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A Guerra das Duas Rosas e o incesto: Inspiração para Game of Thrones?

O que as relações contidas na série podem nos ensinar sobre História

Victor Alexandre Publicado em 06/03/2022, às 06h00

Cena de 'Game of Thornes'
Cena de 'Game of Thornes' - Divulgação/HBO

Game of Thrones provavelmente seja a maior produção televisiva de todos os tempos, mas você sabia que ela é baseada em uma guerra real? Além disso, muitos dos conflitos existentes dentro da trama tentam emular algumas situações que aconteceram na história, como a relação sexual entre irmãos e outros membros da mesma família.

GOT, como é conhecida, é uma série que teve um orçamento fabuloso para produzir uma série diferenciada. Em um primeiro momento, antes da série ganhar as massas, as pessoas eram atraídas pela trama política que estava se desenrolando e pelas constantes cenas de sexo contidas na série.

Divulgação/HBO

Mas para além de uma erotização visando ganho de audiência, o que as relações contidas na série podem nos ensinar sobre História? Como algumas características da Guerra das Duas Rosas influenciaram a série mais vista nos últimos anos?

Incesto através da História

Desde o desenvolvimento das primeiras teorias a respeito do espalhamento dos seres humanos pelo mundo já se pensa a questão da relação sexual entre membros da mesma família ou de um mesmo grupo social.

Uma das primeiras classificações dadas a esse tipo de comportamento cultural é a Endogamia, que significa que os casamentos e as relações sexuais podem ser feitos apenas entre membros de um mesmo grupo social. A Endogamia é incentivada para manter os traços de identidade desse grupo e evitar que novos costumes culturais sejam adotados.

Mas é importante falar que não necessariamente a Endogamia resulta em relacionamento com familiares!

Uma das primeiras civilizações a praticar a Endogamia foi o Egito Antigo, que permitia socialmente esse tipo de relação para evitar que a monarquia se envolvesse com negociações políticas envolvendo o casamento com outros povos e assim garantiriam uma certa “pureza” de sangue.

Esse tipo de relação era comum até em personalidades do Egito Antigo bem conhecidos por nós, como bem lembra o historiador Filipe Figueiredo: “Cleópatra era casada com seu irmão e ambos eram filhos de um casamento entre irmãos.”

O mais curioso disso é que esse tipo de relação entre familiares aconteceu em diferentes épocas e regiões do mundo, mostrando que não foi algo aprendido com um grupo específico e essa prática simplesmente se espalhou. De certa forma é natural ao ser humano, se é que podemos chamar assim.

Então não, Cercei e Jaime Lannister não fizeram algo que nunca tinha sido feito antes. A diferença é que em relações Endogâmicas, o casamento é oficializado, já na série eles se encontram às escondidas.

A Guerra das Duas Rosas e a Exogamia

Se por um lado as relações incestuosas na série Game of Thrones não representam algo novo na história da humanidade, a série mostra as implicações de algo que é bem conhecido por todos: a Exogamia.

Ok, talvez você nunca tenha ouvido falar desse termo, mas provavelmente já viu as implicações dele na prática.

Exogamia é a prática de casamentos serem realizados com grupos sociais diferentes e geralmente são usados para fortalecer laços de amizade, diplomacia e firmar acordos políticos.

Quando vemos alguma série, filme ou livro que mostra um casamento arranjado apenas para que através dessa união uma aliança política seja firmada, estamos falando de uma relação Exogâmica.

Durante a Idade Média vemos que diversas relações incestuosas endogâmicas e exogâmicas foram praticadas para manterem linhagens dinásticas ou para realizarem acordos políticos.

Por outro lado, quando a política ou a diplomacia falhavam, casamentos entre diferentes (Exogamia) eram usados para cessar guerras e proclamar a paz. Um exemplo disso é o casamento de Napoleão Bonaparte com Maria Luísa de Habsburgo, a fim de encerrarem uma guerra entre França e Áustria.

Representação contemporânea do combate na Guerra das Rosas/ Crédito: Domínio Público

A Guerra das Duas Rosas foi um longo conflito travado entre duas famílias: York e Lancaster. E como bem mostra o texto da escritora Maria Anita Carneiro Ribeiro: “é certo que em 1484 Ricardo (York) foi tomado por uma paixão incestuosa por sua sobrinha Elisabeth de York, que então contava 18 anos.”, deixando claro que R.R. Martin não precisou criar todas as suas tramas da própria imaginação. Muita coisa já estava disponível na própria história!

Mesmo que a história e ficção tenham algumas diferenças e semelhanças, a história é feita por pessoas que fizeram escolhas ao longo de suas vidas que trouxeram consequências devastadoras para seus respectivos reinos.

Se quiser ouvir mais sobre isso e conhecer o que foi a Guerra das Duas Rosas, escuta o podcast feito pelo professor Vitor Soares...