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A trágica — e fatal — situação das Garotas de Radium, vítimas da negligência patronal

Essas mulheres foram deliberadamente infectadas com tintas radioativas, após a empresa de relógios em que trabalhavam permitirem contato direto sem alerta do perigo

André Nogueira Publicado em 23/04/2020, às 15h00

Trabalhadoras da U.S. Radium New Jersey
Trabalhadoras da U.S. Radium New Jersey - Wikimedia Commons

No início do século 20, antes das regulações do mundo do trabalho, acidentes envolvendo operários e funcionários da indústria passavam despercebidos e impunes, levando ao seu aumento. E esse tipo de tragédia não ocorria apenas em acidentes mecânicos: questões como insalubridade e até radiação faziam com que a vida de trabalhadores corresse riscos desnecessários em nome do barateamento da produção.

Esse foi o caso das Garotas do Radium, uma série de mulheres que acabaram infectadas por alta radiação na United States Radium, em 1917. Nessa situação, milhares de mulheres trabalhavam na pintura manual de mostradores de relógios com uma tinta auto luminosa e atraente, que lhes foi dita ser inofensiva. Acontece que esse pigmento continha radium, uma substancia altamente radioativa.

E não bastasse essa contaminação ser passível de ocorrer por via da pele, era completamente permitido que as moças lambessem seus pincéis para dar uma ponta mais fina, juntando as cerdas. Não apenas a prática era permitida, mas corriqueiramente encorajada, como forma de manter a excelência na produção dos mostradores. Aqueles pincéis, como é comum, perdiam o formato com muita facilidade.

A consequência não poderia ser diferente: todas as moças que trabalharam naquele setor da fábrica de Nova Jérsei, incialmente (e, depois, Illinois e Connecticut), tiveram envenenamento por radiação, inclusive por passarem a tintura nas unhas, por ser brilhante. Anemia, perda de cabeço, queimaduras e até necrose mandibular ocorreram em seus corpos nos anos seguintes.

Fragmento de propaganda da tinta de rádio / Crédito: Wikimedia Commons

 

Então, essas mulheres começaram a apresentar os sintomas massivamente, que iam desde as mas singelas manchas nas peles, até fraturas nos ossos, necroses, dores corporais e cancros. Hoje se sabe que, inclusive, alguns exames médicos para essas mulheres foram deliberadamente fraudados em defesa da empresa responsável pelas infecções. Ao mesmo tempo, se discute que o raio-X usado na análise das pacientes possa ter agravado suas situações.

Acontece que é impossível declarar que não se sabia da existência do perigo em relação a essa substância mortal. Não apenas Marie Curie já havia demonstrado os efeitos do radium, elemento que ela descobriu, na pele (afinal, a palavra radiação vem justamente desse átomo), como os cientistas, proprietários e fornecedores da tintura se esforçavam para não terem o contato com a substância. Os químicos da empresa a manuseavam luvas, máscaras e telas de chumbo.

É estimado que mais de 4 mil mulheres tenham sido contratadas para atuarem como pintoras com essas tintas tóxicas, que misturavam o rádio com água e cola. Na maioria dos casos, elas eram mal pagas. Diante da situação, muitas delas morreram nos anos seguintes, sem saberem a razão e sem dinheiro para buscarem ajuda médica. Porém, não se sabe a quantidade exata de mortos por conta da radiação.

Laboratório de Cristalização do rádio na U. S. Radium / Crédito: Wikimedia Commons

 

Após o trágico decorrer das mortes e demonstrações físicas do envenenamento, cinco ex-trabalhadoras da United States Radium decidiram unir forças para processarem o empregador e a empresa, levando o caso para a Justiça, inaugurando essa questão no direito do país. Sua luta contra a impunidade dos patrões levou ao estabelecimento, baseado no Direito Comum, de que trabalhadores, individualmente, podem processar seus empregadores por conta de contração de doenças ocupacionais nos EUA.

Diante das acusações de negligência por parte das trabalhadoras, a United States Radium rejeitou a fala de que as mulheres foram expostas à radiação, e, com apoio de médicos, dentistas, cientistas e mídias, ocultaram dados sobre a situação. Acusaram as mulheres de terem DSTs e infecções alérgicas, chamando-as de mentirosas e destruindo suas reputações.

Porém, com o tempo, se tornou impossível ocultar a crise radioativa. Em alguns casos, foram acionados tantos recursos jurídicos em processos que levaram à condenação da empresa, que a questão chegou à Suprema Corte dos EUA. No caso de Illinois, que foi o mais traiçoeiro com os funcionários, foram necessárias oito derrotas até que indenizações e multas fossem realmente pagas pelo empresário, o que ocorreu apenas em 1938.

Mãos afetadas por radiação / Crédito: Divulgação/Youtube

 

Foi somente em 1933 que foram coletadas as primeiras medições da radiação que era expelida do corpo de algumas das sobreviventes do caso de Illinois, quando o médico Robley D. Evans começou a ajudar 27 funcionárias da empresa responsável pela situação. Foi a partir dessas medições que se tornou possível estabelecer os níveis aceitáveis de rádio pelo corpo humano, se estabelecendo como inaceitável qualquer contato com mais de 0,1 μCi — micro-Curie — (3,7 kBq — quilo-Becquerel)  de radiação para a tolerância do organismo humano.


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