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Como uma história improvável e o marketing medieval transformaram uma cidade no fim do mundo em rota de peregrinação que rivalizou com Roma e Jerusalém

segunda 23 outubro, 2017
santiago
santiago Foto:Arquivo Aventuras

Em 1987, o escritor brasileiro Paulo Coelho, à época famoso por ser o parceiro de Raul Seixas, publicou O Diário de um Mago. A obra transformou seu autor em personalidade mundial. E o cenário do livro, no mesmo ano, ganhou a aura de "Primeiro Itinerário Cultural da Europa". O Caminho de Santiago, que moldou boa parte do europeísmo na Idade Média e serviu como aglutinador na luta contra os muçulmanos na península Ibérica, havia voltado à moda.

A transformação de um lugar tão remoto (a região onde supostamente repousa os restos de são Tiago é a Finis Terra, "o fim da terra") na Meca do cristianismo é um processo que mistura história e fantasia. Para o historiador Yves Bottineau, autor de Les Chemins de Saint Jacques, trata-se de "um dos mais assombrosos fenômenos da civilização ocidental", um fenômeno milenar que até hoje movimenta multidões. Na primeira metade do século 9, começou a correr entre os povos da cristandade a lenda de que os restos mortais de ninguém menos que são Tiago Maior, um dos 12 apóstolos de Cristo, estava enterrado nos confins do reino asturiano, a região que fica acima da atual fronteira norte de Portugal e Espanha.

Segundo a tradição, após a morte de Jesus, são Tiago desembarcou no porto de Iria Flavia (atual vila de Padrón, na Galícia, Espanha) e passou alguns anos evangelizando as províncias hispânicas. Ao retornar à Judeia, foi martirizado e morto. Seus discípulos então transportaram seu corpo de volta a Iria Flavia e ergueram um sepulcro a certa distância da vila. Devido às perseguições romanas aos cristãos primitivos, o túmulo teria sido abandonado e caído no esquecimento. Foi redescoberto, segundo a lenda, por volta de 830, quando um pastor galego chamado Pelaio percebeu a luz de uma estrela iluminando o monte Libradón. A notícia chegou a Teodomiro, bispo da diocese de Iria Flavia, que ordenou a escavação do monte e teria descoberto uma arca de mármore com os restos do apóstolo. Alfonso 2º, rei de Astúrias, a quem pertencia o território, mandou erguer uma igreja no local. Era o nascimento de Compostela.

Disseminação do culto

"O verdadeiramente fantástico não é o mito em si, mas a força com que se propagou. A partir do ano 1000, Compostela rivalizava em número de fiéis com os dois mais veneráveis e antigos centros de peregrinação: Jerusalém e Roma", diz Luís Martínez García, da Universidade de Burgos. A lenda caiu como uma luva para Alfonso 2º. Acuado pelos árabes depois da invasão de 711, seu reino estava em busca de elementos de identificação para a resistência frente aos mouros. "Santiago é um fator multinacional decisivo para articular o sentimento anti-islâmico na península Ibérica", diz Francisco Márquez Villanueva, da Universidade Harvard. O apóstolo se transformou no padroeiro da luta contra os árabes e, posteriormente, no chefe espiritual da Reconquista e das Cruzadas em toda a Europa cristã.

A atividade propagandística do clero compostelano nos séculos 11 e 12 também foi chave na disseminação do culto a são Tiago. Além do lobby feito junto aos papas para que incentivassem os fiéis a visitarem o sepulcro, escreveram crônicas que enalteciam o santo e destacavam sua importância. Peregrinar a Compostela virou obrigação para todo monarca de respeito, que nunca empreendia a longa viagem sem a companhia de um séquito que podia chegar a mais de 200 cortesãos.

A publicidade promovida pelo clero sob os auspícios da monarquia asturiana, somada aos anseios da credulidade popular, desenhou uma imagem convincente e atraente do santo apóstolo, que alcançou o auge de sua fama em meados do século 12. "Duzentos mil, talvez mais, em uma população europeia de uns 60 milhões, andariam rumo a Compostela a cada ano", afirma García.

Identidade europeia

Uma frase atribuída a Goethe diz que "a Europa se fez em peregrinação a Santiago". Como numa rede hidrográfica, de todos os pontos do continente partiam enxurradas de gente em direção à Galícia, formando vias "afluentes" e "subafluentes". Após atravessar os Pirineus, a maioria das rotas convergia no "rio principal": o chamado Caminho Francês. Entre os séculos 11 e 12, o trajeto se transformou na grande artéria de comunicação continental, a única via capaz de entrelaçar os diferentes reinos cristãos da península Ibérica com o resto da Europa, um ponto de união de mundos econômicos distintos.

Os viajantes precisavam de comida, segurança e descanso. Aos poucos, o caminho ganhou os instrumentos assistenciais necessários: um sistema urbano capaz de oferecer bens de consumo e segurança, um corpo policial organizado sob o manto das ordens militares e uma rede de albergues, igrejas e santuários abertos a todos os viajantes. O trajeto se transformou em um espaço urbanizado, protegido, acolhedor e sagrado.

A partir da metade do século 16, Santiago entrou numa fase de descrédito e decadência. As reformas protestantes que sacudiram o continente deram o golpe fatal às peregrinações, que a partir de então deixaram de interessar a boa parte dos europeus, principalmente dos territórios germânicos e da Inglaterra. Surgiram novas formas de religiosidade, mais intimistas, que rejeitavam ritos externos, como a visita a santuários.

Além das mudanças de natureza religiosa, é preciso considerar a desconfiança gerada pela multiplicação de bandidos que procuravam viver sob a asa que protegia o peregrino. Segundo um manuscrito da Colegiada de Roncesvalles, a maior parte dos que passavam a princípios do século 17 eram fugitivos da Justiça, transformando os lugares santos em "covis de ladrões". As rotas se deterioram, até serem redescobertas no século 20 - o turismo com um tom selvagem e o desafio da caminhada trouxeram novo alento aos estradões medievais.

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Texto Mauro Tracco, de Barcelona | Ilustração Sandro Castelli | 01/02/2012 16h10


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