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As botas do socialismo: 10 peças do seu guarda-roupa que nasceram das guerras

Sobretudos, cintos, óculos escuros, camisetas: tudo isso nasceu no campo de morte

Marcelo Testoni Publicado em 14/12/2019, às 11h00

Exército soviético na Segunda Guerra Mundial
Exército soviético na Segunda Guerra Mundial - Getty Images

Uma guerra, seja qual for, deixa sequelas. Até na moda. Das sandálias de tiras de couro dos legionários romanos aos coturnos dos soldados contemporâneos, tudo pode acabar na passarela. A razão é simples: a indústria militar procura materiais duráveis e adequados a situações específicas.

Na Primeira Guerra, de 1914 a 1918, as mulheres assumiram o batente e os homens foram para o combate. Pela necessidade surgiram novos modelos de roupa, práticos, para facilitar o trabalho e a locomoção. Na Segunda Guerra, o racionamento levou à falta de tecidos e surgiram novas matérias-primas. Um exemplo: o principal fornecedor de seda dos Estados Unidos era o Japão.

"Foi quando a empresa química Du Pont apresentou o náilon, fio sintético usado para a fabricação de meias e paraquedas", diz João Braga, professor de história da moda da Faculdade Santa Marcelina.

Paris, então hegemônica no mundo das grifes, isolada pelos combates, teve de abastecer exclusivamente os nazistas e, contra a vontade, os franceses abriram o mercado do vestuário para a concorrência. O pronto para usar (ready-to-wear), na Inglaterra, aqueceu as exportações do país, com coleções feitas para encarar o inimigo. Após o fim do período de hostilidades, a moda retornou à vida civil e adotou e reinventou muito do que a guerra lançou.

Galochas (França, 1852)

Propagandas das galochas Aigle, de Hutchinson / Crédito: Wikimedia Commons

 

Produzidas por Hiram Hutchinson, empresário norte-americano radicado em Paris, as primeiras versões destinavam-se à população de agricultores. O processo de vulcanização, que solidifica borracha com enxofre e sulfetos, tornou-as impermeáveis e resistentes para manter os pés secos da umidade e da lama. Adequadas para as trincheiras alagadas da Primeira Guerra, mais de 2 milhões de pares foram comprados pelo Exército britânico. Na Rússia ficaram conhecidas como as botas do socialismo.

Cinto com fivela (Índia 1878)

A invenção parou no corpo de Hitler / Crédito: Getty Images

 

A ideia de criar o acessório partiu do general britânico Sam Browne, que perdeu o braço esquerdo em combate na Índia. Ele amarrou uma alça com fivela ao redor do corpo e outra por cima do ombro para que o cós não arriasse com o peso de sua arma. A engenhoca fez tanto sucesso que atravessou o século 19 e, em meio à Primeira Guerra, arrematou os culotes dos fuzileiros norte-americanos. Em 1940, foi parar nos quadris de Adolf Hitler.

Bolsa carteiro (Inglaterra 1882)

Carteiro francês e a bolsa transversal / Crédito: Wikimedia Commons

 

Foi inventada com o serviço internacional de encomendas e, como sugere o nome, usada por mensageiros e aviadores da Primeira Guerra. Existiam várias opções, sendo a de lona com alça de cruzar o peito a mais comum. Além de cartas, "as bolsas eram espaçosas o suficiente para acomodar máscaras contra gás", afirmam as historiadoras Valerie Mendes e Amy de La Haye, autoras de A Moda do Século 20. Em 1914, despachadas nas ferroviárias, transportavam escondidos os filhos de civis para longe das zonas de conflito. O envio clandestino de crianças só foi impedido na década seguinte.

Boina (França, 1889)

Che Guevara com sua clássica boina / Crédito: Wikimedia Commons

 

As primeiras boinas (não confundir com barretes) foram criadas pelas unidades policiais dos Alpes franceses. Ganharam destaque com os operadores de tanques blindados que se recusavam a usar toucas de lã em dias quentes. Para a Segunda Guerra, tipos feitos de fibra acrílica ganharam cores para diferenciar militares que as usavam. Os nazistas elegeram as versões de cores pretas, que, na década de 1960, voltaram, imortalizadas na imagem do guerrilheiro Che Guevara.

Sobretudo (Inglaterra, 1901)

O anuncio do sobretudo / Crédito: Wikimedia Commons

 

"A capa de lã até os joelhos protegia do tempo ruim e dos fragmentos de balas e bombas disparadas pelos soldados da linha de frente", diz o professor de história da moda João Braga. Em 1901, a Burberrys apresentou a ideia do trenchcoat para o Exército inglês. Durante a Primeira Guerra, alças e bolsos foram costurados em seu revestimento interno para carregar mapas, estojos de pólvora e espadas. O casaco de trincheira (trenchcoat) dos britânicos funcionava tão bem que foi copiado pelos exércitos da Europa Ocidental, Estados Unidos e União Soviética. Virou febre entre os civis, em especial mulheres, com o regresso dos veteranos.

Polainas (França, 1914)

Polaínas francesas: uso na cavalaria contra espinhos, tiros e cobras / Crédito: Wikimedia Commons

 

Na Primeira e Segunda Guerras, eram de couro, camurça e lona. Usadas até os joelhos, sobre sapatos, e ajustadas ao longo das panturrilhas, protegiam de tiros e picadas de cobra os tornozelos e pés dos oficiais da cavalaria e evitavam que água, neve e espinhos entrassem pela abertura das botas de cano longo. Atadas em tiras, destacavam-se acopladas aos uniformes dos zuavos, membros do Exército francês, no norte da África. Não confundir com pantalettes (usadas sob a armação das saias vitorianas) e perneiras casuais (adoradas pelos dândis) e patti (faixas de tecido para estancar ferimentos das pernas de soldados da Índia britânica).

Jaqueta (Estados Unidos, 1915)

A jaqueta do aviador: contra o frio da cabine sem pressurização / Crédito: Wikimedia Commons

 

Fazia eco ao design quadrado do casacão de couro dos franceses. Porém era mais curta e ajustada ao corpo. Em 1917, lã e pele confeccionaram golas e punhos para manter aviadores aquecidos em suas cabines sem pressurização. Com o avanço da tecnologia na Segunda Guerra, a seda do forro foi substituída por uma fibra artificial mais durável, o acetato. "A escassez levou à mistura de materiais e a novos conjuntos e modelos", diz o historiador Mamede de Alcântara, autor de A Missão da Roupa. Modelos mais elaborados recebiam aplicações de zíperes e bolsos frontais. Ombreiras e dragonas decorativas sinalizavam status.

Macacão (Estados Unidos, 1916)

O macacão: dos paraquedistas para os pijamas infantis / Crédito: Wikimedia Commons

 

Às vezes branco, para camuflagem na neve, o jumpsuit foi o terno de voo de paraquedistas da Segunda Guerra. Diferente do modelo jardineira - com suspensórios - vinha com colarinho fechado e mangas revestidas para planar sobre o vento e proteger o corpo do frio. Fácil de colocar e tirar, também atendeu mecânicos e trabalhadores. Durante a Guerra Civil Espanhola, foi eleito a roupa dos soldados esquerdistas. Inspirou os atuais pijamas infantis, fáceis de lavar e com zíper frontal. 

Óculos Ray-Ban (Estados Unidos, 1936) 

O ray-ban aviador: alternativa ás máscaras de voo / Crédito: Wikimedia Commons

 

Os aviadores da Segunda Guerra precisavam de tecnologia que protegesse seus olhos das queimaduras solares, mas sem ter o peso e tamanho das máscaras de voo da década de 1920. Como solução, lentes verde-escuras foram desenvolvidas por médicos norte-americanos em parceria com a empresa de acessórios italianos Ray-Ban, que desenhou e patenteou a armação metálica. As lentes degradê surgiram em 1940, com a parte inferior clara para não atrapalhar a visão dos pilotos do painel de controle do avião.

Camiseta listrada (União Soviética, 1940 )

Marinheiros russos no século 19: a moda ganhou o mundo depois da Segunda Guerra / Crédito: Wikimedia Commons

 

A telnyashka, como é conhecida pelos russos, foi promovida na Segunda Guerra a símbolo da masculinidade soviética mas já existia desde o século 19 como colete, não camiseta.  As brancas com listras azuis vestiam a infantaria naval; em terra, as tropas de fronteira preferiam as verdes. Os uniformes oficiais não incluíam camisas, apenas regatas e malhas de mangas compridas, sobrepostas por blusões decotados em V. Ganharam o mundo pelas mãos de pescadores e comerciantes.


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