Robert Crumb: Da lama ao blues

Como se fosse um historiador, o cartunista Robert Crumb vasculhou o interior americano em busca das origens do gênero musical nascido nos campos pobres do Mississipi

Carlos Minuano Publicado em 01/02/2006, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

Aventuras na História
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Em 1903, o músico beberrão W.C. Handy estava dormindo numa estação ferroviária do estado americano do Mississipi. Subitamente, foi despertado por um vagabundo que tocava violão de um modo muito peculiar: arranhava as cordas usando a lâmina de uma faca. Nove anos depois, Handy entrou para a história escrevendo “The Memphis Blues”, a primeira partitura de blues a ser publicada. E, em 1914, ele chegaria às rádios com a pioneira “St. Louis Blues”, canção que levou ao resto dos Estados Unidos o ritmo nascido na zona rural do lamacento delta do rio Mississipi – e que, num futuro próximo, mudaria os rumos da música popular.

Em sua biografia, Handy cita o encontro com o violonista marginal como uma das influências que o fizeram compor e gravar os primeiros blues registrados. Mas quem seria o misterioso guitarrista? Foi com questões como essa na cabeça que o cartunista americano Robert Crumb passou duas décadas investigando as origens do gênero musical. O resultado dessa pesquisa, digna de um historiador, está em Blues, coletânea produzida especialmente para o Brasil, reunindo quadrinhos que Crumb desenhou sobre o assunto em diferentes períodos de sua carreira, entre os anos 60 e 80.

O cartunista, aliás, encontrou uma identidade para o autor daquela serenata para violão e faca. Na estação ferroviária, Handy teria sido acordado pelo músico Henry Sloan, que ficou conhecido por ter ensinado Charley Patton, uma das primeiras lendas vivas do blues, a tocar instrumentos de corda. Mais tarde, o aprendiz viria a se tornar especialista na técnica da faca, que acabou virando um estilo chamado slide – em que o instrumentista passa ao longo das cordas um pedaço de metal ou um gargalo de garrafa enfiado no dedo.

Pai de personagens como Fritz the Cat, Crumb é conhecido pelas duras críticas que faz ao moralismo e à hipocrisia presentes nos Estados Unidos. Nascido na conservadora cidade da Filadélfia, em 1943, foi na distante São Francisco que, no final dos anos 60, ele lançou a Zap Comix, revista de quadrinhos que sacudiu o cenário alternativo. Em suas páginas, Crumb avacalhava os valores da família tradicional americana. A partir daí, o cartunista tornou-se uma espécie de guru do underground.

O traço rústico de Crumb cai como uma luva para falar do blues, gênero imerso no sofrimento, na violência e na bebedeira. No começo do século 19, aliás, a palavra blues estava ligada às alucinações provocadas pelo delirium tremens, a síndrome de abstinência de álcool. Daí para ter seu significado associado à sensação de infelicidade, foi um pulo. Nos anos 1860, a professora negra Charlotte Forten, que dava aula para escravos na Carolina do Sul, registrou em seu diário: “Voltei para casa com os blues”. E completava: “Joguei-me na cama e lamentei minha sorte”.

Movidos a álcool

Mais do que nomes e datas, Blues resgata o clima do velho Mississipi, do jeito que era antes que a indústria fonográfica americana decidisse gravar discos do gênero. As histórias foram desenterradas pelo cartunista em peregrinações por bairros negros americanos, em busca de discos das décadas de 20 e 30. A antologia começa com a história de Charley Patton. Fanfarrão incorrigível, que passava a maior parte do tempo bêbado, ele foi um dos representantes mais fiéis da autêntica sonoridade do Mississipi, permanecendo distante do blues comercial (aquele repleto de divas negras que cantavam acompanhadas por suntuosas bandas de jazz). Famoso por sua vida desregrada, Patton fez história como professor de gente como Eddie Son House, Howlin’ Wolf, Thommy Jonhson, Bukka White e outros mais, que viriam a se tornar lendas do gênero pouco tempo depois.

O perfil dos grandes nomes do blues retratados no livro de Crumb é basicamente um só: enorme criatividade, movida a generosas doses etílicas, combinada a um desdém às convenções da vida em sociedade. Passagens pela cadeia estavam longe de ser fato raro entre o grupo – o próprio Patton foi preso por causa de uma briga em que se meteu enquanto vagabundeava bêbado pela noite do Mississipi, alheio ao sucesso de sua música.

A época de ouro do blues foi marcada pela vigência da Lei Seca, que proibiu o consumo de bebidas alcoólicas nos Estados Unidos entre 1920 e 1933. Os barrelhouses, botecos improvisados de madeira, comuns no Mississipi, eram constantes alvos de batidas policiais. Durante a noite, fervia ali uma mistura explosiva de música, dança e álcool que, não raro, explodia em confusão. Muitas vezes os drinques eram servidos em latas – já que copos e garrafas de vidro viravam armas a cada briga.

Se as autoridades farejavam confusão naquele ambiente, a indústria fonográfica sentia cheiro de lucro. Ao perceber o potencial do novo ritmo, começou a oferecer dinheiro àqueles que topassem adestrar seu potencial criativo, adaptando o blues tradicional a uma versão mais comercial. Vários não se importaram em ceder. Inspirado nesse tipo “vendido”, Crumb criou Tommy Grady, que abandona mulher e filhos no Mississipi e cai na estrada rumo a Memphis, no Tennessee, acompanhado de dois parceiros. Mas Tommy deu azar. Com a quebra da Bolsa de Nova York, ocorrida em 1929, uma grave crise econômica se abateu sobre a economia americana e mundial. Música virou artigo de luxo e os investimentos no setor minguaram.

Na vida real, o mestre Robert Johnson, também retratado por Crumb, teve sorte melhor ao sair do Delta. Na década de 20, ainda jovem, ele se aproximou de velhos blueseiros, incluindo Charley Patton – seu sonho era ser como eles. Mas, desacreditado pelos blueseiros antigos, ele acabou saindo do Mississipi. Tempos depois, Johnson ressurgiu. E trouxe consigo um novo estilo de tocar. Entre 1936 e 1937 criou canções revolucionárias. Anos depois de sua morte, ele viraria o guru de roqueiros como Eric Clapton. Há quem diga que a reviravolta em sua carreira só aconteceu por causa de um pacto com o diabo (veja quadro acima).

Além de trazer à tona velhas histórias, Blues presenteia os leitores com a reprodução de cartazes de shows e capas de discos e revistas, todos desenhados por Crumb. São mais de 20 imagens. Uma das obras mais famosas é a capa do álbum Cheap Thrills, de Janis Joplin, amiga do cartunista. A ilustração, entretanto, tinha sido criada para ser a contracapa. Contrariado pela decisão, Crumb foi brigar com a gravadora. Além de não conseguir impor sua idéia original, acabou sem receber nenhum tostão pelo trabalho. O cartunista, aliás, costuma torcer o nariz para a música moderna, que seria responsável pela desvalorização do blues e do jazz tradicionais. “Talvez o ápice dessa rejeição tenha sido o dia em que Crumb bateu a porta na cara dos Rolling Stones”, conta Rogério de Campos, diretor da Conrad, editora que lançou Blues. “A banda queria que ele desenhasse a capa de um de seus discos, mas ficou só na vontade.”

A relação íntima de Crumb com a música americana da primeira metade do século 20 se concretizou na banda de jazz Cheap Suit Serenaders, com quem gravou três discos nos anos 70. Responsável por tocar banjo (e por ilustrar capas e cartazes), o cartunista fez questão de encher o repertório com canções daquela época. Segundo ele, a música antiga possui uma alma verdadeira, própria da arte popular. “Tudo o que foi feito para agradar a aristocracia não tem a qualidade humana bruta que possuem as formas artísticas das classes inferiores”, diz Crumb no posfácio de Blues.

Revoltado com o conservadorismo americano e com a cultura pop, Crumb acabou se mudando para um vilarejo no sul da França, onde vive com a mulher, a filha e um punhado de galinhas. A calmaria, porém, fica restrita à paisagem bucólica que ele vê da janela. Isso porque, dentro de casa, uma bomba está sendo preparada, com lançamento mundial previsto para 2007. Trata-se da versão em quadrinhos para o Gênesis, livro da Bíblia que narra a criação do mundo. É esperar para ver.

 

Cruz credo!

Quer aprender rápido?Procure o capeta

No velho Mississipi, acreditava-se que o modo mais fácil de se tornar mestre do blues era selar um pacto com o demônio. O músico Thommy Johnson garantia ter feito isso para aprender a compor e a tocar. Em Blues há uma história em que ele aparece e dá a receita do sucesso fácil: “Pegue seu violão e vá para um lugar onde tenha uma encruzilhada”, diz. “Tome o cuidado de chegar um pouco antes da meia-noite e fique lá com seu violão, tocando uma música sentado, sozinho.” Se um grande homem negro se aproximar, afinar o violão e tocar uma canção, parabéns: o negócio está confirmado. Dizem que o grande Robert Johnson fez exatamente isso, na encruzilhada das rodovias 61 e 49, em Clarcksdale, Mississipi. Sua morte misteriosa é vista como evidênciado pacto sinistro. Ao que parece,ele foi assassinado. Mas há quem afirme que ele teria sido levado pelo demônio – que teria vindo à Terra cobrar dele uma antiga dívida.

Cancioneiro crumbiano

Músicas que fizeram acabeça do cartunista

Ao longo de sua obra, Crumb mapeou uma verdadeira trilha sonora, baseada nos becos do blues por onde passou, repleta de raridades de épocas remotas e autores praticamente desconhecidos. Alguns clássicos, entretanto, podem ser encontrados com relativa facilidade. Do pioneiro Charley Patton, uma das obras mais importantes é “High Water”, em que ele se lembra, de maneira comovente, da grande enchente de 1927, quando o rio Mississipi alagou as redondezas após ter alguns de seus diques rompidos. “Não achei ninguém em casa e pessoa alguma pude encontrar”, diz a letra. O lamento do compositor marginal foi regravado por Bob Dylan no álbum Love and Theft, de 2001. Crumb cita também “It won’t be Long”, de 1929, em que Patton narra suas aventuras sexuais, bebedeiras e farras. Já Robert Johnson, que influenciou inúmeros roqueiros com seu estilo único de tocar, escreveu nos anos 30 a emblemática “Crossroads”, que faz referência aos lendários pactos com o diabo que teriam sido feitos em nome do blues. No disco Wheels of Fire, de 1968, Eric Clapton reinterpretou a canção ao lado da banda Cream. Mas nem só de blues viveu o garimpo musical de Crumb. Revirando discos de 78 rotações, ele resolveu fazer uma seleção de músicas antigas cantadas por mulheres de países tropicais. A pesquisa durou meses e o resultado pode ser conferido no disco Hot Women, lançado nos Estados Unidos em 2003. Entre as 24 faixas, em meio a criações de várias partes do mundo, há uma composição brasileira. É “Quero Sossego”, de 1931, gravada por Aracy Cortez, cuja voz embalou sucessos carnavalescos das décadas de 20 e 30.

Saiba mais

Livro

Blues, Robert Crumb, Conrad, 2004 - R$ 45