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Como os vietnamitas conseguiram vencer os EUA na guerra?

Não foi sorte ou o poder na natureza: o governo asiático contou com conhecimentos importantíssimos para a vitória

Coluna - André Nogueira, historiador Publicado em 12/05/2021, às 09h57

Memorial do Vietnã, nos EUA
Memorial do Vietnã, nos EUA - Imagem de JamesDeMers por Pixabay

O Vietnã foi um dos cenários de maior violência durante o século 20. A trajetória desse país, que passou por uma revolução popular de caráter comunista e anti-imperialista em 1950, é marcada pela guerra contra quatro operações de dominação sobrepostas: da França, do Japão, dos EUA e da China.

Sofrendo as mais insólitas atrocidades, o povo desse país acabou alvo da guerra imperial em diversas frentes, tornando necessário o desenvolvimento de uma resistência a longo prazo, e não apenas situacional.

A administração socialista do Vietnã do Norte foi marcada pela participação de nomes como Ho Chi Minh e Vo Nguyen Giap, nacionalistas de esquerda que representavam política e belicamente aquela revolução de independência. Não apenas os dois eram grandes administradores como também estudiosos da causa geopolítica e da guerra (o próprio Giap era historiador de formação, com conhecimento dos fluxos sociais e movimentos de massa, e Ho estudou na França e integrou o núcleo fundador do Partido Comunista Francês), o que foi essencial para a vitória dos indochineses neste que foi um dos conflitos mais marcantes da Guerra Fria.

Mais especificamente, o conhecimento sobre a Guerra foi elemento primal para o comando de sucesso vietnamita tanto politicamente, pensando o Secretariado Geral comandado por Ho até sua morte no meio do conflito, quanto à Defesa, que estava nas mãos de Giap.

Isso significa que ambos os citados tinham vasto conhecimento dos principais teóricos da guerra da modernidade (o que significa, essencialmente, dois homens do XIX: Carl von Clausewitz e Friedrich Engels). Foi um entendimento aprofundado dessa noção moderna de guerra que definiu a ação do Vietnã no século 20.

Giap Engels foi um leitor socialista e militante da obra de Clausewitz, este sendo essencial para a compreensão do tema. Segundo o general prussiano, em sua magnus opus Da Guerra, os conflitos modernos superaram a fase da simples batalha entre exércitos profissionais, e passaram a integrar nações contra nações (e, portanto, sociedades contra sociedades, povos contra povos).

Conhecimento especializado das Artes das Armas teria que ser integrados a uma preparação anterior (uma virtú de guerra, nos termos de Maquiavel), e à disposição das comunidades envolvidas em relação a uma causa. Tudo isso seria posto em cheque no campo de batalha, onde ainda haveria a interferência do lançar dos dados da ocasião, o que pode também alterar resultados.

E o que isso afetou no caso vietnamita? Ho e Giap, excelentes conhecedores de Clausewitz, sabiam que a preparação para a guerra não implicava apenas na formação de um quadro militar, mas na integração e preparação de uma nação inteira.

Ou, como ilustra o título de uma das principais obras de Giap, no Armamento das Massas Revolucionárias. Portanto, para o Vietnã do Norte vencer a guerra, foi necessário o incentivo em larga escala da cidadania e da participação da sociedade civil nos mais diversos campos que tangem o Estado.

Os vietnamitas se articularam enquanto partes integrantes de um todo, foram fomentadas causas tangíveis como libertação nacional, recuperação das terras e desenvolvimento de uma sociedade justa. Quando a guerra estourou, o povo tinha compromisso e senso de responsabilidade em relação à sociedade a qual fazia parte, incluindo a parte que se refere aos esforços de guerra.

Como leitor de Engels (autor de grandes estudos sobre o militarismo), Vo Giap tinha certeza de que o Estado-Maior e a Defesa da nação deveriam priorizar a formação de um vasto conhecimento prático sobre a realidade concreta do país (população, território, geografia, diplomacia, economia, etc., mas também cultura, religião, moral, ética, história e outros campos da sociabilidade), associada a uma boa formação específica no campo das Armas e da Lógica por parte dos oficiais, e que seria aplicada na prática a partir do método materialista e dialético (marca do pensamento marxista) sobreposto à teoria de Clausewitz, o que significa abolir idealismos e realizar logísticas a partir das condições reais existentes do Vietnã .

Isso proporcionou um comando militar extremamente eficiente, criando essa primeira camada do cenário bélico nacional moderno (o Exército, essencial nessa cadeia que incluirá sociedade civil e Estado) tendo como principal característica a excelência.

Ilustração mostrando os túneis do Vietnã / Crédito: Eber Evangelista e Luiz Iria/Acervo Aventuras na História

 

Por isso, quando a França e os EUA entraram em guerra aberta contra o Vietnã , eles acabaram em um confronto não apenas contra o exército, mas contra um corpo conjunto e extremamente articulado de vietnamitas de mãos dadas numa unificação popular pela causa da liberdade nacional.

Não havia, por exemplo, espaço para guerras híbridas e comprometimento de parcelas demográficas ou produtivas, pois a fidelidade e a irmandade entre os indivíduos já eram bastante consolidadas (e desenvolvidas já antes das vitórias do Viet Minh e dos comunistas, uma vez que o povo estava em guerra contra a ocupação japonesa já no início do século e o projeto marxista já era bastante coeso política e ideologicamente entre as massas). Armadilhas comuns na selva vietnamita

Isso foi demonstrado nas articulações massivas de camponeses e militares nas operações secretas realizadas e que desmontaram uma série de atividades inimigas, como destruição de bases, realocação de núcleos vietnamitas e criação de fábricas secretas no interior da selva.

A sociedade civil participava ativamente de operações desgastantes como desmontar bases ou complexos fabris inteiros e levá-los à mão ou lombo de mula para dentro da floresta tropical para serem reerguidas, confundindo a inteligência inimiga e salvando a produção do país para o sustento dos esforços de guerra. Isso enquanto os EUA praticavam atividades genocidas de bombardeamento em áreas civis e extermínio daquela população do Terceiro Mundo.

Eram criados no interior de vilarejos (não à força, mas por colaboração do povo) acampamentos secretos ou nômades para a realização de ataques surpresa e destruição de bases estrangeiras. Também eram criadas, a partir do conhecimento local da geografia, as famosas armadilhas que geraram alto número de baixas entre os estadunidenses (que não conheciam a região).

Ao mesmo tempo, se o exército invasor invadisse uma cidadela, sua população entrava em guerra como se fosse exército, pois se via como parte integrante de algo maior: a Nação (não apenas como ideologia, mas como projeto político compromissado; para mais detalhes, buscar por "Guerra do Povo, Exército do Povo", de Vo Nguyen Giap).

A preparação e a competência do povo vietnamita foi responsável por uma vitória sofrida sobre a invasão dos EUA, ao contrário do discurso oficial do país, que afirma ter deixado a Indochina por desinteresse geopolítico, a despeito de uma suposta vitória em termos militares.

Por mais que houvesse um conflito interno na sociedade estadunidense e a demanda pela saída do país do conflito, nunca foi do interesse do império a retirada de tropas deste evento.

A derrota exaustiva de Washington foi militar, e não impediu o seu governo de continuar atuando de formas diferentes no conflito, em apoio ao governo aliado de Saigon, comandado por Nguyen Van Thieu, seja com dinheiro, com contatos de armas ou com embargos ao governo do Norte.

O exército dos EUA é grande e rico, mas não foi suficiente na tentativa de derrubada do Vietnam construído por Ho Chi Minh, o que foi provado na expulsão das forças norte-americanas em Hue pela ofensiva liderada por Van Thai e Giap, uma batalha sangrenta e de largas dimensões.

Já contra os franceses (primeiro colonizador do espaço, que foi dividido entre potências no XIX), os esforços da cúpula do governo vietnamita, e principalmente de Giap no que tange militar, já tinham demonstrado resultado em Dien Bien Phu, quando a articulação do Exército com a sociedade levou à derrota dos europeus com a saída destes da Indochina e aumento do moral das forças socialistas. Hue, onde ocorreu a Ofensiva Tet.

Registro da ofensiva do Tet /Crédito: Wikimedia Commons

 

Mesmo com o sucesso da Ofensiva Tet e a realização dos Acordos de Paris estabelecendo a saída dos estadunidenses do Sudeste Asiático, com o suporte ativo dos governos Nixon e Ford ao Vietnã do Sul, com armamento pesado, inclusive, qualquer armistício para o conflito e divisão em dois países como se resolveu (mais ou menos…) a questão da Coreia era impossível.

Aos poucos, todo um pedaço daquele país, que era de matriz liberal-capitalista, tornou-se parte um só Vietnã, e as disputas com núcleos de vietnamitas reacionários de Van Thieu em resistência à vitória comunista se mantiveram até a desastrosa e apocalíptica fuga de Saigon.

A unificação do Vietnã, porém, não encerrou a guerra na Indochina, uma vez que as disputas envolvendo os interesses chineses na região e o conflito no Laos e no Camboja se acentuaram nos anos seguintes.


André Nogueira é historiador, formado pela USP (Universidade de São Paulo). 


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