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Grécia antiga: A era do vinho

A proposta do inglês que fala em dividir a História conforme a bebida preferida de cada época

Redação Publicado em 23/05/2019, às 05h00 - Atualizado às 10h00

Dionísio, deus grego dos vinhos
Reprodução

Idade da Pedra, Idade do Bronze, Idade do Ferro. Essa divisão de períodos históricos foi criada por arqueólogos. Eles se basearam no impacto do uso de cada um desses materiais na vida dos seres humanos ao longo dos tempos. Mas uma outra divisão, um pouco mais fluida, também é possível — e muito mais saborosa.

Por exemplo: há aproximadamente 5.500 anos, quando o Oriente Médio ainda estava entrando na Idade do Bronze, as populações daquela região estavam em plena era da... cerveja.

Dividir a história do mundo em períodos dominados por determinadas bebidas: é isso o que propõe o jornalista inglês Tom Standage, editor da respeitada revista britânica The Economist. No livro História do Mundo em Seis Copos, ele mostra como a cerveja foi decisiva para o desenvolvimento da agricultura e da escrita.

Reprodução de relevo sumério sobre consumo de cerveja / Crédito: Reprodução

 

Alguns milênios depois, o vinho esteve intimamente ligado ao desenvolvimento da filosofia grega.

“As bebidas tiveram uma conexão com o fluxo da história bem maior do que geralmente se reconhece”, afirma Standage no livro. “Elas sobrevivem em nossas casas como lembranças vivas de eras passadas, testamentos líquidos das forças que moldaram o mundo moderno.”

De onde vinho?

Essa bebida tão apreciada até hoje teria surgido entre 9000 e 4000 a.C. na região de Zagros (atuais Armênia e Irã). Os antigos faziam suco de uva amassando os grãos. Depois guardavam o líquido em recipientes de cerâmica. Em pouco tempo, o suco fermentava e se transformava em vinho.

Mural grego em que se consome vinho / Crédito: Reprodução

 

A filosofia, a política, a ciência e a poesia da Grécia antiga, que até hoje servem de base para o pensamento ocidental, provavelmente não teriam ido tão longe sem o vinho. Era ele que ditava o ritmo nos simpósios, festas em que os participantes partilhavam uma grande taça de vinho diluído. Durante os debates acalorados, os bebedores tentavam superar um ao outro em inteligência. O filósofo grego Platão dizia que o vinho era uma ótima maneira de testar o caráter de um homem, submetendo-o às paixões despertadas pela bebida – como a raiva, o amor e a ambição.

O vinho tornou-se um dos principais produtos de exportação da Grécia antiga. Quando a expansão da cultura grega chegou à Sicília e à ponta da bota da Itália, essas regiões foram chamadas, na época, de Oenotri, a terra dos vinhos.

Ânforas gregas para vinho / Crédito: Reprodução

 

Raspadinha

No verão, para refrescar, o vinho era misturado à neve guardada do inverno. Para que ela não derretesse, era empacotada com palha e mantida em buracos no solo.

Os gregos e os romanos tomavam vinho misturado com água. Beber vinho puro era considerado primitivo. O hábito foi trazido ao Brasil por imigrantes italianos nas primeiras décadas do século passado, mas o suco de vinho não pegou por aqui.

Outra curiosidade: um jogo grego chamado kottabos consistia em arremessar os últimos goles de vinho de uma taça em direção a um alvo — que podia ser ou uma taça boiando numa tigela de água ou uma pessoa.

Gravura em vaso ilustrando o kottabos / Crédito: Reprodução

 

Porre homérico

Na Ilíada, Homero descreve com lirismo a colheita de uvas durante o outono. O escritor fala também sobre o vinho do sacerdote Maro: um vinho tinto com a doçura do mel e tão forte que era diluído em água na proporção de 1:20.

No livro, quando foi aprisionado na costa da Sicília pelo ciclope Polifemus, o herói Odisseu ofereceu-lhe o vinho de Maro como digestivo. Como o ciclope estava acostumado com o fraco vinho da Sicília, depois de provar o poderoso Maro caiu em sono profundo, o que deu a Odisseu a chance de arrancar o olho do monstro.