Robert Fisk: um olhar privilegiado sobre o Líbano

O jornalista inglês faz um dos melhores relatos sobre a Guerra Civil do Líbano

Fabiano Onça Publicado em 01/11/2007, às 00h00 - Atualizado em 19/10/2018, às 10h11

Aventuras na História
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Pobre Nação – As Guerras do Líbano no século XX

Robert Fisk - Record - R$ 74,90 - 966 páginas

O que quer que se escreva sobre o Oriente Médio precisa sempre ser analisado com cuidado. A região é palco não só de violentas guerras, como também de discussões ainda mais acaloradas. Nesta batalha de palavras e relatos, o jornalista inglês Robert Fisk ocupa uma posição estratégica. Ele é, na opinião do New York Times, o correspondente internacional mais proeminente da Inglaterra. Cobriu, entre outros conflitos, a Revolução dos Cravos, em Portugal, em 1974; a Guerra Civil no Líbano, a Revolução Islâmica no Irã; a Guerra do Golfo e a Invasão do Iraque. Além disso, teve o privilégio de realizar não uma, mas três entrevistas com o homem mais procurado do mundo: Osama bin Laden. Por fim, Fisk tem duas vantagens que raros jornalistas ocidentais possuem: fala bem o árabe e viveu os últimos 25 anos no Líbano.

Isso posto, este livro é simplesmente um dos melhores relatos sobre a Guerra Civil Libanesa (1975-1990) já publicados. O livro, entretanto, não é apenas um mar de selvageria. Os primeiros capítulos, por exemplo, descrevem o processo pelo qual ocorreu a diáspora Palestina, graças à fundação do Estado de Israel e a subseqüente guerra de 1948.

O que isso tem a ver com guerra libanesa? Tudo, uma vez que milhares de palestinos buscaram abrigo no vizinho Líbano, constituindo, a partir daí, praticamente uma entidade independente dentro do território do Estado libanês. Em seguida, Fisk esboça, num consistente panorama, as ambições sírias e israelenses em relação ao território libanês, no momento da eclosão da guerra civil entre milícias cristãs e muçulmanas. Particularmente interessante é também sua descrição dos capacetes azuis franceses, que chegaram ao Líbano no final da década de 1970 e de sua sempre incômoda posição de mediadores em um conflito impossível de ser mediado.

De certo modo, todas essas descrições são o suporte para o coração do livro, que é a invasão israelense do Líbano, ocorrida em junho de 1982, e de sua implacável batalha contra a OLP por Beirute. E é aqui que brilha a narrativa de Fisk, já que ele escrevia direto de Beirute, ao contrário da maioria da imprensa ocidental, que acompanhou a guerra do lado israelense, submetendo-se à censura do Exército. Seu testemunho das atrocidades cometidas por israelenses, palestinos e as diversas milícias envolvidas são chocantes, mas são um indicativo realista do que é a guerra de perto.

Mesmo que não se concorde com as posições políticas de Fisk, não se pode negar que esse veterano jornalista, de 61 anos, escreve bem, muito bem. Seus relatos são uma combinação muito rara de conhecimento histórico, político e cultural daquela região, temperados com algo que anda muito em falta hoje nas redações: acesso ao lugar de combate, descrição de detalhes e circunstâncias, enfim, o testemunho de quem esteve lá, na hora e lugares certos.

Trecho do livro

“Eles forçaram um grande grupo de homens, mulheres e crianças xiitas a entrarem em uma mesquita na vila de Khiam e, diante dos olhos de oficiais israelenses, metralharam todos. Somente a persistência de Jonathan Randal, do Washington Post, trouxe este massacre - um verdadeiro ato de ‘terrorismo’, se for para usar o termo - à luz. Ainda assim, não fez diferença alguma para os israelenses. Eles elogiariam publicamente os pistoleiros cristãos como patriotas notáveis que haviam resistido sozinhos aos ‘terroristas’ palestinos.”

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