Ruínas de Stalingrado: inimigo invisível

Elas criaram a condição perfeita para a luta de rua dos soldados soviéticos. A ofensiva alemã perde a força, mas Hitler recusa-se a negociar com Stalin

12/07/2006 00h00 Publicado em 12/07/2006, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

Aventuras na História
Aventuras na História - Arquivo Aventuras

A placa na principal estrada para Stalingrado avisava: “Proibida a entrada para a cidade. Os espectadores põem suas próprias vidas e as de seus camaradas em perigo”. Para muitos, aquelas inscrições só podiam ser uma mórbida brincadeira. Outros a encararam como um aviso para a entrada numa terra de ninguém. E, de fato, era isso mesmo. As batalhas de setembro de 1942 castigaram ruas, destroçaram instalações e consumiram a vida de milhares de soldados e civis. A cidade ficou em ruínas. Bombas levantavam enormes nuvens de fumaça diariamente e o terreno vibrava sem parar com as explosões.

Apesar do cerco, os alemães nunca dominaram completamente a cidade. Eles faziam progressos na periferia a oeste e na parte sul de Stalingrado, mas ainda enfrentavam a resistência dos soviéticos em instalações importantes. Hitler acreditava que os russos ficariam sem reservas a qualquer momento. Mas os recursos da Wehrmacht também se dissipavam rapidamente e a tenacidade dos combatentes de Stalin desanimava os invasores. O Exército Vermelho resistia bravamente e receberia os reforços providenciais do jovem general Aleksander Rodimtsev.

Muitos combates eram feitos corpo a corpo e cada esquina era disputada sob forte fogo cruzado. Um bom exemplo foi a batalha pela estação central da cidade, que mudou de mãos três vezes em apenas duas horas – e acabou sob o domínio soviético. A luta nos escombros era tão violenta, que granadas constantemente enterravam e desenterravam corpos. Dos dois lados, companhias inteiras eram dizimadas. A 13ª Divisão da Guarda de Fuzileiros soviética, por exemplo, começou a defesa de Stalingrado com 10 mil homens. No final da guerra, apenas 320 estavam vivos.

Nesse cenário, as técnicas alemãs da Blitzkrieg eram impraticáveis. Em seu lugar, espalhou-se a guerra de trincheira, com táticas que remetiam a antigos princípios da Primeira Guerra Mundial. Grupos de assalto de dez pessoas usavam metralhadoras, morteiros leves e lança-chamas para tirar o inimigo entocado em ruínas, casamatas, porões e esgotos. Cartas da época retratam bem essa situação. “O inimigo é invisível”, escreveu o general Karl Strecker a um amigo. “Emboscadas saídas de buracos no solo e das ruínas de fábricas causam muitas baixas.”

Nos últimos dias de outubro, a grande ofensiva alemã perdeu a força por exaustão e falta de munições. Diante da nova realidade, o ministro das Relações Exteriores do Reich, Joachim von Ribbentrop, sugeriu uma negociação com Stalin por meio da embaixada soviética em Estocolmo. Mas Hitler foi categórico ao recusá-la. Disse que um momento de fraqueza não é a hora certa de lidar com um inimigo. No dia seguinte, o inverno chegou com tudo em Stalingrado.

Gelo no Volga

O Volga, um dos últimos rios a congelar na URSS, começou a ficar inavegável. Os termômetros batiam fácil nos 20 graus negativos. Era hora de colocar em prática a Operação Urano, um contra-ataque simples, porém ambicioso, que cercaria o Sexto Exército desde as estepes entre o Don e o Volga e deixaria as tropas de Paulus na mira do fogo soviético. Havia dois meses que as tropas soviéticas se fortaleciam e se preparavam para pôr em prática a armadilha arquitetada pelo marechal Georgi Jukov.

A ofensiva foi tão rápida e surpreendente que Paulus percebeu que se tratava de um cerco, apenas três dias depois que ela fora lançada. Após batalhas esmagadoras, com baixas transbordando para os dois lados, o Exército alemão finalmente foi envolvido. Hitler, furioso, ordenou que suas tropas não tentassem furar as linhas inimigas, e prometeu mais reforços e suprimentos. Mas o abastecimento tornava-se cada vez mais difícil por causa do clima e das posições de seus soldados. Faltavam munições e a fome transformava-se no pior inimigo dos alemães. Muitos soldados, esfarrapados pela dureza dos combates e sem resistência pela má alimentação, sucumbiam diante de doenças como tifo e disenteria. Os mais desesperados recorriam freqüentemente ao canibalismo.

As condições nas casamatas e abrigos tornavam a rotina do soldado alemão ainda mais agonizante. Os porões eram tão insalubres, que feridos e doentes infestados de piolhos não tinham força nem para se coçar. O escritor Vassili Grossman, em seus relatos de guerra, descreveu o quadro: “Ficam lá sentados, como selvagens peludos, em grutas da Idade da Pedra, devorando carne de cavalo na fumaça e obscuridade, em meio às ruínas da bela cidade que destruíram”.

A situação no front era tão calamitosa que muitos soldados alemães começaram a se entregar ou a desertar. A batalha por Stalingrado estava praticamente perdida. Hitler ainda tentou enviar ajuda para o Sexto Exército, mas já era tarde. Em 30 de janeiro de 1943, tropas do Exército Vermelho penetraram no centro de Stalingrado e acabaram por ocupá-la na manhã seguinte. A Praça Vermelha foi reconquistada num intenso bombardeio de morteiros e artilharia. No mesmo dia, os soldados russos entraram na loja de departamentos Univermag, onde Paulus havia estabelecido seu quartel-general. Ele se encontrava no porão e ainda teve tempo de enviar seu aviso aos membros do Estado-maior: “Russos na entrada. Estamos nos preparando para nos render.” Dez minutos depois, o primeiro-tenente Fiodor Ilchenko chegou ao porão fétido e entulhado, e levou Paulus para seu quartel-general. Pela primeira vez na Segunda Guerra, a Alemanha soube o que era se render.

 

O senhor da guerra

O general Vassili Chuikov (foto) fazia parte de uma nova geração de comandantes enérgicos e impiedosos, que ficavam furiosos com as humilhações sofridas pelas tropas soviéticas e mandavam executar desertores com frieza. Chuikov era comandante de um exército de reserva perto de Tula. Em junho de 1942, chegou à frente de Stalingrado. Participou de batalhas importantes e, meses depois, à frente do 62º Exército, coordenou a resistência de Stalingrado nos momentos mais difíceis. Depois, ele iria à forra: recebeu a missão de marchar até Berlim em 1945 e tomar a capital do Reich. Venceu os alemães duas vezes e teve o gosto de ver a bandeira da URSS tremular no alto do bunker de Hitler. Depois da guerra, foi nomeado vice-ministro de Defesa do governo de Nikita Kruchov.

Os heróis de Pavlov

A batalha de Stalingrado produziu diversos episódios de heroísmo. Em 1942, durante os intensos combates de rua no final de setembro, um batalhão soviético do 42º Regimento da Guarda invadiu um prédio de quatro andares, a 300 metros da margem ocidental do Volga. Logo no início da investida, seu comandante, o tenente Afanasev, ficou cego e passou o comando para o sargento Jakob Pavlov. Seus homens demoliram estruturas do porão para melhorar as comunicações e abriram buracos nas paredes para criar os melhores pontos de disparo. Munidos de metralhadoras e fuzis antitanque de cano longo, atraíram os alemães para um combate quase corpo a corpo e resistiram ao inimigo durante 58 dias. Nem os panzers conseguiam vencê-los.Eles contaram também com a ajuda de muitos dos 30 civis que descobriram escondidos no porão, especialmente de Maria Ulianova, que teve participação ativa na defesa do prédio. Depois da guerra, o general do 62º Exército russo, Vassili Chuikov, responsável pela defesa de Stalingrado, disse que os homens de Pavlov mataram mais inimigos do que os alemães perderam na tomada de Paris. O sargento virou herói e acabou retirando-se para o mosteiro de Sergievo, antiga Zagorsk, onde atraiu um séquito de fiéis por sua devoção religiosa – fato que, curiosamente, nada tinha a ver com sua fama em Stalingrado.

Os recordes dos franco-atiradores

Apesar da luta obstinada de muitos combatentes soviéticos, as maiores estrelas do Exército Vermelho eram os franco-atiradores. Cultuados por seus camaradas e temidos pelos alemães, eles despertaram uma admiração frenética por sua atividade. Operavam aos pares nos campos cobertos de neve da estepe e rastejavam no solo, à noite, pela terra de ninguém em busca da melhor posição para atirar. Camuflados com seus uniformes brancos, cavavam buracos no solo e eram os soldados mais bem equipados do exército soviético. Pouco lhes era negado e tinham até condecorações específicas. Quando alcançavam a marca de 40 inimigos mortos, recebiam a medalha “Por Bravura” e o título de “Nobre Franco-Atirador”.

Um deles ficou especialmente famoso no front de Stalingrado. Era Zaitsev, um taciturno pastor dos contrafortes dos Urais, que executou 149 alemães. No 62º Exército soviético, Zaitsev era considerado herói. Cada vez que aumentava sua “contagem”, a notícia espalhava-se rapidamente de boca em boca. Sua habilidade era tamanha que logo se iniciou um movimento para formar novos franco-atiradores – ele como professor.]

O detentor do maior escore, no entanto, era conhecido apenas como “Zikan”. Ele atingiu a marcar de 224 alemães mortos por volta de 20 de novembro de 1942.