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Médicos intensivistas podem ser vítimas em potencial da Síndrome de Burnout

Profissionais que atuam na linha de frente estão sendo submetidos a uma carga emocional intensa

Coluna - Fabiano de Abreu, neurocientista Publicado em 25/04/2021, às 09h00

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Imagem meramente ilustrativa - Imagem de A life without animals is not worth living por Pixabay

Enquanto o Brasil sofre com cada vez mais mortes por Covid-19, os médicos que atuam na linha de frente tratando estes pacientes estão sendo submetidos a uma carga emocional tão intensa que podem estar colocando suas próprias vidas em risco.

Não, não falo no sentido da contaminação pela doença, mas sim dos devastadores efeitos da Síndrome de Burnout. Se há leitos faltando para atender tamanha demanda de infectados pelo novo coronavírus, por outro lado, existem cada vez mais médicos sofrendo de exaustão física e emocional.

Um levantamento sobre este tema foi feito pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB), realizado com o suporte da Federação Mundial de Cuidados Críticos e Intensivos e em conjunto com outras sociedades.

A pesquisa foi realizada em dois momentos, por meio de 41 perguntas, distribuídas pelo cadastro e mídias sociais da associação: 991 pessoas participaram na fase 1, em junho de 2020, e 1.345 na fase 2, em março de 2021.

Imagem meramente ilustrativa de uma máscara /Crédito: Imagem de Alexandra_Koch por Pixabay

 

Com esses dados é possível analisar as percepções e preocupações entre os profissionais de saúde brasileiros que cuidam de pacientes com Covid-19 em estado grave, explica a AMIB.

Os resultados são preocupantes: No pico da Covid-19 no ano passado, 85% dos participantes da pesquisa já apontavam exaustão física e emocional. Este ano, 90% deles relatam ver colegas cansados. A AMB informa que chama a atenção o fato de que a taxa já era alta em 2020 em todas as regiões do país. Agora, cresceu ainda mais, o que é preocupante.

Aqueles profissionais que estão lutando arduamente para salvar vidas sofrem com as condições adversas, número enorme de pacientes, distância da família. Antes, a título de curiosidade, um médico em uma UTI, por exemplo, não podia cuidar de mais de 10 pacientes, hoje cuida de 15, 20, 25.

Para piorar, quem atende nessa linha da frente são os denominados “intensivistas”. E tal categoria conta com um número reduzido de profissionais. Por isso, aqueles que estão à disposição enfrentam longas jornadas de trabalho, sem ter direito a um descanso merecido para recuperar suas forças. 

O resultado disso é, como citei acima, uma explosão de casos da Síndrome de Burnout. Para quem não sabe, ela se define pelo seguinte: através das observações clínicas de Freudenberger, psicólogo alemão do início do século 20, chegou-se a sua descoberta, que vem da expressão em inglês “burn out” (ser consumido, queimado), que era usada para expressar uma exaustão emocional gradual, um cinismo e a ausência de comprometimento.

Imagem meramente ilustrativa /Crédito: Imagem de fernando zhiminaicela por Pixabay

 

Ou seja, ela se aplica perfeitamente para estes profissionais que estão cada vez mais chegando aos seus limites. E isso certamente vai trazer um grande prejuízo nos seus desempenhos físicos ou mentais.

Para piorar, esta síndrome pode vir acompanhada de alguns outros transtornos psiquiátricos, como a depressão. Os efeitos da burnout podem prejudicar o profissional em três níveis, o individual (físico, mental, profissional e social), profissional (atendimento negligente e lento ao cliente, contato impessoal com colegas de trabalho e/ou pacientes/clientes) e organizacional, gerando conflito com os membros da equipe, rotatividade, levando ao absenteísmo.

Para o diagnóstico, existem quatro concepções teóricas baseadas na possível etiologia da síndrome: clínica, sociopsicológica, organizacional, sócio-histórica. Os sintomas são exaustão emocional (EE), distanciamento afetivo (despersonalização – DE), baixa realização profissional (RP) e depressão.

A exaustão emocional abrange sentimentos de desesperança, solidão, depressão, raiva, impaciência, irritabilidade, tensão, diminuição de empatia; sensação de baixa energia, fraqueza, preocupação; aumento da suscetibilidade para doenças, cefaléias, náuseas, tensão muscular, dor lombar ou cervical, distúrbios do sono.

O distanciamento afetivo provoca a sensação de alienação em relação aos outros, sendo a presença destes muitas vezes desagradável e não desejada. Já a baixa realização profissional ou baixa satisfação com o trabalho pode ser descrita como uma sensação de que muito pouco tem sido alcançado e o que é realizado não tem valor. Ou seja, um quadro perfeito que retrata a triste realidade enfrentada pelos médicos intensivistas.

Mas, para reverter esse quadro, trago alguns conselhos dentro do cognitivo e da minha experiência como filósofo que estuda resiliência e humanas. Por outro lado, todas as doenças e transtornos devem ser consultados por um profissional da área da saúde.

1. Faça o que realmente gosta

Caso não possa trabalhar somente com o que gosta, então busque o que tem de bom na sua profissão e aprenda a gostar do que faz, a ver o lado positivo acima do negativo.


2. Mude a rotina

Se a rotina te afeta, então mude-a de vez em quando. Nem que seja algo simples como mudar a mesa de posição ou ver a vida em novos ângulos para ter uma visão diferente da rotina.


3. Aproveite a folga

Aproveite todos os momentos de folga para pensar em algo totalmente diferente. Principalmente coisas que te agradem.


4. Crie metas de lazer

Trabalhe duro sabendo que naquela determinada data vai tirar seu dia de folga ou aquelas férias no lugar que gosta ou com pessoas que te fazem sentir bem.


5. Organização

Anote tudo em uma agenda para que não fique perdido e tenha facilidade de organizar seus afazeres.


6. Não seja radical

Organize seus horários e, mesmo que não consiga cumprir tudo à risca, pense que isso não é motivo para alarde. Não seja tão radical consigo mesmo.


7. Dever cumprido

Não protele o que tem que fazer agora. Faça logo e bem feito, pois quando acabar, poderá gozar do alívio do dever cumprido.


8. Coisas que agradam

Se prenda de vez em quando as coisas que te agradam, eu, por exemplo, paro e fico olhando a natureza, mesmo que a natureza seja apenas uma árvore no caminho. Ou então um animalzinho de estimação.


9. O controle

Esse é o mais importante. O controle. Tenha equilíbrio, medite, faça um autorreconhecimento e saiba aonde se encontra o seu limite e busque maneiras para manter esse equilíbrio, e não deixar que o excesso de funções te deixe doente. Não se esqueça que temos apenas uma vida, então viva-a da melhor maneira possível.


Sobre o autor

Fabiano de Abreu Rodrigues é um jornalista com Mestrado e Doutorado em Ciências da Saúde nas áreas de Neurociências e Psicologia pela universidade EBWU nos Estados Unidos e na Université Libre des Sciences de l'Homme de Paris. Ainda na área da neurociência, pós-graduação na Universidade Faveni do Brasil em neurociência da aprendizagem cognitiva e neurolinguística e Especialização em propriedade elétricas dos neurônios e regiões cerebrais na Universidade de Harvard nos Estados Unidos. Pós-Graduação em Neuropsicologia pela Cognos de Portugal, Mestre em Psicanálise pelo Instituto e Faculdade Gaio, membro da Unesco e Neuropsicanalista pela Sociedade Brasileira de Psicanálise Clínica. Especialização em Nutrição Clínica e Riscos Psicossociais pela TrainingHouse de Portugal e Filosofia na Universidade de Madrid e Carlos III na Espanha. 

Integrante da SPN - Sociedade Portuguesa de Neurociências – 814, da SBNEC - Sociedade Brasileira de Neurociências e Comportamento – 6028488 e da FENS - Federation of European Neuroscience Societies - PT30079 e membro da Mensa, sociedade de pessoas de alto QI com sede na Inglaterra.


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