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Separadas no nascimento: a emocionante história das gêmeas Elyse Schein e Paula Bernstein

Nem ao menos as famílias adotivas sabiam que a menina que eles estavam levando para casa possuía uma irmã idêntica

Isabela Barreiros Publicado em 14/10/2020, às 18h21

Paula Bernstein e Elyse Schein, as gêmeas separadas no nascimento
Paula Bernstein e Elyse Schein, as gêmeas separadas no nascimento - Divulgação/Youtube

Em 2002, Elyse Schein estava decidindo o que iria fazer em uma manhã tediosa na cidade de Paris, na França. Adotada, ela resolveu pesquisar informações sobre o processo de adoção pelo qual ela havia passado. Um ano depois, ela recebeu uma carta enviada pela agência de adoção Louise Wise Services, revelando um fato antes desconhecido para ela.

“Você nasceu às 12h51 como a mais jovem das gêmeas de uma judia de 28 anos solteira”, estava escrito na correspondência. Aos 33 anos de idade, a mulher tomou uma decisão súbita e acabou descobrindo a informação mais inesperada da sua vida. Em entrevista ao The Guardian em 2007, disse: “Eu estava pensando no que estava acontecendo na minha vida e parte dessa dúvida era querer descobrir sobre esses pais biológicos por aí”.

Esse era apenas o começo de uma história que conta com reviravoltas impressionantes, dignas de filme, ou, pelo menos, um livro. A última parte, de fato, aconteceu: em 2007, foi publicado o livro Identical Strangers: A Memoir of Twins Separated and Reunited (Gêmeas idênticos: a memória de duas gêmeas separadas e reunidas, em tradução livre).

A vida antes do reencontro

Crédito: Divulgação/Youtube

 

Elyse trabalhava como recepcionista em uma firma francesa, mas sua paixão mesmo era ser o que era fora do escritório: uma cineasta independente. Ela não tinha filhos e era solteira na época em que descobriu ser gêmea, mas sua vida antes já havia demonstrado suas complicações. 

A mãe adotiva da mulher morreu quando ela tinha apenas seis anos de idade. Lynn faleceu com a idade que Elyse tinha na época, 33 anos, devido a um câncer. Ela passou a maior parte de sua infância no estado americano de Oklahoma, onde vivia junto com seu irmão, também adotivo, que sofria com esquizofrenia.

Durante todos os anos de sua vida, a jovem se questionou sobre seus pais biológicos, mas nunca tinha ido atrás de tais informações. Tudo mudou naquela manhã monótona. Seis meses depois de receber a resposta da agência, contendo o segredo sobre seu nascimento, ela partiu para Nova York, onde pretendia encontrar sua irmã perdida.

Ela pensava que esse trabalho seria muito difícil, afinal, ela não tinha muitos dados sobre quem seria a pessoa misteriosa com a qual ela tinha dividido o útero. No entanto, um funcionário da Louise Wise Services comunicou à Elyse que uma mulher de nome Paula Bernstein havia os contatado há pelo menos uma década perguntando a mesma coisa.

E eles conseguiram encontrar a peça que faltava. Em Nova York, Paula , uma jornalista especializada em cinema, casada e com uma filha, atendeu o telefone e, depois da identificação — era uma funcionária da agência de adoção, — ouviu do outro lado: “Tenho algumas novidades para você. Odeio despejar isso em você, mas você tem uma irmã gêmea!”. 

“Foi uma mistura de euforia e medo. Exaltação por ter entendido este elemento-chave da minha identidade. Não apenas eu tinha uma irmã gêmea no mundo, mas de repente eu era uma irmã gêmea. Mas então havia o medo de que essa pessoa fosse me substituir. O medo do doppelgänger, a ideia de duelar com o seu sósia. E se meus amigos a tivessem visto na rua e pensado que ela era eu? E se ela estivesse com meu ex-namorado e eles tivessem se casado!”, disse Elyse.

Para Paula, a sensação foi até mesmo mais negativa e abrupta: “Foi como se uma laje de cimento tivesse caído no meu peito, me impedindo de inspirar. Foi como se toda a minha vida fosse uma mentira. E havia uma falta de controle sobre a descoberta, o que criava medo por si só. Isso me deixou paranóica. E se houvesse algo mais lá fora também?”.

O reencontro e as similaridades

Crédito: Divulgação/Youtube

 

Não tinham se passado nem duas horas quando as duas ocuparam os dois lados de um telefonema. Parecia que estavam ouvindo a si mesmas na chamada de voz. Como Elyse já estava na cidade em que a irmã vivia, foi fácil de elas se encontrarem. Mas isso não tornou toda a situação mais tranquila, afinal, elas tinham vivido 35 anos sem saberem da existência da outra.

Somente com esse texto, já é possível perceber que elas tinham coisas em comum. A paixão por cinema pode ser considerada a primeira delas, se não levarmos em conta a aparência completamente similar das gêmeas idênticas. No livro, as irmãs narram que elas, mesmo com todo esse tempo distantes, possuíam as mesmas manias e alergias, além do posicionamento político. 

Elyse voltou para a França e as irmãs tentaram durante muito tempo desenvolver uma relação, por mais que fosse estranho. Depois disso, elas continuaram mantendo contato e, enfim, sendo uma família, com visitas e telefonemas constantes. 

A história do nascimento

Por mais que elas tivessem se encontrado, sanando uma curiosidade latente, muitas informações ainda faltavam para que a história estivesse completa. O primeiro fato importante foi que as duas nasceram no Hospital de Staten Island, nos Estados Unidos, em 9 de outubro de 1968 e foram levadas para a agência de adoção, a já conhecida Louise Wise Services.

Elas são filhas biológicas de Leda Witt, uma jovem que possuía um quadro grave de doenças mentais e que, com o nascimento das crianças, decidiu não criá-las, dando as meninas para a instituição. Ela estava internada em um hospital psiquiátrico depois de uma tentativa de suicídio. Infelizmente, Leda morreu em 1978, sem saber do destino de suas filhas, as quais tinha nomeado originalmente como Marian e Jean

Nem ao menos as famílias adotivas sabiam que as meninas eram gêmeas. E isso ocorreu não por coincidência: foi um projeto desenvolvido pela psiquiatra-chefe do Louise Wise Services, Viola Bernard, durante o os anos 1960. Ela pensou que, ao separar gêmeos adotados, eles seriam ainda mais parecidos do que aqueles que sabiam da existência do outro.

Segundo o pensamento da especialista, gêmeos que são criados juntos, ou ao menos próximos, tentam ao máximo diferenciar-se um do outro, exatamente por já serem muito parecidos fisicamente. Foi então que ela comunicou sua tese ao psicólogo Peter Neuberger, que decidiu testar a hipótese. Eles identificaram cinco pares de gêmeos idênticos e um caso de trigêmeos para analisar seus comportamentos.

No entanto, as irmãs protagonistas dessa reportagem acabaram sendo excluídas do projeto porque possuíam pesos muito diferentes. Mesmo que não estivessem mais fazendo parte do estudo, já haviam sido separadas e não sabiam da existência da outra. 

A pesquisa foi parada na década de 1980 e os estudos foram arquivados na Universidade de Yale. Durante muito tempo, as pessoas que estiveram envolvidas nesse trabalho, sem nem ao menos saberem, exigiram que os resultados fossem expostos, mas a resposta foi que somente em 2066, quando as gêmeas tiverem 98 anos, as conclusões serão reveladas.


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