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Homofobia e conservadorismo: as maiores polêmicas do papa Bento XVI

O sumo pontífice alemão chegou a renunciar em 2013, dadas as pressões causadas por suas posições polêmicas e falta de carisma

André Nogueira Publicado em 09/05/2020, às 09h00

Papa Bento XVI
Papa Bento XVI - Wikimedia Commons

Joseph Ratzinger, entronado papa Bento XVI em 2005 foi um polêmico pontífice que governou o Vaticano com base em um forte autoritarismo e uma visão sisuda e conservadora do papel da Igreja Católica na sociedade. Saindo do cargo em 2013, por pressões pessoais e institucionais, ele governou por quase oito anos em benefício de promessas de estreitamento clerical e moralização num conclave altamente disputado.

Bento encabeçou uma série de posições delicadas que abalaram a credibilidade e a simpatia da igreja, principalmente entre os jovens. Contra avanços humanistas crescentes no século 21, como o apoio à liberdade sexual, a tolerância religiosa, o combate a crimes institucionais e a quebra dos padrões da Guerra Fria, seu pontificado foi bastante questionado.

Conservadorismo retrógrado

Um papa substituiu o outro / Crédito: Divulgação/YouTube

 

A questão da homossexualidade foi central em seu comando na Igreja. Além de condenar a prática, o inicio de seu governo anunciou a proibição completa de integração de gays como padres católicos. Bento disse que a instituição nunca deveria “admitir no Seminário e nas Ordens Sacras aqueles que praticam a homossexualidade” ou qualquer um que apoie “a chamada cultura gay”. Ao lado da questão do aborto, o pontífice assumiu uma posição intransigente: as práticas devem ser condenadas, assim como sua legalização.

Ele chegou a afirmar que qualquer padre que defendesse o aborto deveria ser excomungado. Num dos casos, em 2007, reafirmou essa posição também no Brasil, atacando alguns clérigos progressistas latino-americanos. Na mesma ocasião, chegou a declarar que os padres o do mundo colonial nunca impuseram religiosidades entre indígenas, apenas os purificou contra uma religião pagã retrógrada.

Seu mandato também foi fortemente abalado pelas denúncias acobertadas de pedofilia entre autoridades religiosas do catolicismo, muitos deles conectados à alta cúpula dos cardeais. Quando, em 2010, padres europeus foram judicialmente acusados de abuso de menores, tentou diminuir as tensões, mas no final foi obrigado a demitir uma série de bispos. Muitos acusam Bento de favorecer a demora nos processos de exoneração desses clérigos.

Papa Bento / Crédito: Getty images

 

Debaixo dos panos

Outra polêmica do Papa Bento XVI está relacionada ao seu passado sombrio, pois o religioso fizera parte da Juventude Hitlerista na época do Terceiro Reich e nunca negou certa afeição pela extrema-direita. Muitos comentam até de aproximação da igreja com certos núcleos neonazistas, o que inclusive foi confirmado quando o comandante da Igreja revogou a exoneração de Richard Wiiliamson, bispo britânico.

Williamson era um tradicionalista que havia negado o Holocausto em rede televisiva, gerando grande revolta. Quando o padre voltou à Igreja, por ação do papa (que também exonerou a excomunhão de outro bispo de direita), o governo alemão exigiu retratações.

Se não bastassem as diversas especulações, em 2011, o Vaticano foi abalado com um escândalo: o Vatileaks. Trata-se do vazamento de uma série de documentos confidenciais do arquivo da cidade, por parte do mordomo Paolo Gabriele.

Ao lado do motorista do papamóvel, Paolo Gabriele / Crédito: Wikimedia Commons

 

As revelações provaram uma rede de ações ilegais e obstruídas no governo da Santa Sé, envolvendo corrupção, desvio de dinheiro, nepotismo, associação internacional, entrega de cargos, manipulação e abuso de poder. Diversos textos demonstravam que disputas internas na Igreja e manobras políticas que provaram que o Vaticano não era religiosamente ilibado de problemas de ordem governamental.

Negação do diferente

Em 2007, Bento XVI voltou a gerar polêmicas entre os outros cristãos que não seguiam o catolicismo. Com apoio direto do papa, a Congregação do Vaticano para a Doutrina da Fé — o núcleo de apoio que Ratzinger comandava antes de ser eleito papa — anunciou que a Fé Católica era a única verdadeira e aceita por Cristo. A alegação gerou revolta entre os protestantes.

Fato ocorreu pouco tempo depois que Bento criou um verdadeiro cisma entre as religiões abraâmicas ao ofender os países muçulmanos. O então Santo Padre declarou, usando como exemplo o Império Bizantino, que o islamismo só trouxe mal à humanidade, baseando sua expansão “pela espada”.

Ratzinger quando era cardeal / Crédito: Getty Images

 

O ato motivou protestos e exigiu uma série de retratações, em que o Papa teve que visitar a Turquia e realizar cerimônias de unificação, com uma reconciliação simbólica e uma visita à Mesquita Azul de Istambul.

As polêmicas isolacionistas do pontífice não se restringiram às outras religiões: seus atos também levaram ao maior afastamento da religião com a ciência. Ao declarar uma lista de “sete pecados mortais modernos”, em que ele declarou como anticristão “participar de experimentos científicos duvidosos e de manipulação genética”, além de, em outras ocasiões, ter confrontado geneticistas, astrofísicos e biólogos.


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