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Antes da crucificação, Jesus foi vítima de abuso sexual, aponta estudioso

Embora polêmico, ponto de vista já é alvo de debates por outros teólogos

Fabio Previdelli Publicado em 11/04/2022, às 11h12

Retrato da crucificação de Cristo
Retrato da crucificação de Cristo - Getty Images

"Então Pilatos, querendo satisfazer a multidão, soltou-lhe Barrabás e, açoitado Jesus, o entregou para ser crucificado. E os soldados o levaram dentro à sala, que é a da audiência, e convocaram toda a corte. E vestiram-no de púrpura, e tecendo uma coroa de espinhos, lha puseram na cabeça. E começaram a saudá-lo, dizendo: Salve, Rei dos Judeus! E feriram-no na cabeça com uma cana, e cuspiram nele e, postos de joelhos, o adoraram. E, havendo-o escarnecido, despiram-lhe a púrpura, e o vestiram com as suas próprias vestes; e o levaram para fora a fim de o crucificarem".

A citação acima, que fala sobre a crucificação de Cristo, retirada da passagem Marcos 15:15-20, pode ser analisada de diversos pontos de vista, mas nenhum deles é tão polêmico e único quanto o do teólogo inglês David Tombs

Adepto da máxima “não preste atenção somente às perguntas que são feitas, mas olhe também para as perguntas que ninguém está fazendo”, Tombs passou a focar em duas questões sobre o episódio: Por que Jesus é despido? E qual a importância disso?

Em sua visão, esse fator significa que Cristo foi vítima de abuso sexual. Seu pensamento foi compartilhado a primeira vez em 1999, quando publicou o artigo "Crucificação, terrorismo de Estado e abuso sexual".

Já no ano passado, ao lado das professoras Jayme Reaves e Rocío Figueroa, publicou um compêndio de artigos teológicos: "When Did We See You Naked?" (ou “Quando foi que te vimos nu?”, em tradução livre).

Em breve, David publicará um livro onde reunirá todos os seus pensamentos a respeito do tema, que cada vez mais é debatido por outros teólogos. Mas o que o leva a crer nisso?

"São dois aspectos: o primeiro é o que o texto realmente fala. Vejo a nudez forçada de Cristo como uma forma de violência sexual, o que justifica chamá-lo de vítima de abuso sexual”, disse ele em entrevista à Folha de S. Paulo. 

Embora muitas pessoas tenham dificuldade de chamar a nudez forçada de violência sexual, tendo a crer que elas estão sendo desnecessariamente resistentes ao que o texto afirma", continua. 

Há também outro aspecto envolvido nesta questão, este mais indireto: o que aconteceu após Jesus Cristo se despir?

"Não sabemos ao certo, mas podemos levantar uma questão que não é meramente especulativa nem leviana, porque temos evidências de maus-tratos a prisioneiros da era romana e também perspectivas trazidas pelo contexto de outras torturas modernas, na documentação das ditaduras em El Salvador, Brasil, Argentina, Chile, Sri Lanka e Abu Ghraib, por exemplo”, explicou. 

Esses questionamentos vieram à tona na vida de Tombs nas décadas de 1980 e 90, quando ele estudou a experiência latino-americana da tortura de Estado, enquanto fazia doutorado em Londres, onde estudava Teologia da Libertação em Oxford. 

O ponto de partida foi ao ler os relatos de Brenda Sánchez, uma refugiada salvadorenha que entrou ilegalmente nos Estados Unidos. Em 1983, uma colega de Brenda foi espancada e estuprada por agentes da ditadura em um centro médico em San Salvador, capital de El Salvador. Pouco depois, a vítima foi morta a tiros de metralhadora, em um cenário que apresentava uma forte conotação sexual.

 Fiquei chocado pelo fato de que tinha estudado aquilo e nunca tinha focado o tema da sexualidade. Comecei a tentar entender mais por que os soldados fazem isso com as pessoas. Li relatórios de tortura, de direitos humanos e de comissões da verdade e ficou absurdamente nítido para mim como o abuso sexual é comum na tortura, ainda que não seja a primeira coisa em que as pessoas pensam quando se fala de tortura”, completou.