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Quando Hebe Camargo quase tirou o SBT do ar por 30 dias

Ao exibir entrevista polêmica, o programa da apresentadora se enquadrou em dois artigos do Código Brasileiro de Comunicações

Letícia Yazbek Publicado em 25/09/2019, às 08h00 - Atualizado às 10h00

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Crédito: Reprodução

Era 17 de fevereiro de 1987 quando Hebe Camargo recebia em seu programa o jornalista Gilberto Di Pierro, mais conhecido como Giba Um. Ao falar sobre o trabalho da Assembleia Nacional Constituinte, que preparava a Constituição de 1988, Giba despertou a raiva dos deputados.

Durante a entrevista exibida pelo SBT, o jornalista chamou os parlamentares de “malandros, patifes, corja de safados”, e afirmou que eles só trabalhavam “em benefício próprio”.

Então, o deputado Plínio de Arruda Sampaio, então filiado ao PT, sugeriu a Ulysses Guimarães (PMDB), presidente da Constituinte, que fosse convocada uma cadeia nacional de rádio e televisão para mostrar aos espectadores, durante 15 minutos, os trabalhos desenvolvidos pela casa.

“A instituição foi ultrajada, talvez por leviandade, o que é inadmissível em um programa, principalmente com os meios de comunicação que atingem áreas ponderáveis ou muito grandes da população. O que é pior, no intuito de desmoralizar o Congresso Nacional na sua expressão mais alta, a Assembleia Nacional Constituinte, o que significa desmoralizar a própria democracia”, afirmou Guimarães, em discurso aplaudido pelos deputados.

O caso foi investigado pelo Dentel (Departamento Nacional de Telecomunicações), extinto em 1990, que requisitou a fita do programa. Ao exibir a polêmica entrevista, o SBT se enquadrou em dois artigos do Código Brasileiro de Comunicações.

“No 53, letra I, está prevista pena que vai de advertência à suspensão por até 30 dias nos casos de transmissão que seja considerada calúnia, difamação ou injúria aos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário ou aos seus respectivos membros”, explicou o Jornal do Brasil na época.

De acordo com O Estado de S.Paulo, o então superintendente do SBT, Luciano Callegari, encaminhou as cópias do vídeo ao Ministério de Comunicações para provar que não houve ofensa grave na fala de Giba Um. Já de acordo com Carlos Henrique de Almeida Santos, diretor regional do SBT em Brasília, a empresa não se responsabiliza pelo que é dito por um entrevistado em um programa ao vivo.

Segundo o Estadão, Giba Um lembrou-se de ter se referido aos deputados como “corja”, mas se defendeu: “Existe o direito ao livre pensamento no país; caso contrário temos de volta a censura”.

A emissora não recebeu a suspensão e o programa de Hebe Camargo foi exibido pelo SBT até 31 de março de 2010.

A trajetória de Hebe Camargo e sua luta contra a censura são abordadas no filme Hebe — A estrela do Brasil, que estreia nos cinemas na próxima quinta-feira, 26 de setembro.