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62 anos depois: A pesquisa inovadora que pode ter resolvido o mistério de Dyatlov Pass

No mês passado, pela primeira vez, especialistas apresentaram argumentos científicos para uma hipótese já conhecida sobre o que pode ter matado os nove estudantes soviéticos de maneira brutal

Isabela Barreiros, sob supervisão de Alana Sousa Publicado em 16/02/2021, às 16h45

O acampamento destruído, abandonado pelo grupo de esquiadores
O acampamento destruído, abandonado pelo grupo de esquiadores - Wikimedia Commons

Uma tragédia que se estabeleceu como um dos maiores mistérios da Rússia aconteceu em 2 de fevereiro de 1959. Naquele dia, nove estudantes soviéticos — sete homens e duas mulheres — morreram de maneira inexplicável perto de seu acampamento na face leste da montanha Kholat Syakhl, ao norte dos montes Urais, a mais de 1.300 km de Moscou. 

O local parecia abandonado: barracas rasgadas de dentro para fora, mas roupas ainda estavam em seu devido lugar. Os corpos foram encontrados espalhados. Seguindo algumas pegadas, as autoridades descobriram os primeiros dois cadáveres, que estavam descalços e usando apenas roupas de baixo.

Pouco mais à frente, estavam mais três corpos. A imagem que passavam era de pessoas que estavam tentando voltar para seu acampamento. O restante das vítimas demorou a ser encontrado — apenas dois meses depois, sob quatro metros de neve, foram identificados mais quatro cadáveres.

A cena era assustadora e pior: um mistério. Os corpos mostraram, mais tarde, que estavam com indícios de brutal e inexplicável violência. Até hoje, algumas hipóteses foram desenvolvidas para explicar o acontecimento misterioso, indo de aliens até canibalismo de povos indígenas que viviam na região.

Mistério resolvido?

Parte do grupo liderado por Dyatlov / Crédito: Wikimedia Commons

 

62 anos depois, um estudo publicado na revista científica Nature Communications Earth & Environment em janeiro apresentou argumentos científicos para explicar o que pode ter causado a tragédia. É o que afirma o autor do estudo, Johan Gaume, chefe do Laboratório de Simulação de Neve e Avalanche do Instituto Federal Suíço de Tecnologia em Lausanne: 

"Não afirmamos ter resolvido o mistério do Passo de Dyatlov, já que ninguém sobreviveu para contar a história. Mas mostramos a plausibilidade da hipótese da avalanche [pela primeira vez]”, explicou.

Os pesquisadores analisaram a hipótese de uma pequena avalanche ter atingido os estudantes enquanto eles dormiam, o que os obrigou a fugir de maneira abrupta. Não foi a primeira vez que tal teoria foi proposta, mas os cientistas foram os responsáveis por apresentar argumentos científicos de fato. 

Ao longo dos anos, alguns contra-argumentos foram apresentados para invalidar essa tese. Todos eles foram visitados pelos cientistas, a fim de demonstrar a razoabilidade da teoria. Primeiro, o fato de os socorristas não terem encontrado traços físicos de que uma avalanche aconteceu no local.

Para resolver esse ponto, os cientistas avaliaram que o ângulo da inclinação próximo do acampamento era mais íngreme do que se acreditava com base em relatórios anteriores. Portanto, é possível que quedas de neve que aconteceram nas semanas seguintes ao episódio tenham diminuído o ângulo, o que pode ter apagado os rastros da avalanche.

Um dos corpos encontrados em Kholat Syakhl / Crédito: Reprodução

 

O segundo ponto também estava relacionado ao ângulo. Segundo os autores do estudo, o fato de o ângulo ser raso não impede que avalanches possam acontecer: algumas já foram observadas em encostas com ângulos de até 15 graus.

Em seguida, eles analisaram a questão de os estudantes terem levado um tempo considerável construindo o seu acampamento, o que envolvia cortar a encosta para formar um bloqueio contra o vento. Alexander Puzrin, co-autor do estudo e membro do Instituto de Engenharia Geotécnica em Zurique, Suíça, explicou:

“Era como alguém chegando e retirando a neve de um lugar e colocando-a na encosta acima da tenda. Se eles não tivessem feito um corte na encosta, nada teria acontecido. [Mas] em um determinado ponto, uma rachadura poderia ter se formado e propagado, fazendo com que a camada de neve se soltasse.”

O último ponto analisado foi o mais polêmico entre os contra-argumentos: as lesões traumáticas aparentemente inexplicáveis. Para investigar esse tópico, os especialistas usaram um método muito particular. Eles associaram uma ferramenta de simulação usada pela animação da Disney Frozen a dados de uma pesquisa realizada pela General Motors na década de 1970.

A partir da análise da representação da neve no filme e dos impactos observados no corpo humano ao ser atingido em velocidades distintas, eles propuseram a tese de que a neve pode ter caído nos estudantes. Isso teria causado lesões diferentes do que geralmente acontece com vítimas de avalanches. Seus ossos teriam sido quebrados enquanto eles dormiam.

Túmulo dos mochileiros no cemitério de Mikhajlov, em Ecaterimburgo / Crédito: Wikimedia Commons

 

Eles escreveram: "Simulações dinâmicas de avalanche sugerem que mesmo uma placa relativamente pequena [de neve] poderia ter causado lesões graves, mas não letais, no tórax e no crânio, conforme relatado pelo exame post-mortem".

Ainda que muitos tivessem sido atingidos, os que estavam em melhor situação podem ter tentado tirá-los de dentro das cabanas. “Quando [os caminhantes] decidiram ir para a floresta, eles cuidaram de seus amigos feridos — ninguém foi deixado para trás. Acho que é uma grande história de coragem e amizade diante de uma força brutal da natureza”, disse Gaume.

A pesquisa não explica todas as dúvidas sobre o que aconteceu — não há explicação para o fato de eles terem sido encontrados sem roupas, por exemplo. Ainda assim, o estudo é uma demonstração científica do episódio, não levando em conta hipóteses com alienígenas ou mais imaginativas.


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