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Inferno na torre: A tragédia das mulheres de Triangle Waist

O terrível incêndio deu origem a uma lenda sobre o Dia Internacional das Mulheres — que perdura até hoje

Thiago Lincolins Publicado em 08/03/2020, às 10h00

Corpos das mulheres mortas em Triangle Waist
Corpos das mulheres mortas em Triangle Waist - Domínio Público

Era 16h40 de sábado, 25 de março de 1911, quando o fogo tomou conta da Triangle Shirtwaist Company, em Nova York, onde 500 funcionários produziam roupas femininas. Em sua maioria, jovens imigrantes europeias: italianas, irlandesas, judias. O incêndio começou no oitavo andar da fábrica e começou a subir.

As saídas eram por elevadores e escadas externas, que davam para a Greene Street e a Washington Place. Os elevadores fizeram três viagens até suas portas entortarem pelo calor e ficarem inoperáveis. Das escadas, uma estava fechada. Para evitar que que as trabalhadoras cometessem furtos, um segurança mantinha a porta trancada e revistava suas bolsas antes de deixá-las sair pela escada da Washington Place. E o segurança foi dos primeiros a escapar, deixando a porta fechada.

Na outra saída, a da Green Street, ninguém conseguia descer por causa do fogo. Quem fez o contrário, subindo, se salvou — inclusive os donos e seus filhos, que visitavam a fábrica. Mas quando ela se tornou a única opção, terminou congestionada. Ninguém conseguia se mover para qualquer lado. Com o peso, a escada terminou por ceder, levando 30 pessoas ao seu destino final no solo. 

E isso era só o começo. 

Policiais e paisanos assitem às vítimas se jogarem /  Crédito: Domíno Público

 

Inferno na torre

Os bombeiros tentaram realizar resgates com escadas, mas elas não eram longas o suficiente. Às vítimas, restavam 3 opções: pular pela janela, se jogar dentro do fosso do elevador ou perecer no fogo.

Na rua, as pessoas assistiam boquiabertas ao show de horrores. No total, 62 pularam ou caíram ao tentar escapar das chamas. "Naquele dia eu aprendi um novo som, o mais horrível que se poderia imaginar. Era o do baque de um corpo vivo caindo num asfalto", disse William Gun Shepard, repórter que cobriu a tragédia.

Interior do prédio após o incêndio /  Crédito: Domínio Público

O "castigo"

123 mulheres imigrantes – na maioria judias e italianas, que tinham 16 e 23 anos – e 23 homens, faleceram na tragédia.

O laudo concluiu que o descarte de uma bituca de cigarro, ainda acesa, numa lixeira de madeira, foi a provável causa do incêndio. Na lixeira e pelo andar, havia restos de tecidos, acumulados por dois meses. A única coisa não altamente inflamável era a borda de aço da lixeira.

A Triangle Waist Company ocupava o oitavo, nono e décimo andares do edifício Asch, de 10 andares, na área residencial de Greenwich Village, Nova York. Max Blanck e Isaac Harris eram os responsáveis pela companhia. As jovens trabalhavam 9 horas por dia durante a semana e 7 aos sábados. Descansando apenas aos domingos, ganhavam entre 7 e 12 dólares (hoje equivalente US$ 174 e US$ 299) por semana.

Blanck e Harris já tinham uma péssima reputação. Quatro incêndios suspeitos haviam atingido antigas empresas suas. Em 14 de dezembro 911, num julgamento de apenas 3 semanas, os dois foram acusados de homicídio culposo, responsáveis pela tragédia ao manter uma saída trancada.

A defesa usou de um ardil: pediu para uma sobrevivente repetir sua história várias vezes. Como ela usou de frases idênticas, o advogado argumentou que o testemunho havia sido decorado e todos os trabalhadores eram suspeitos. Os donos foram inocentados, com o júri aceitando a tese de que não sabiam da porta trancada. 

Máquinas destruídas /  Crédito: Domínio Público

 

Mas não havia terminado. Em 1913, um processo civil terminou em condenação.

As famílias receberam uma indenização de US$ 75 dólares (hoje equivalente a US$ 1,854.44) por vítima. Já a companhia de seguros pagou a Blanck e Harris US$ 60 mil dólares (hoje equivalente a US$ $1,483,551) cerca de US$ 400 dólares por acidente.

O incêndio da Triangle Waist não é a origem do Dia Internacional da Mulher, que surgiu antes e terminou fixado em outra data. Mas sua história é praticamente idêntica à dosuposto incêndio de 8 de março de 1857, sobre o qual não há qualquer prova.


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