Matérias » Brasil

Mulher que causou polêmica em 'Os Pobres Vão À Praia' não tem a opinião do passado

A histórica reportagem dos anos 80 ficou marcada pela opinião da jovem

Wallacy Ferrari Publicado em 12/03/2022, às 09h00

Cena do episódio 'Os pobres vão a praia'
Cena do episódio 'Os pobres vão a praia' - Divulgação / Bloch

A reportagem 'Os Pobres Vão À Praia', que foi ao ar no ano de estreia do ‘Documento Especial", não apenas repercutiu na programação da extinta Rede Manchete, mas marcou o final dos anos 1980 pelo debate diante da ocupação de praias por pessoas do subúrbio, como mostrou o episódio.

Nele, a trajetória de moradores de bairros menos favorecidos socioeconomicamente era mostrada até a chegada em praias de bairros nobres do Rio de Janeiro, enaltecendo as condições extremas que enfrentavam no caminho pelos ônibus, com veículos lotados, brigas, assédios e até um homem desacordado após um grave acidente ao pular de uma pedra.

Contudo, o outro lado da reportagem se deu ao entrevistar frequentadores da praia que residiam na região, que manifestavam completo desapreço pelas pessoas de regiões pobres que visitavam o local.

Os argumentos se embasaram na sujeira que deixavam pela areia, pela falta de educação e, no caso de uma entrevistada, pelas cenas de preconceito explícito, como classificou o letreiro do programa.

Declaração marcante

Nas imagens, uma jovem moradora da região onde a praia de bairro nobre era localizada, aproveitou o palanque para manifestar seu real sentimento sobre compartilhar aquele espaço público: “Botaram uns ônibus horrorosos que saem umas pessoas completamente horríveis dentro dos ônibus e vão lá sujar a praia”.

É sujeira você pegar uma pessoa que mora em Ipanema, uma pessoa bem-vestida, legal, que tem educação e colocá-la na praia no meio de um monte de gente que não tem educação, que vá dizer grosseria, que vai comer farofa com galinha. Vai matar as pessoas de nojo”, acrescentou.

Durante os três cortes de sua fala, ela ainda classifica a população suburbana que descia a serra para aproveitar praias de bairros de alto padrão como “sub-raça” e do “mangue”, os descrevendo com características animalescas.

Trecho de depoimento da jovem em entrevista / Crédito: Divulgação / YouTube / Documento Especial

Outra visão

Durante a crise de arrastões no Rio de Janeiro de 2015, o episódio voltou a ser amplamente compartilhado nas redes sociais — não apenas para mostrar que a falta de educação nas praias ocorrem desde antigamente, mas enaltecer como pessoas preconceituosas se aproveitavam dos episódios para manifestar preconceito. Contudo, a mulher do vídeo fez questão de se identificar, 26 anos depois da reportagem ir ao ar, através de um comentário no Facebook.

Tratava-se de Angela Moss que, em 2015 condenou as opiniões que manifestou na reportagem da Manchete, enaltecendo que a opinião e vídeo eram verdadeiros, mas disse que "mesmo culta era uma alienada".

Na época, também disse que ficava feliz com o incômodo popular de seu comentário, pois estes demonstram que a sociedade, assim como ela, evoluiu e se mantém contrária a tal opinião egoísta.

Em entrevista à BBC Brasil no mesmo ano, ela ainda acrescentou que recebeu algumas mensagens parabenizando o comentário preconceituoso, que não se orgulha: "Mudei de opinião. Evolui. Não sou mais essa pessoa. Por isso resolvi colocar minha cara a tapa, em vez de pedir para tirarem o vídeo do ar".