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Incesto, inimiga de missionários e morte do filho: a trágica vida da princesa havaiana Nahiʻenaʻena

Desafiando a hegemonia dos evangelizadores cristãos nas ilhas do Havaí, ela encontrou diversos obstáculos

André Nogueira Publicado em 25/04/2020, às 08h00

Nahiʻenaʻena por Robert Dampier
Nahiʻenaʻena por Robert Dampier - Domínio Público

Harriet Nāhiʻenaʻena foi uma princesa do Reino do Havaí que viveu no século 19 e tornou-se vítima das pressões e imposições dos europeus durante a lenta dominação política das ilhas do Pacífico, quando os regentes locais foram convertidos ao cristianismo e levados à mudança dos costumes. Filha de Kamehameha, O Grande, ela cresceu ao lado de dois futuros reis havaianos, Kamehameha II e Kauikeaouli, seus irmãos.

Nahiʻenaʻena era, na tradição do Havaí, uma pessoa de importante posição politica. Como último filho do rei (muli loa), ela seria responsável por diversas articulações políticas e sociais do reinado, posição de prestígio caracterizada pelo que os havaianos chamavam de kuleana, ou seja, uma responsabilidade privilegiada.

No entanto, aos dez anos de idade, Nahiʻenaʻena já encontrou um obstáculo diante da morte de seu irmão, que viera a óbito no navio HSM Blonde após contrair sarampo numa viagem diplomática ao Reino Unido. O funeral de Kamehameha II foi litúrgico e marcante, sendo retratado até mesmo pelo artista britânico Robert Dampier.

Com a ascensão de Kauikeaouli como rei Kamehameha III, os dois irmãos mais novos eram os últimos da geração dinástica havaiana e, de acordo com as tradições locais, a melhor maneira de manter firme as tradições e o poder da família real nas ilhas era o casamento entre irmãos, mantendo a genética régia circunscrita a um círculo fechado.

Nahiʻenaʻena / Crédito: Wikimedia Commons

 

Nahiʻenaʻena desejava casar-se com Kamehameha III e o matrimônio era incentivado pelos chefes locais. No entanto, o ato era visto como herético pelos missionários que trabalhavam na evangelização do Havaí: o incesto já era visto como pecado. Então, os cristãos se opuseram fortemente à manobra política, o que também enfraquecia o poder dinástico.

Acontece que Nahiʻenaʻena também despertava a fúria dos missionários cristãos, pois sua posição sempre foi de confronto com o não questionamento às suas crenças. Na época, parte da elite havaiana vivia num regime religioso sincrético, onde muitas tradições originárias conviviam com a nova cultura europeia, e a princesa confrontava a presença dos estrangeiros. Contra diversas obrigações do dogma protestante, ela interrompia cultos, questionava padres, relatava insatisfações e não aceitou se converter.

Assim, relutância dos cristãos em relação ao casamento incestuoso forçou Nahiʻenaʻena a abandonar o plano. Ela foi levada a se dedicar a um novo noivo, o filho do Chefe Supremo do Havaí, William Pitt Leleiohoku. Resistente, o seu irmão, Kamehameha III, optou por atrasar a cerimônia, tentando articular uma alternativa e insistindo que o garoto fosse "educado" antes. Porém, o casamento ocorreu em 1835, numa igreja na ilha de Maui.

Abalada, a princesa chegou a engravidar no ano seguinte, sendo que o monarca acreditava ser filho dele. Quando a criança nasceu, o rei a declarou herdeira do trono, mas foi em vão: o bebê morreu nas primeiras horas de vida.

Isso levou Nahiʻenaʻena à uma amargura profunda, e a nobre nunca mais se recuperou física ou psicologicamente. Infeliz e doente, porém sem um diagnóstico determinado, Nahiʻenaʻena morreu menos de quatro meses depois do parto, próxima à casa do irmão e antigo amante.

Vestes tradicionais de chefe militar do Havai / Crédito: Wikimedia Commons

 

Oficialmente, Nahiʻenaʻena faleceu em 30 de dezembro de 1836, mas o fato ocorreu, na prática, dia 5 de janeiro. Porém, isso não foi um erro burocrático: segundo a tradição havaiana, há duas mortes, uma da mente e outra do corpo.

O país ficou mais de um mês de luto pela morte da princesa, até que foi realizado o cortejo fúnebre, comandado por lideranças guerreiras tradicionais. Seu corpo foi levado de navio até Mokuʻula, um local sagrado em Maui onde foi enterrada ao lado da rainha Keopuolani, sua mãe.


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