Leonardo da Vinci: O criador e as criaturas

Entrevistamos Leonardo momentos antes deuma sessão de O Código Da Vinci. O gênio não leuo livro que deu origem ao filme. Nem entende por quesuas pinturas ainda causam tanta comoção

Thereza Venturoli* Publicado em 01/06/2006, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

Aventuras na História
Aventuras na História - Arquivo Aventuras

Em seu tempo e sua terra – a Itália da segunda metade do século 15 – Leonardo da Vinci foi o verdadeiro homem dos mil instrumentos. Arquiteto, desenhista, pintor, escultor, engenheiro, inventor e anatomista, dedicou-se a tantas áreas que poderia hoje manter sozinho um portal enciclopédico na internet. Nascido no vilarejo de Anchiano, perto da cidade de Vinci, em 1452, Leonardo dominou como ninguém a arte de observar e representar a realidade. Ele analisou o galope dos cavalos, estudou como a luz altera a aparência de um objeto, abriu vísceras de cadáveres. Chegou até mesmo a vislumbrar o futuro: projetou engenhocas que só se tornariam realidade séculos mais tarde, como o helicóptero e o escafandro. Ainda assim, Da Vinci não previu que, no início do século 21, serviria de pretexto para O Código Da Vinci, best-seller de Dan Brown que chega agora às telas de cinema. Conversamos com o velho mestre num café, enquanto ele aguardava para ver uma sessão do filme.

História – O que o senhor achou do livro O Código Da Vinci?

LEONARDO DA VINCI – Não tenho opinião, pois não li. Não encontrei nenhum exemplar em latim e fiquei com preguiça de ler em italiano. E olhe que, mesmo que encontrasse uma edição em latim, eu levaria muito tempo para acabar o livro... Preferi assistir ao filme de uma vez.

Observar, aliás, é sua grande habilidade.

Sim, minha filha... Ver é tudo. Como eu costumo dizer, é preciso saber ver. Sem aprender a ver não é possível descobrir as leis que regem as forças e os movimentos que constituem tudo o que existe no mundo.

E o senhor sempre teve um talento excepcional para reproduzir o que vê, não? O senhor se considera um gênio?

Sinceramente, sim. Mas minha época é pródiga em gênios na arte de reproduzir a natureza. Na pintura, tinha o Michelangelo e o Rafael. Na astronomia, tinha o Nicolau Copérnico, que observou tanto o céu que acabou mudando a posição da Terra ao afirmar que era nosso planeta que girava em torno do Sol, e não o contrário. Tutti buona gente. Agora, cá entre nós, depois que restauraram o afresco da Capela Sistina, o Michelangelo, que eu prefiro chamar de Mike, deu de ficar mais convencido ainda, tá se achando todo. Ah, fala sério...

Ainda assim, com tantos talentos em volta, o senhor foi o mais completo, que dominou mais áreas do conhecimento...

É o que eu sempre disse ao Mike: a diferença entre ele e eu é que não passei a vida inteira só pintando ou esculpindo. Na verdade, pintei pouco durante toda minha vida – tanto que hoje só sobraram umas 17 obras completas. Não tinha tempo. Por outro lado, sempre fui curioso e gostei de resolver problemas. Por falar em problemas, você tem se dado bem com esse quebra-cabeça japonês que apareceu por aí, o Sudoku? Eu ando obcecado por preencher aqueles esquemas com números. Mas o que eu gosto mesmo é de desmontar motor de carro. Aliás, uma de minhas frustrações é ter nascido muito antes da invenção do motor de combustão interna. Outra é não ter conseguido voar. Você sabe, todas as engenhocas que inventei jamais saíram realmente do chão.

O senhor costumava trabalhar para militares. Não é irônico que uma guerra tenha impedido a conclusão de uma de suas maiores obras, o monumento a Francesco Sforza, em Milão?

Pois é. Passei 12 anos da minha vida construindo aquele molde de argila imenso, de 5 metros de altura. Aí, com o molde pronto, na hora de fundir o bronze, todo metal foi desviado para a fabricação de canhões. No fim, até o molde ficou em ruínas. É o que eu digo: a elite sempre preferiu investir na guerra e não na arte – uma escolha, aliás, de bom senso, já que os saques rendem muito mais dividendos do que um retrato pendurado na parede.

O senhor deixou muitos projetos inacabados, incluindo anotações em que largou uma frase no meio e jamais voltou a ela. Por quê?

Esse sempre foi meu problema. Minha cabeça fervilhava tanto e eu ficava tão ansioso em dar forma às novas idéias que me vinham que acabava largando os projetos no meio, louco para começar outro. Mas confesso ter largado muitos deles por pura preguiça, mesmo.

Sobre os estudos de anatomia: o senhor não tinha um certo receio de passar noites dissecando cadáveres?

Certo receio? Eu tinha era paúra. Era uma aflição terrível. Ficava enjoado de ver o corpo por dentro, todo aquele sangue. Mas eu tinha de trabalhar – e rápido, porque senão o corpo apodrecia. Para você ver o que se faz pela ciência...

Uma pergunta inevitável: qual o segredo do sorriso de Mona Lisa?

Dentes maltratados. Quando fui chamado a fazer o retrato, convenci a dama a dar um leve sorriso – como, aliás, era sinal de boa educação entre as mulheres da aristocracia naquela época. De resto, só porque brinquei com alguns jogos de luz e perspectiva, vocês ficaram falando desse quadro por cinco séculos.

Voltando ao romance O Código Da Vinci, há quem acredite que n’A Última Ceia a figura que oficialmente corresponderia ao apóstolo João é, na verdade, Maria Madalena. Isso é verdade?

Sim, aquela é mesmo Maria Madalena. Mas não existe nenhuma mensagem secreta nisso. João tinha acabado de se levantar para buscar mais vinho, pois Madalena tinha se cansado de servir de garçonete e o empurrou, dizendo: “Agora é sua vez”. Por isso, Pedro, ali do lado, faz aquele gesto ameaçador: estava tentando colocá-la de volta em seu devido lugar de mulher... Calma, é brincadeira! Agora, o que eu não entendo mesmo é o que faz vocês especularem tanto sobre A Última Ceia. E andiamo via, que o filme já vai começar!

*Thereza Venturoli é jornalista e trabalhou em revistas como Super e Veja. Gosta muito de escrever sobre a relação entre a ciência e outras áreas da cultura, principalmente para jovens e crianças. Ao olhar Da Vinci de perto, ela notou que, como todo gênio, ele tinha um lado bem normalzinho.

 

Saiba mais

Livro

Leonardo da Vinci – Flights of the Mind, Charles Nicholl, Penguin, 2004 - Detalhadíssima biografia, indicada para conhecer a fundo o processo de produção de Da Vinci.

Filme

A Vida de Leonardo da Vinci, Renato Castellani, 1972 (relançado em DVD em 2005) - Traz a história de Da Vinci representada por atores.

Site

www.museoscienza.org/english/leonardo - O Museu de Ciência e Tecnologia de Milão tem um ótimo tour virtual pelas realizações de Leonardo.