Norte contra Sul: Avanço fulminante rumo a Saigon

A campanha de Ho Chi Minh foi como

Mauro Tracco Publicado em 01/01/2007, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

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Com exceção da cidade de Xuan Loc, o Exército Popular do Norte chegou à capital do Vietnã capitalista com uma facilidade e rapidez que nem eles esperavam. A dica de que havia chegado o momento de conquistar definitivamente todo o país foi dada em 6 de janeiro de 1975, quando os norte-vietnamitas invadiram e tomaram a cidade de Phuoc Long, a apenas 100 quilômetros a noroeste da capital Saigon.

Em três semanas de embate, 3 mil combatentes do Exército da República do Vietnã (ERV) foram mortos ou capturados, grandes quantidades de suprimentos apreendidas e toda a província “libertada”. A ocupação tranqüila expôs toda a fragilidade militar do sul. Tanto que o general Van Tien Dung disse em seu livro Our Great Spring Victory (“Nossa Grande Vitória na Primavera”, sem edição em português) que o presidente Nguyen Van Thieu agora era obrigado a lutar uma “guerra de homem pobre”.

A imobilidade de Washington durante a tomada de Phouc Long confirmou o que muitos estrategistas de Hanói suspeitavam: os bombardeiros norte-americanos não reapareceriam mais para ajudar seus aliados. Agora era vietnamita contra vietnamita, norte contra sul. Em janeiro, os norte-vietnamitas adotaram um plano de dois anos que consistia em grandes ofensivas ao longo de 1975 e assim criar as condições necessárias para o levante geral em 1976. Na prática, o plano de dois anos foi executado em menos de dois meses.

Dung atacou Ban Me Thuot em 10 de março e tomou a cidade em dois dias. Para garantir o controle do planalto central antes da estação das chuvas, ele se dirigiu ao norte contra Pleiku e Kontum. Em pânico, Thieu cometeu o mais tolo de seus muitos erros: ordenou o recuo imediato de todas as tropas do planalto sem formular um plano de retirada. Com as principais estradas controladas pelo inimigo, a fuga acabou se tornando uma rota de ataque para o exército do Vietnã do Norte.

Milhares de refugiados assustados debandaram junto com os soldados, congestionando os caminhos de escape. Boa parte do exército de Saigon foi capturada ou destruída, e milhares de civis morreram nos tiroteios. Pleiku e Kontum caíram em menos de uma semana. O desastroso abandono do planalto custou a Thieu seis províncias e duas divisões de soldados e acabou com o moral de suas tropas e de seu povo. A próxima catástrofe teria como palco as cidades costeiras.

Legião de desesperados

O comando em Hanói percebeu que a vitória total estava ao seu alcance e lançou uma ofensiva para a conquistar todo o Vietnã do Sul. Ao avançar sobre Hue e Danang, as forças de defesa, assim como milhares de civis, partiram para Saigon, aumentando ainda mais a legião de desesperados na capital. No caminho, soldados do ERV pilhavam o que viam pela frente e cidadãos mortos de fome cobravam dos refugiados até dois dólares por um copo d’água. Passados dez dias, as duas cidades litorâneas foram dominadas.

As cenas de horror em Danang deram uma amostra do que o futuro reservava para Saigon: soldados sul-vietnamistas ensandecidos pisoteavam mulheres e crianças para garantir um lugar no Boeing 727 norte-americano que os tiraria de lá. Os que não conseguiram uma vaga penduravam-se no trem de pouso para depois caírem no Mar do Sul da China ou serem esmagados contra a estrutura do avião.

Nha Trang e Cam Ranh foram abandonadas antes mesmo de serem ameaçadas pelas tropas inimigas. Confiante, o Exército Popular do Vietnã (EPV) lançou toda sua força na Campanha de Ho Chi Minh. O plano agora era ocupar Saigon a tempo de comemorar o aniversário do grande líder comunista, em 19 de maio.

Do outro lado do mundo, em Washington, a falta de inclinação política para voltar a envolver-se no conflito era óbvia. No dia em que Ban Me Thou caiu, o Congresso norte-americano rejeitou o pedido feito pelo presidente Gerald Ford, que queria mais 300 milhões de dólares emergenciais para financiar uma ajuda militar às tropas do Vietnã do Sul.

Ainda esperançoso de que a “cavalaria” ianque não falharia, Thieu ordenou que suas tropas no litoral formassem uma linha defensiva em Phan Rang para conter a ofensiva. Ele acreditava que o ímpeto do norte havia se esgotado e precisaria de no mínimo dois meses para se recuperar. No entanto, o ministro da Defesa, general Vo Nguyen Giap, estava decidido a concluir a guerra antes da estação das chuvas. O 1º Corpo de Exército do EPV, que consertava diques no Norte, percorreu quase 2 mil quilômetros até o sul, a maior parte a pé, entre 25 de março e 14 de abril, e apresentou-se na linha de combate.

Ford voltou a pedir dinheiro ao Congresso. Ele e Henry Kissinger, secretário de Estado, argumentaram que os Estados Unidos não poderiam carregar o peso de ter “desligado os aparelhos” dos sul-vietnamitas. Os congressistas rebateram dizendo que Thieu havia abandonado mais equipamentos nas províncias do norte do que a verba seria capaz de comprar e que dinheiro algum conseguiria salvar um exército que se recusava a lutar. Em 17 de abril, os votos do Capitólio refletiram o desejo da opinião pública e vetaram a liberação de 722 milhões. Chegara a hora de acabar de vez com o envolvimento americano na Guerra do Vietnã.

A certeza de que os Estados Unidos não iriam intervir no conflito acabou com qualquer chance, por menor que fosse, de sobrevivência do Vietnã do Sul. Quando Xuan Loc caiu, em abril de 1975, ficou claro que Saigon estava perdida.

O Congresso liberou 300 milhões de dólares para a evacuação da capital e propósitos humanitários. Também autorizou o uso de tropas para tirar americanos e aliados do país. A última ação militar da maior potência do mundo no Vietnã seria uma fuga desesperada.

 

A conquista do Sul

No primeiro quadrimestre de 1975, as forças militares do exército norte-vietnamita lançaram uma série de ofensivas que transformaram o Vietnã em um só país

1. Phuoc Long - 6 /1/1975

Após três semanas de embate, a fraqueza do ERV é exposta e os comunistas percebem que a unificação do país está a seu alcance.

2. Ban Me Thuot – 12/3/1975

O general Dung ludibria os homens do ERV, que esperavam um ataque em Pleiku, e toma a cidade em dois dias.

3. Pleiku e Kontum - 18/3/1975

Ao tomar Bam Me Thuot, o EPV passou a controlar estradas vitais para abastecer as bases aéreas de Pleiku e Kontum. O ERV bate em retirada, abandonando equipamentos preciosos como 64 aviões prontos para voar e grande quantidade de combustível.

4. Hue – 24/3/1975

Seus habitantes ainda não haviam superado o trauma da ocupação de 25 dias do Tet em 1968 e da ofensiva do Norte em 1972. Boatos, deserções e propaganda norte-vietnamita afugentaram soldados e cidadãos para Danang, tornando Hue indefesa.

5. Danang - 29/3/1975

Assim como em Hue, o clima de desespero em Danang impediu qualquer tentativa de defesa. Milhares de civis morreram nos tiroteios.

6. Qui Nhon – 31/3/1975

7. Nha Trang e Baía de Cam Rahn - 3/4/1975

A batalha de Nha Trang durou apenas 3 horas. Em Cam Rahn, após meia hora de tiroteio, as forças do sul abandonam mais 60 aviões de guerra.

8. Phang Rang - 16/4/1975

Após uma pequena pausa para se reorganizar, a ofensiva comunista toma a cidade em apenas dois dias.

9. Xuan Loc – 20/4/1975

Foi a última batalha "de verdade" da Guerra do Vietnã. Até os comunistas elogiaram a coragem e determinação das tropas inimigas durante o combate.

10. Saigon – 30/4/1975

Depois de quatro dias esperando o fim da evacuação dos inimigos, as colunas do EPV tomaram a capital e a rebatizam de Ho Chi Minh.

 

Um exército em frangalhos

Desprezado por aliados e inimigos, o Exército da República do Vietnã (ERV) foi uma das forças militares mais mal-afamadas da história. Ele foi organizado sem muito esmero com a ajuda de conselheiros americanos, enviados pelo presidente John F. Kennedy, aproveitando-se de remanescentes do Exército Nacional do Vietnã, que fora criado pelos franceses no começo da década de 50.O ERV foi formado em outubro de 1956 sob a administração do presidente Ngo Dinh Diem para combater os guerrilheiros da Frente Nacional de Libertação (FNL), os vietcongues. Em 1965, o exército sul-vietnamita foi colocado de escanteio pelos EUA, que assumiram integralmente o controle da guerra. A partir de 1969, Nixon começou a transferir a responsabilidade do combate para as mãos do ERV, em um processo conhecido como “vietnamização”, mas continuou a financiar os aliados, fornecendo equipamentos e apoio aéreo sempre que necessário. Até 1973, os militares do sul conseguiram conter o avanço do norte com algum sucesso. Quando a situação complicava, era só gritar que os irmãos do Ocidente apareciam com seus B-52s e resolviam o problema.

FINAL TRÁGICO

Após o Tratado de Paris, em 1973, a presença americana no Vietnã praticamente desapareceu. O fornecimento de equipamentos continuou, mas essa ajuda também foi aos poucos sendo cortada. Enquanto o ERV ficava cada vez mais isolado, o EPV expandia seu poder com armamentos da URSS e da China.

Em 1975, a incompetência das tropas sul-vitnamitas em resistir aos ataques surpreendeu as autoridades em Washington e Hanói. Bilhões de dólares em equipamentos haviam sido entregues de bandeja aos comunistas, que extinguiram o Exército da República do Vietnã em 30 de abril de 1975.