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Caso Escola Base: A fake news que escandalizou o Brasil em 1994

Como a mídia serviu de juiz, júri e carrasco num caso em que os donos de uma escola foram acusados de molestar e praticar orgia com crianças

Vinícius Buono Publicado em 10/01/2020, às 07h00

A casa de Mauricio, um dos acusados, foi alvo de depredação pela massa ensandecida
A casa de Mauricio, um dos acusados, foi alvo de depredação pela massa ensandecida - Jusbrasil

Era o início do ano de 1994. Março, precisamente. O Brasil ainda era tricampeão mundial de futebol e Ayrton Senna ainda voava baixo nos circuitos da Fórmula 1.

Em São Paulo, o ano letivo havia acabado de começar para a escola de Educação Infantil Base, no bairro da Aclimação, em São Paulo. Tudo corria normalmente até o dia em que Lúcia Eiko Tanoue e Cléa Parente de Carvalho notaram comportamentos estranhos em seus filhos, estudantes da instituição, e se dirigiram à delegacia para prestar queixa contra seis pessoas relacionadas ao colégio.

De acordo com as mães, os donos da escola, Icushiro Shimada e Maria Aparecida Shimada, a professora Paula Milhim Alvarenga e seu esposo, Maurício Monteiro Alvarenga — o motorista da Kombi que levava as crianças para a escola — faziam orgias com as crianças de quatro anos de idade no apartamento de Saulo e Mara Nunes, pais de um dos alunos.

O delegado incumbido da investigação, Edélcio Lemos, enviou os filhos de Lúcia e Cléa ao Instituto Médico Legal e conseguiu um mandado de busca e apreensão ao apartamento onde, supostamente, as crianças eram abusadas.

Quando nada foi encontrado, as mães, indignadas, foram à Rede Globo. Foi a partir daí que o caso da Escola Base explodiu e virou referência. No mesmo dia, o laudo do IML foi analisado pelo delegado. Era inconclusivo, mas dizia que as crianças apresentavam lesões que podiam ser de atos sexuais. Foi o suficiente para o delegado, que deu declarações dúbias à imprensa. Os acusados já eram, aos olhos do povo, culpados antes de qualquer julgamento.

Como nenhum grande evento estava ocupando as manchetes na época, a mídia deu uma enorme atenção ao caso. Os veículos investigavam o delegado e vice-versa, e o que se seguiu foi uma série de notícias recheadas de informações cuja veracidade não havia sido comprovada. A manchete do tablóide paulista Notícias Populares, “Kombi era motel na escolinha do sexo”, apesar do sensacionalismo que lhes era peculiar, traduz com maestria a forma como a imprensa estava lidando com o caso.

A manchete do Notícias Populares dava pouca margem à interpretação / Créditos: Jusbrasil

 

Com o tempo, Lemos foi afastado da investigação, e os delegados substitutos ainda encontraram, por denúncia anônima, Richard Herrod Pedicini, um fotógrafo americano que morava nas redondezas da escola e, segundo a denúncia, vendia fotos das crianças molestadas.

A filha de Cléa foi levada ao apartamento do rapaz para fazer reconhecimento e quis brincar com uma abelhinha de pelúcia que estava no chão. Foi o suficiente para que fosse decretada a prisão preventiva do fotógrafo, enquanto a mídia já anunciava seu envolvimento com o caso. “Alunos da Escola Base reconhecem a casa do americano” era o principal assunto das manchetes. 

Invariavelmente, as provas da inocência começaram a aparecer. Quando a prisão preventiva de Saulo e Mara foi decretada, os advogados do casal finalmente tiveram acesso ao laudo do IML e viram o quão inconclusivo era, com a própria mãe de um dos meninos admitindo que ele sofria de constipação intestinal, uma das probabilidades apontadas pelo laudo. A partir daí, apareceram depoimentos de outras pessoas como funcionários do colégio e pais de outros alunos em defesa dos acusados.

Em junho, três meses depois, os suspeitos foram inocentados pelo delegado Gérson de Carvalho, um dos que assumiram a investigação. No entanto, o estrago já estava feito. Os danos psicológicos e morais aos acusados eram enormes, além, é claro, dos materiais. Os inúmeros gastos com o processo deixaram as finanças de todos completamente arruinadas. 

Os meios de comunicação foram acusados de não retratar a verdade de fato, declarando, apenas, que as investigações foram encerradas por falta de provas, sem necessariamente dizer que os acusados eram inocentes. Diversos processos foram movidos contra o Estado e a mídia. Maria e Icushiro faleceram sem receber todo o dinheiro que lhes era devido, ela de câncer em 2007 e ele de infarto em 2014.

Paula nunca mais conseguiu trabalhar como professora, pois ficou marcada como abusadora de crianças. Ela e o marido, Maurício, se divorciaram em virtude das dívidas e da paranoia incontrolável que o rapaz desenvolveu após o caso. Saulo e Mara, como os outros, também enfrentaram problemas financeiros. Richard, mesmo após a conclusão, passou anos angariando recursos para mostrar que ele era, de fato, inocente.

O caso da Escola Base se tornou objeto de estudo em diversos campos e cursos como jornalismo, psicologia e direito. A cobertura da imprensa foi completamente parcial e monofônica, com os envolvidos sendo crucificados sem nenhum direito de resposta e apenas a voz do delegado, que se deixou levar pelos holofotes, estava sendo ouvida pelos veículos da mídia.

Toda a história lançou uma luz nos poderes e responsabilidades da imprensa, e a discussão acerca da destruição de reputações se tornou mais séria do que jamais foi. Com o advento da Internet, onde nunca foi tão fácil manchar a imagem de alguém por qualquer coisa, o ocorrido na Escola Base serve como um bom paradigma do que fazer e, principalmente, do que não fazer nesse tipo de situação.


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