para o alojamento do Mike, que era próximo. Até que uma noite, “zapeando” a TV, vi as torres gêmeas pegando fogo. Achei que era um filme de ação e resolvi assistir. Quando me dei conta de que era real, gritei tanto que Mike saiu do banho correndo para ver o que tinha acontecido. A sirene da base tocou e, como ninguém sabia ainda o que exatamente tinha acontecido, avisaram para que todos ficássemos prontos para entrar em ação a qualquer momento. Mas, apenas em 2003, seríamos enviados para o Iraque.

Vocês foram juntos?

Em março de 2003, cerca de 16 mil soldados da 101ª Divisão Aerotransportada deixaram o Forte Campbell, no estado de Kentucky, com destino ao aeroporto internacional do Kuwait. Meu marido foi em um avião militar e eu, em um avião comercial fretado. Aquela seria a primeira das nossas duas temporadas na Guerra do Iraque. Nas primeiras semanas, eu fiquei no Camp Pensilvânia, localizado no norte do Kuwait, e ele, no Camp Udairi. Lá aprendi a conviver com as constantes tempestades de areia do deserto. Elas chegavam de repente e eram tão densas que eu não podia enxergar um metro a minha frente.

Onde você estava quando começou a Guerra do Iraque?

A guerra começou duas semanas depois da minha chegada, com navios da Marinha americana atirando mísseis Tomahawk da Península do Golfo para o Iraque. Eu ainda estava no Kuwait e combinei com outros oficiais de fumar cigarro num lugar isolado da base e tentar ver os mísseis sobrevoando nossas cabeças, como fogos de artifício. Mas só foi possível ver mesmo as estrelas e nossos cigarros. Depois daquela noite não tivemos momentos de sossego. Saddam Hussein logo reagiu, fazendo a sirene tocar várias vezes por dia.

Qual era sua função?

Eu fazia a logística do ataque por terra. Os mapas, as rotas para entrar no Iraque, o que fazer no caso de encontrar alguma surpresa, no caso de o veículo quebrar, o que, aliás, acontecia o tempo todo.

Você teve uma participação mais ativa quando o ataque começou por terra?

Ah, sim, nem pensei em fumar cigarros e olhar estrelas. Na madrugada do G-day (Ground-day, o ataque militar por terra), tivemos um problema sério. Um dos sargentos [o americano Hasan Akbar, que tinha se convertido ao islamismo anos antes] atacou nossas tropas. Ele foi até uma barraca cheia de oficiais, desligou o gerador e atirou granadas, enquanto gritava: “Estamos sendo atacados!”. Quando outros militares apareciam, ele atirava com seu rifle M-14. O surto do sargento provocou a morte de dois oficiais e deixou mais de dez feridos. Foi um horror. Depois de ser preso, Akbar disse que queria evitar que os Estados Unidos entrassem no Iraque para “estuprar mulheres e matar crianças”. Ele estava louco. Mas superamos o episódio e entramos no Iraque como planejado.

Quais são suas lembranças da entrada no Iraque?

Foi sem grandes dificuldades. Passamos por vilarejos e a população local estava muito assustada. Tivemos apenas um incidente: uma criança pulou em cima do nosso veículo, acho que para tentar roubar comida, e a arma de um dos soldados disparou. Ele ficou muito triste, porque tinha um filho da mesma idade do garoto e, realmente, não teve a intenção de atirar. Mas o menino não morreu e seguimos em frente.

O que aconteceu depois que você entrou no Iraque?

Fui para Q-West [Qayyarah West Airfield, base aérea a 50 quilômetros da cidade de Mosul, no norte do Iraque]. Lá, depois de seis meses, viramos alvos do inimigo, porque éramos a única unidade de logística na região. Por semanas, sofremos com os ataques de mísseis iraquianos. Mas a mira deles era uma grande piada e, durante meses, eles só conseguiram acertar as areias deserto.

Você tinha contato com seu marido diariamente?

Eu via Mike todos os dias. No Iraque, ficamos instalados na mesma base, a pouco mais de um quilômetro um do outro. Foi incrível ficar perto do meu marido depois de sete anos de casamento. Uma de minhas irmãs, Lindsey, também estava servindo o Exército americano no Iraque naquela época, mas ela ficava em Bagdá. Nós nos vimos poucas vezes.

Como você ficou sabendo do acidente que matou Mike?

Era 23 de janeiro de 2004 e faltavam dois dias para a gente voltar para casa. Eu estava jogando cartas com meu chefe naquela noite quando alguns militares que trabalhavam com Mike apareceram, de repente, com a notícia de que um helicóptero tinha caído. Eles ficaram nervosos ao me ver, porque queriam que meu chefe desse a notícia, mas, quando eles chegaram, eu já sabia que algo ruim tinha acontecido com Mike. Nunca soubemos exatamente o que aconteceu. Ele estava numa missão de rotina e morreu na mesma hora, assim como o co-piloto. Parece que o helicóptero caiu por causa do mau tempo.

Você não ficou revoltada por perder o marido de maneira abrupta?

Eu fiquei muito triste, mas não revoltada. Mike morreu defendendo os Estados Unidos e a liberdade de um outro povo. Isso é motivo de orgulho. O Exército americano é fantástico.

Por que “fantástico”?

Nosso Exército é um time de vencedores e, além de defender a democracia e a liberdade em todos os cantos do planeta, ajuda outros países de várias maneiras. Agora, o povo iraquiano está experimentando a democracia e a liberdade, mas não é uma luta fácil. Existem muitos terroristas leais a Saddam Hussein, existem terroristas aliados ao Irã, e ainda temos de enfrentar a Al-Qaeda.

Você sentiu sua vida ameaçada em algum momento?

Não. Você sabe que pode acontecer alguma coisa a qualquer hora, que só de estar no Iraque pode estar envolvido numa situação fatal, que existem terroristas por todos os lados. Você sabe que representa a liberdade, e eles não querem liberdade, eles querem o terror. Mas, sentada ali em frente à mesa de operações, tomando café o dia inteiro, comendo biscoitos, batendo papo com os amigos... Você até se esquece de que está em uma guerra que já matou mais de 3 mil soldados aliados [e, segundo estimativas de organizações não governamentais, mais de 120 mil iraquianos, numa média de cem por dia, 3 mil por mês].

Por que você quis escrever um livro?

Queria contar a história sob o meu ponto de vista. Explicar que um soldado americano é patriota acima de tudo. O Exército fez com que eu e Mike tivéssemos momentos maravilhosos. O sonho dele era ser piloto de helicóptero e, graças ao Exército, ele conseguiu. Era tão apaixonado que, quando estava de folga, ia bisbilhotar a manutenção dos helicópteros. Mike adorava motores e sua outra paixão era uma moto Harley-Davidson. Enfim, usar aquela farda deu muita confiança e alegria ao meu marido. Ele era um cara abençoado, e eu também sou.

Mas você não acha que foram cometidos excessos nessa guerra e que muita gente morre no mundo todo por culpa da política externa americana?

Olha, eu não entendo muito destas questões de política, mas sei que nosso país, de maneira geral, tem uma história cheia de orgulho, momentos heróicos, na luta da liberdade, democracia, justiça, igualdade e direitos humanos. Você não sabe o orgulho que é usar o uniforme do Exército americano. É uma bênção. O exército nos dá tantas oportunidades, chances na vida, de conhecer outros países, visitar novas culturas, estudar...

Você pretende voltar à guerra?

Ainda não sei. Entrei para a Guarda Nacional de Missouri e estou aberta a todas as possibilidades. Sinto falta do ambiente de guerra, apesar de toda a experiência no Iraque ter sido desgastante. Eu gostava de estar numa missão, de estar no Iraque. Sinto falta dos helicópteros passando, de estar controlando a movimentação das tropas através da mesa, no rádio, no comando central.

 

Para saber mais

Livro

The Heart of a Soldier: A True Story of Love, War and Sacrifice, Kate Blaise e Dana White, Gotham, 2005