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O escândalo dos falsos diários do Führer na Alemanha

O veículo de comunicação utilizou uma fonte não confiável e publicou a matéria sem realizar a investigação dos fatos

Nicoli Raveli e Wallacy Ferrari Publicado em 26/03/2020, às 11h00

Montagem com os falsos diários
Montagem com os falsos diários - Divulgação

Em 1983, a revista alemã Stern, anunciou uma descoberta insólita: uma equipe havia desenterrado diários perdidos de Adolf Hitler. Por muito tempo, eles chamaram atenção do público e ganharam cada vez mais espaço na mídia. O diretor da empresa, Michael Seufert, divulgou a informação de que mais de 60 volumes de anotações do líder nazista haviam sido desenterrados.

Entre os textos, todos com uma caligrafia semelhante as encontradas em tratados assinador por Hitler, a revista informava que reuniu manuscritos de 1932 até 1945 que ficaram ausentes do Mein Kampf, como partes pessoais: "Mas, de qualquer forma, posso relaxar um pouco com os arquitetos. E [Eva Braun] agora tem dois filhotes para que o tempo não fique muito pesado nas mãos".

Outros trechos citavam dias importantes da história do mundo, sempre com as datas coincidindo com os registros históricos e citando figuras notáveis: "Como diabos Stalin administra isso? Sempre imaginou que ele não tinha mais oficiais, mas ele fez a coisa certa [ao expurgar o corpo de oficiais]. Uma nova estrutura de comando na Wehrmacht é o que precisamos também". Entretanto, ninguém esperava que a descoberta fosse, na verdade, uma farsa.

Entretanto, a fama durou por pouco tempo. Duas semanas depois, a notícia foi classificada como falsa. Na verdade, a fonte utilizada pela revista era Konrad Kujau, um oportunista que ganhou dinheiro através da fabricação e venda de lembranças falsas da Segunda Guerra Mundial.

Introdução da matéria sobre os diários falsos / Crédito: Divulgação/Stern

 

Segundo Seufert, boa parte das arrecadações de Kajau aconteceram quando ele encontrou o repórter Gerd Heidemann , um comprador da Stern para suas falsificações. "Heidemann tinha um fascínio tão mórbido pelos itens colecionáveis ​​nazistas que chegou a ser amigo de criminosos de guerra e estava pronto para acreditar em qualquer coisa", disse o diretor.

Além de Heidemann, outros repórteres e editores contribuíram para a disseminação sobre os falsos diários do Führer. A ansiedade e ganância tomaram conta e os principais executivos da editora, Gruener e Jahr, não deixavam que outros editores revisassem o conteúdo.

Gerd Heidemann, repórter da revista Stern / Crédito; Divulgação

 

Frustrações do diretor

O editor de reportagens do Sunday Times de Londres, Magnus Linklater, foi o único a relatar o desgosto de Seufert por não poder examinar os diários. “Não parecia ele. Mas o acordo foi que Rupert Murdoch compraria os diários da Stern, mas a condição de compra era que não nos permitissem conduzir nossa própria investigação independente", acrescentou Linklater. 

Ele também afirmou que o historiador Hugh Trevor-Roper havia investigado os livros e confirmado que eram genuínos. "A palavra dele foi boa o suficiente para mim, mas mostra como podemos ser ingênuos", disse Linklater.

Para o editor, Seufert deveria ter realizado investigações internas antes de permitir a publicação dos diários, já que nem mesmo a letra de Hitler foi comparada com outros documentos e, posteriormente, analisada. Da mesma maneira, se um estudo fosse realizado, verificaria que todos os objetos utilizados para a encadernação dos diários eram materiais pós-guerra.

A falta de verificação

"Você precisa de especialistas externos para examinar a caligrafia ou o papel, para que seja compreensível que Stern, que era tão paranoico em relação ao sigilo, tenha medo de vazamentos. Mas o que é insondável é por que eles não fizeram verificações internas”, afirmou o historiador Gerhard Weinberg, que foi contratado para examinar os diários.

Segundo o historiador, se Michael tivesse permitido a avaliação de um especialista, seria notado a grande quantidade de erros nos diários. "Alguém em casa poderia ter lido o diário e teria descoberto coisas tão absurdas que o Fuhrer não poderia ter escrito, como, por exemplo, errar a cor de seu próprio uniforme".

Michael Seufert, editor da revista Stern / Crédito: Divulgação 

 

Entretanto, a porta-voz da Associação Alemã de Jornalistas, Hendrik Zoerner, afirmou que Stern sempre contava com a ajuda de outras pessoas para a validação de uma notícia, e que os diários falsos foi uma exceção.

"Mas nós na mídia estaremos cometendo outros tipos de erros que são menos espetaculares do que o que aconteceu na Stern. Atualmente, os jornalistas sofrem tanta pressão que passam menos tempo pesquisando e checando fatos, de modo que acabam escorregando e cometendo pequenos erros diariamente", disse.

Zoerner também acrescentou que as falhas são inevitáveis, mas que é de extrema importância que os jornalistas assumam e as reconheçam. 

Dessa maneira, a queda dos responsáveis pela matéria veio à tona. De acordo com Seufert, o projeto foi realizado em segredo para proteger as supostas fontes nazistas e para que o veículo fosse o primeiro a noticiar o fato. Porém, ao ser publicado, o repórter e os editores foram intitulados como falsificadores de informação.

"Nós, editores, ficamos completamente fora do circuito, então todas as verificações e saldos normais para autenticar histórias foram deixados de lado", afirmou Seufert, que revelou que a editora pagou cerca de quatro milhões de dólares a Kajau. Após as acusações, Heidemann e Konrad cumpriram quatro anos de prisão sob os crimes de fraude, enquanto os editores principais foram absolvidos.


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