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Guerra de Nagorno-Karabakh: a ofensiva que resultou na morte de centenas de civis azeris

Em entrevista ao site Aventuras na História, o historiador Heitor Loureiro, explicou o contexto histórico e geopolítico envolvido no triste episódio

Victória Gearini Publicado em 26/02/2020, às 09h33 - Atualizado em 04/05/2021, às 09h33

Crianças após o ataque de Khojaly
Crianças após o ataque de Khojaly - Ilgar Jafarov / Wikimedia Commons

Entre os dias 25 e 26 de fevereiro de 1992, o mundo presenciou uma das fases mais tristes da Guerra de Nagorno-Karabakh. Neste fatídico episódio, centenas de civis do povoado de Khojaly, no Azerbaijão, foram mortos ou ficaram gravemente feridos durante o confronto. 

Para compreender o contexto histórico, geopolítico e social, que englobou este trágico fato, o site Aventuras na História convidou o historiador Heitor Loureiro, do Grupo de Estudos e Pesquisa sobre o Oriente Médio. 

Contexto histórico

A Guerra de Nagorno-Karabakh foi iniciada no fim da década de 1980, durante o processo de declínio da URSS. De acordo com Heitor Loureiro, até então, Nagorno-Karabakh era uma região autônoma, sendo que a maioria armênia vivia dentro da RSS do Azerbaijão. 

“A partir de 1988, armênios em NK e na RSS da Armênia iniciaram uma campanha para a unificação da região à Armênia. Apesar da proposta ter sido aprovada pelo Soviete de NK, a decisão foi ignorada por Baku e Moscou, dando início a manifestações que eventualmente terminaram em confronto entre armênios e azeris, além da repressão das forças estatais na tentativa de manter a ordem nas repúblicas socialista soviéticas. A intervenção de Moscou inflamou a já tensa situação entre os dois povos no Cáucaso”, explicou o especialista. 

Enterro após o massacre de Khojaly / Crédito: Getty Images

 

O conflito entre Armênia e Azerbaijão possui relações históricas e socioeconômicas com a Turquia e a Rússia. Tal fato contribuiu para os conflitos que surgiram no fim da Guerra Fria. 

O ataque de Khojaly

No dia 26 de fevereiro de 1992, os armênios tomaram a cidade de Khojaly, durante as batalhas nas franjas de Stepanakert, capital de Nagorno-Karabakh. Segundo o historiador, diversos civis azeris perderam suas vidas durante a ofensiva. 

“É necessário dizer que Khojaly tinha uma posição estratégica importante, pois era onde ficava o único aeroporto de Nagorno-Karabakh, a cerca de 10 km de distância da capital Stepanakert. Segundo o Thomas de Waal, pesquisador sênior do Carnegie Europe, nos anos anteriores, a cidade havia recebido um grande número de azeris de Baku que foram assentados ali, já no contexto da guerra, tendo, em 1991, cerca de 6.300 moradores. À época da tomada de Khojaly pelos armênios, uma comissão parlamentar azeri estimou em 485 pessoas mortas durante a ofensiva, contando as vítimas que morreram de frio durante tentativa de fuga da cidade, naquela noite de inverno. Os armênios alegam que foi dada aos azeris a oportunidade de evacuarem a cidade, assim como um aviso que as tropas armênias iriam tomá-la, o que teria sido ignorado pelas autoridades locais e, por isso, o número de mortos civis teria sido tão elevado”, revelou Heitor Loureiro.

Para o pesquisador, o povo azeri utilizou o episódio para classificar o que aconteceu como genocídio, como uma forma de estratégia política.

“É notória a estratégia da diplomacia azeri em emplacar a pauta do 'genocídio de Khojaly' na imprensa de pequena e média circulação de alguns países, enquanto grandes e tradicionais veículos de imprensa sempre colocam em xeque a alegação de Baku de que o que ocorreu em Khojaly foi um genocídio”, avaliou o historiador. 

Conforme a análise do especialista, Khojaly tinha uma importância estratégica, por ser o local que abrigava o único aeroporto regional. Além disso, estava localizada a 10 km de distância da capital de NK, controlada pelos armênios. 

“O que me parece é que não há grandes chances de uma reconciliação entre os dois povos sem enfrentamento do passado sensível comum: por parte dos armênios, uma reflexão sobre Khojaly; e por parte dos azeris, reflexões sobre os massacres de armênios de Sumgait em fevereiro de 1988 e em Baku em 1990”, disse Heitor Loureiro.

Desdobramentos geopolíticos 

De acordo com o historiador, a morte de civis azeris que aconteceu em Khojaly, em 1992, por forças armênias é um fato histórico. Contudo, ele apresenta um debate mais profundo sobre o uso político desse episódio. 

“O que deve ser questionado é o uso político desse massacre em um contexto geopolítico mais amplo, para além das disputas entre armênios e azeris. A partir dos anos 1990, mas sobretudo no século 21, Baku iniciou uma campanha internacional para dizer que o que ocorreu em Khojaly na noite de 26 de fevereiro de 1992 foi um ‘genocídio’ nos parâmetros do que prevê a Convenção para a Prevenção e Punição do Crime de Genocídio das Nações Unidas. Contudo, essa categorização tem como objetivo fustigar as demandas armênias pelo reconhecimento do genocídio de armênios perpetrado pelo governo otomano, cuja atual República da Turquia (principal aliada de Baku) nega”, explicou o estudioso. 

Segundo Heitor Loureiro, as diplomacias da Turquia e Azerbaijão trabalharam em conjunto ao longo dos anos, negando a existência do Genocídio Armênio por parte do Império Otomano durante o início do século 20.

“As diplomacias de Turquia e Azerbaijão trabalharam conjuntamente nas últimas décadas para divulgar mundo afora que não teria havido Genocídio Armênio no Império Otomano durante a Primeira Guerra, quando, na realidade, os armênios é que teriam perpetrado um genocídio contra uma população etnicamente turca, em Khojaly, durante a Guerra de Karabakh. Assim, a insistência de Baku em negar o genocídio armênio e tentar aplicar o conceito de genocídio a mortes de civis azeris em Khojaly é uma tergiversação da história para finalidades políticas, numa tentativa do governo azeri de construir uma narrativa na qual o Azerbaijão é vítima da Armênia, em uma simplificação da complexa relação dos dois povos que arrepia qualquer pessoa que se debruce sobre a história do Cáucaso”, concluiu o especialista.

**Errata: A reportagem indicou que o povo azeri classificou o episódio como genocídio, contudo, esta é uma afirmação de Baku.


+Saiba mais sobre o tema através do artigo "A guerra de Nagorno-Karabakh: as disputas em torno dos conceitos de ‘vítima’ e ‘genocídio’ no tempo presente", publicado na revista Tempo e Argumento da Udesc (qualis A2) e, escrito pelo professor da Universidade de Paris, Pedro Bogossian Porto, e Heitor Loureiro, do Grupo de Estudos e Pesquisa sobre o Oriente Médio.

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