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Anna Sorokin: a falsa heradeira que deu golpe em celebridades, chefões e empresários

Sorokin enganou a alta sociedade de Nova York com uma identidade falsa, mergulhando no luxo às custas dos outros. No entanto, as mentiras saíram caro — literalmente

Vanessa Centamori Publicado em 02/08/2020, às 09h00

Anna Sorokin em tribunal
Anna Sorokin em tribunal - Divulgação/Programa Domingo Espetacular

Segundo a revista New York, no dia 18 de fevereiro de 2017, na cidade de Nova York, uma nota graúda de 100 dólares deslizou pela superfície lisa do balcão do concierge Neffatari Davis, em um hotel em Soho.

O funcionário de 25 anos ficou surpreso ao ver a dona da nota: uma moça da mesma idade que ele, com "rosto em forma de coração e lábios carnudos cercados por um emaranhado selvagem de cabelos ruivos". 

Com um sotaque que parecia europeu, a garota emperiquitada disse que buscava pela "melhor comida de Soho"."Qual o seu nome?", Neffatari questionou. "Anna Delvey", respondeu a jovem.

Ela ficaria no hotel por um mês — assim como faziam por lá muitas celebridades. Ao checar no sistema, o concierge confirmou que o pacote dela era o Howard Deluxe, uma das opções médias, mas que ainda assim saía por salgados 400 dólares a noite.

O funcionário obedeceu as ordens, servindo todos os luxos solicitados. "Obrigado", agradeceu Delvey. "Até a próxima." Era apenas uma das muitas voltas da jovem ao hotel. A garota amava se hospedar com a enorme grana — que ela não tinha. 

Postagem de Anna Sorokin no Instagram usando a sua identidade falsa para desfrutar de um jantar caro / Crédito: Divulgação/Instagram 

 

Cheques de latão

Mal sabia o empregado do local que tratava-se de uma impostora. O nome verdadeiro dela era Anna Sorokin, uma russa. E o dinheiro? não existia. A garota não era herdeira nenhuma, mas sim, uma falsária habilidosa. Lesou não só o setor hoteleiro, mas também empresas, bancos — e até amigos — em uma série de golpes entre novembro de 2016 e agosto de 2017.

A história inventada era a seguinte: Anna Delvey, sua identidade falsa, era uma "herdeira alemã" de uma fortuna de 60 milhões de euros (cerca de R$ 261 milhões). Ela dizia ter nascido em uma cidade alemã perto de Colônia e assumiria em breve um fundo fiduciário (inexistente) para abrir um espaço cultural na cidade. 

Com muita lábia, foi fácil ludibriar com essa narrativa a sociedade nova-iorquina. A desenvoltura levou Sorokin ao mundo da moda e das artes plásticas. A garota dizia até que planejava criar um clube de artes chamado de "Fundação Anna Delvey". 

Como funcionava a extorsão 

Anna Sorokin fazia muitos empréstimos. Justificava a necessidade em dificuldades burocráticas para movimentar sua fortuna da Europa para os Estados Unidos. Ela chegou até a usar extratos e documentos bancários falsos para pegar emprestado US$ 22 milhões (cerca de R$ 85 milhões). Dizia que queria abrir o clube de artes em Manhattan.

Deu errado, mas só em partes. O valor foi negado, entretanto, ela obteve um adiantamento de US$ 100 mil (cerca de R$ 387 mil). Além disso, tinha várias contas em bancos diferentes e movimentava dinheiro com cheques sem fundo. As retiradas eram feitas por ela antes que o cheque fosse devolvido. 

Com isso, a jovem viajou de graça até outros países e viveu meses em hotéis sem pagar  um centavo que fosse. Certa vez alugou um jatinho e viajou para a cidade de Omaha, Nebraska, e foi até a conferência anual do grupo Berkshire Hathaway. Encontrou o presidente da empresa, Warren Buffet, e ficou uma semana em um hotel de luxo, comendo com famosos, tais como o ator Macaulay Culkin.

Além de enganar celebridades, chefões e empresários, Sorokin também dava golpes nos próprios amigos. Uma das vítimas foi a jornalista Rachel Williams, convidada pela salafrária para viajar até o Marrocos com todas as despesas pagas. O cartão de débito da golpista, claro, foi recusado. Então, ela pediu a colega que usasse o próprio cartão, prometendo um reembolso que jamais ocorreria. 

Só nesse esquema, o prejuízo foi de 62 mil dólares (cerca de R$ 240 mil). A viagem teve hospedagem em uma vila de luxo com direito a piscina privada e mordomo. Williams, por sorte, conseguiu recuperar a voluptuosa quantia por outros meios, mas antes da condenação da falsa amiga o caso rendeu muita dor de cabeça. 

Anna Sorokin durante tribunal / Crédito: Divulgação/Programa Domingo Espetacular

 

"O stress me tirava o sono e enchia os meus dias. Meus colegas de trabalho me viam perder o controle. Eu aparecia na redação pálida e acabada", escreveu Williams, para a revista onde trabalhava, a Vanity Fair.

 

Julgamento e prisão 

O período de julgamento de Anna Sorokin foi de quase um mês, durante os quais usou roupas de grifes como Yves Saint Laurent e Miu Miu. Ironicamente, duas vezes tomou bronca da juíza ao se atrasar. A criminosa justificava o atraso por não gostar das roupas que recebeu para vestir.

O advogado de defesa, Todd Spodek, tentou argumentar que a réu estava ganhando tempo para finalmente montar um negócio bem-sucedido e pagar suas dívidas. Porém, não colou. O rosto sorridente dela no tribunal caiu por vez em lágrimas. Sorokin sempre se declarou inocente.

O procurador de Manhattan, Cyrus Vance, anunciou a condenação da falsária em 26 de abril de 2019. Em comunicado, ele afirmou que foi comprovado no julgamento que "Anna Sorokin cometeu verdadeiros crimes de colarinho branco durante sua longa farsa".

Já presa em um complexo penitenciário na ilha de Rikers, a sentença saiu no dia 9 de maio, quando Sorokin ganhou um mínimo de quatro e máximo de 12 anos de prisão, dependendo do comportamento. Ela também recebeu multa de 24 mil dólares (o equivalente a R$ 94 mil) e mais uma restituição para pagar no valor de 199 mil dólares (R$ 785 mil). Ou seja: dívidas para toda a vida. 

Todavia, em resposta às suas fraudes, a golpista pediu por perdão. "Peço desculpas pelos erros que cometi", afirmou Sorokin, pouco antes de saber a pena. Por outro lado, ela admitiu a facilidade de enganar os outros à Revista New York. "Resiliência é difícil de encontrar. Mas não dinheiro", disse a falsa herdeira. 


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